Por uma cultura conectiva das ações libertárias: a mística como fonte de alimentação, no chão do dia-a-dia

Historicamente vocacionados a perseguir uma vida em plenitude, isto é, uma vida com liberdade, defrontamo-nos, a cada dia, com uma multiplicidade de obstáculos existenciais, de natureza vária. Aqui e ali, até conseguimos protagonizar uma ou outra ação impregnada deste horizonte libertário, mas, em seguida, nos flagramos em situações franca ou veladamente contraditórias…

No plano político, por vezes, logramos testemunhar iniciativas valiosas, ao tempo em que, noutras esferas da vida, nos damos conta de que estamos a contradizer princípios ou metas correspondentes ao que declaramos, no âmbito político. Coisa ainda pior sucede no campo religioso: passamos uma imagem de compromisso com o horizonte ético, pelas vias do Sagrado, de um lado, e, de outro, nos percebemos em situações frontalmente em choque com a imagem transmitida.

Em momentos de crises mais agudas, tais contradições soem vir a lume, com maior frequência. É sabida a imagem passada por não poucos integrantes da chamada “Bancada evangélica” da Câmara. Não poucas de suas figuras de referência transmitem de si uma imagem de guardiães da moral, dos bons costumes e dos valores sagrados. Não raramente, por outro lado, resultam intrigantes cenas bizarras protagonizadas por algumas dessas mesmas figuras. Tanto mais, quando fazem questão de usar e abusar do nome de Deus. Apenas dois casos ilustrativos, pela sua força didática. No auge das graves e numerosas acusações assacadas contra o ex-Deputado Eduardo Cunha, este foi recebido por alguns pastores, em seus respectivos templos, para receber algum tipo de elogio e apoio públicos, como é possível observar-se nos Vídeos que seguem, acessíveis pelos respectivos “links”:

https://www.youtube.com/watch?v=gPK3bFktWrQ

https://www.youtube.com/watch?v=E1qKVqX5oYI

Trata-se de casos extremos e bem à vista. Evidentemente, isto não se passa apenas no mundo Evangélico. Estende-se pelas mais distintas expressões religiosas. Importa, igualmente, ter presentes tantos casos que ocorrem no dia-a-dia bem menos à vista, mas não menos éticamente comprometedores. Também, isto não se passa apenas na esfera religiosa: nas mais diversas esferas da vida cotidiana, algo semelhante se passa. E, tal como no caso daquelas figuras de notoriedade algo semelhante e até com mais frequência, se dá nas diversas esferas do dia a dia, envolvendo também pessoas comuns.

Tais exemplos assumem um grau de maior reprovação, quando se tenta encobrir os malfeitos justificá-los, sem qualquer atitude de reconhecimento da gravidade dos feitos, o que só agrava ainda mais os deslizes cometidos: “bis peccat qui crimen negat” (peca duas vezes quem nega o crime).

O processo de humanização se da no chão da história, numa infinda multiplicidade de fios existênciais, isto é, numa enorme diversidade de situações. O desafio maior para quem se empenha no próprio processo de humanização é de dupla ordem: de um lado, tomar consciência da ampla diversidade e da complexidade desses fios existênciais; por outro lado, consciente de seu inacabamento e de seus limites, cuidar de ir costurando esses mesmos fios, de modo adequado e de modo a que seja capaz de ir tecendo-os, na perspectiva do horizonte perseguido. Não se trata de idealizar ingenuamente, como se para tanto bastasse um resoluto golpe de vontade (voluntarismo), sem se dar conta dos próprios limites e da complexidade das situações histórico-existênciais em curso ou a serem enfretadas, dia após dia. São, com efeito, de grande porte os desafios supervenientes. De todos os lados, despontam dificuldades. O fato de estarmos mais atentos e preparados para um enfrentamento exitoso, num ou em alguns de tantos que surgem, não deve nos contentar ou nos resignar com o já feito. Atitude, aliás, a ser testemunhada, não apenas diante das micro-relações, mas igualmente ante as macro-relações. Nestas, por exemplo, de modo a vencermos a tendência dominante, por exemplo, no plano do enfrentamento das mazelas do Estado, não raro, contentando-nos com a mera exigência de “mais verbas” para isto ou para aquilo, sem nos darmos conta de que não basta o “quantum” demandado, se negligenciarmos o poder extremamente corrosivo dos tantos “ralos” criados ao sabor de um Estado subserviente aos caprichos de uma classe dominante perdulária, usando e abusando de numerosos “ralos”, por onde escorrem escandalosos percentuais do bolo orçamentário, antes que cheguem (se e quando chegam!) aos destinatários formais/nominais. No longo e sinuoso percurso burocrático, entre os percentuais formalmente definidos e as habituais vítimas destinatárias, mil e um desvios se terão interposto, sob múltiplas formas – desde os “rent seekers” (caçadores de renda, velhas raposas, que agem como verdadeiras quadrilhas profissionais, sob o manto da legalidade) às costumeiras práticas de superfaturamentos , atrasos no calendário de conclusião de obras, renúncia fiscal, seletivos perdões de dívidas, etc., etc. Coisas semellhantes sucedem, “mutatis mutandis”, nos demais aparelhos de Estado… Apenas um exemplo – para fins didáticos -, no plano das macro-relações. Há que se conectar adequadamente esta esfera a tantas outros do percurso existencial, inclusive à esfera das micro-relações do dia-a-dia, de que cuidaremos, mais enfaticamente, a seguir.

Assim como no plano das macro-relações, o horizonte libertário que somos chamados a construir, comporta igual cuidado com a tecedura dos fios existenciais do dia-a-dia, nos mais distintos aspectos. Partimos, também aqui, da tomada de consciência progressiva de nossa inconclusão, dos nossos limites, sem, porém, deixar de manter presentes também nossas potencialidades. Animados de tais sentimentos, ousamos percorrer algumas trilhas dessas micro-relações.

Embora comportando uma notável diversidade de campos de atuação, conforme nossos pertencimentos e atividades do dia-a-dia (no trabalho profissional, nas escolas, na família, nas atividades sindicais, partidarias, nos moviementos sociais, no campo religioso, etc., etc.), ainda assim, nossas agendas cotidianas incluem um leque significativo de confluência de ações, ao tempo em que um expressivo número de atividades constantes destas mesmas agendas tem a ver com nossas escolhas pessoais. Um exame (auto) avaliativo dessas agendas nos permite fazer um balanço da qualidade de nossas atividades do dia a dia. Serão todas ou em sua maioria, defensáveis no tocante ao alvo libertário que perseguimos? Nessas agendas, que atividades podem ser avaliadas como correspondentes ou coerentes com o rumo almejado? Nesse mesmo sentido, que atividades têm resultado em frutos proveitosos? Que atividades, por outro lado, não parecem apontar na direção desejada? Que distância se pode constatar entre o que planejamos para nós mesmos e as respectivas realizações? (“tra il dire e il fare, c’è di mezzo il mare”) Que percentual de nossos sonhos temos sido capazes de alcançar, considerando-se os sonhos mais plausíveis? Temos tomado alguma atitude concreta em relação a este exame? Por pequenos que pareçam, que passos fomos e somos capazes de ousar?

É justamente neste ponto que sentimos necessidade de exercitar a mística como fonte propulsora de passos alternativos, visando a, de um lado, reconhecer nossos limites, e, de outro, também reconhecer e exercitar, no chão do dia a dia, nossas potencialidades. E aqui tratamos da mística, não apenas em sua dimensão teológica, mas também em sua acepção revolucionária. Isto pressupõe um compromisso ético, exercitado, dia após dia, no intuito de percebermos lacunas e avanços em nosso quefazer diário. Implica um progressivo esforço (coletivo e pessoal), orientado em várias direções interconectadas. Pode suceder que, em minha/nossa lista de compromissos diários, em distintas esferas, alguns venham corespondendo – a julgar pelos frutos! – ao meu/nosso processo de humanização. Estes me/nos chamam a aprimorar. Os que se distanciam deste horizonte – e podem não ser poucos – devem merecer a incidência de meu/nosso discernimento e empenho em rever, retificar rumo, caminhos e posturas. Um risco frequente, neste balanço, é o de me contentar com apenas um ou outro quefazer bem sucedido, ainda quando temos consciência de que, em vários deles, os frutos se mostram nulos ou medíocres, por vezes até contrapostos ao horizonte almejado. Pior ainda, quando, em vez de nos empenharmos em ousar pequenos passos alternativos, tendemos a uma estéril atitude autojustificativa: “Ah! Eu já faço minha parte. O que faço já está bom, dá para ir levando. Vejo tanta gente comportar-se assim… Por que eu não poso?”…

Nesse sentido, o exercício cotidiano da mística nos ajuda sobremaneira. Por exemplo quando tomamos a iniciativa de elencar vários projetos ou sonhos factíveis e ao nosso alcance, correspondentes ao nosso processo de humanização. Damo-nos conta de que tais projetos são ditados pelo âmago de nossa consciência, sentido-nos bem motivados nessa direção. Por vezes, trata-se de simples planos, tais como: contemplar a natureza, ousar aprender um instrumento músical, ensaiar uma poesia, exercitar algum trabalho de pintura, de escultura, de aprendizado de língua, de nos reservar mais tempo de meditação, de pedalar, de fazer caminhada, de fazer visitas, de fazer viagens, etc., etc., etc. Chegamos mesmo a fazer um cronograma. O problema está, porém, de dar o primeiro passo, de iniciar efetivamente algum desses passos. O tempo vai passando, passando, passando, e acabamos mergulhados na mesma rotina, movidos pela normose, fonte de dissabores, de tédio e até de doença…

Conscientes de nossa inconclusão, dos nossos limites, sabemos que a incessante busca de superação dos mesmos passa necessariamente pela relacionalidade, isto é, pela inserção em, e aprendizado contínuo com outros sujeitos (individuais e coletivos). À medida que exercitamos o diálogo, a troca de relatos de experiências, vamos aprendendo e obtendo meios e encorajamento recíproco de ensaiar passos de recuperação ou de superação dos nossos limites, aprendendo também com os erros e acertos próprios e dos outros. Aprendemos com os outros sua experiência de superação de limites e insuficiências que, antes, pensavam não conseguirem: “Eu sou assim mesmo, sempre fui: tenho essas limitações, e não tenho como superá-las. Todavia, com esforço e persistência – portanto, com a força de vontade -, após ousarem dar um primeiro passo, foram percebendo, sim, ser possível superar limites e insuficiências, sustentados por uma mística de compromisso de buscarem dar passos concretos, nesse sentido. Atitude que nos contamina, positivamente, e nos anima a ousar também passos, nesse sentido. Ou seja: conseguiram vencer uma tendência essencialista: “Minha natureza é assim, e não posso mudar!”… Mas, à medida que ousavam perceber-se como seres históricos e de cultura, passaram a ouosar um passo, a cada dia, numa perspectiva libertária, rompendo as grades da própria jaula, e descobrindo o sabor da Liberdade, passando a ser movidos por suas trilhas e em direção ao seu horizonte. Passar da condição de cumpridores de tarefas heteronômicas, para um progressivo assumir do próprio destino libertário; passando da condição de meros fios existenciais tecidos conforme orientação externa, a costureiros, costureiras da própria malha existencial, apoiando-se num grande mutirão de tecedrua junto com outros tecelões e tecelãs, mas sempre a partir do seu horizonte libertário (pessoal e coletivo).

Nessa direção, há de se romper progressivamente múltiplas algemas, principalmente as algemas invisíveis, remanescentes na própria consciência hospedeira de determinações externas, enquanto se vai tentando abrir caminho para a tecedura de fios existenciais autônomos, emancipatórios. Aqui, se vai dialogar com a própria conciência, auscultando, no seu mais íntimo, o que inspira o Sopro Fontal, com relação a um horizonte libertário. Por exemplo, a tomada de decisão de conferir tantos pequenos e grandes planos indefinidamente adiados, inviabilizados que foram por determinações ou por condicionamentos alheios. Planos do tipo:

– retomar leituras identificadas como de sua mais forte escolha (no campo da literatura, da ficção, dos grandes romances clássicos; no plano da literatura na própria área profissional, igualmente adiadas por circunstância da rotina normótica; exercício de algum tipo de arte também adiado para as calendas gregas; aprendizado de um novo idioma; dar-se ao exercício de caminhadas; tempo de contemplação/meditação/oração; dar-se ao trabalho de registrar fatos mais impactantes de seu percurso existencial; ousar cuidar da saúde, pelas vias das terapias naturalistas; tomar coragem de não se deixar aprisionar pela onda escravizante de redes sociais mais voltadas ao gosto da moda (fofocas, exibicionismo, consumismo, troca de insultos; piadas de péssimo gosto; divulgação de “correntes” e de vídeos preconceituosos; mensagens de intrigas e autoafirmação patológica; rotina de conferir páginas ou mensagens da parte de círculos mais próximos, sem a necessária autocrítica;
enfim, toda uma longa programação de um protagonismo alternativo àquela rotina normótica, em que se acabou enjaulando-se, e a ela amoldando-se, com consequências negativas diversas. Ousar o “inédito viável” (Paulo Freire), também nas micro-relações, desprendendo-se de falsas seguranças, de bens supérfluos, aprendendo a fazer feliz com o necessário (“Buen Vivir), sem apego a acumulação de bens sedutores… E, sobretudo, dedicando a vida a serviço de quem mais precisa, do Planeta, dos humanos, dos viventes, sendo um com eles.

João Pessoa, 19 de outubro de 2017.

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