Poeta da compaixão, Jesus nos interpela

Resumo/comentário do capítulo IV do livro “Jesus, aproximação histórica,¨ de autoria do teólogo José Antonio Pagola

Por feliz sugestão de um de seus membros (João Fragoso), o Grupo Kairós vem refletindo, em suas reuniões semanais, sobre o livro de José Antonio Pagola, intitulado “Jesus, aproximação histórica.” A pedido de membros do Grupo Kairós, assumi o gratificante compromisso de resumir as partes do livro, em cuja leitura o Grupo vem empenhado.

De início, pensava fazê-lo agrupando, de cada vez, três capítulos. Foi assim da primeira vez. Tendo em vista, contudo, o forte impacto provocado nos membros do Grupo pela leitura do capítulo IV, julguei oportuno resumir, desta vez, apenas o capítulo IV, que tem como título “Poeta da Compaixão”.

Ainda no final do cap. III, a partir dos dois últimos tópicos (daquele mesmo cap.:III: “Profeta do Reino de Deus”), o autor sublinha características da presença do Reino de Deus em nós e entre nós, a partir de coisas pequenas, de fatos e situações do cotidiano, tal como viviam camponeses e pescadores da Galileia. Neste relato, o autor nos remete a várias parábolas narradas por Jesus, para explicar que o Reino de Deus se faz a partir da vida cotidiana daquela gente (e da nossa também), donde a importância dada a semente de mostarda, as flores do campo, as aves do céu, o tratamento que os pais dispensam aos filhos, para compreenderem a bondade do pai.

Foi iniciada a leitura do cap. IV, “Poeta da compaixão”, até à página 151 (chegamos, então, à terça parte do livro). Nas páginas iniciais do Capítulo IV, o autor segue sublinhando a originalidade da Pedagogia de Jesus, em sua convivência com os camponeses e os pescadores da região, igualmente acompanhado pelas mulheres. Tal originalidade reside na simplicidade e no “frescor” de suas parábolas, profundamente ligadas à vida cotidiana daquelas gentes.

Sua palavra tocava direta e profundamente os ouvintes, pela capacidade e pela força de convicção por parte de Jesus, neste sentido também, Jesus se distinguia dos mestres e religiosos da época. Enquanto estes preferiam recorrer às alegorias – que necessitavam de interpretação mais rebuscada -, Jesus por seu turno fazia questão de falar àquelas gentes, fazendo uso de parábolas, de comparações plenamente compreensíveis por todos, porque tratavam de coisas e situações de sua experiência comunitária e pessoal.

Retomando a leitura, a partir do tópico “A vida é mais do que o que se vê”, Sempre preocupado com destacar o que se acha sob cinzas, Jesus segue chamando Seus discípulos e discípulas, a irem além das aparências. Ao fazer tal convite, Jesus recorria a um farto elenco de parábolas, facilmente compreensíveis pelos Seus ouvintes, em sua maioria compostos de camponeses e pescadores, de pouca ou nenhuma instrução. Parábolas tais como a do grãozinho de mostarda, que, ao germinar e crescer, alcançava de dois a três metros, onde os pássaros podiam saltitar. Ou aquela comparação do Reino de Deus a semente lançada na terra pelo agricultor, e este, sem saber como, ia percebendo, perplexo, o nascimento, o crescimento daquela sementinha, agora tornada espiga trigo, cuja farinha era tomada por uma dona de casa, e, uma vez amassada, fermentada, virava um saboroso pão. Com isto,Jesus estimulava a confiança na força de Deus, a entrega dos agricultores à gratuidade do Reino de Deus, que não depende do esforço humano, embora possa com eles também contar. Nesta linha pedagógica, seguem-se outras parábolas, como a do tesouro escondido, a da pedra preciosa: uma vez encontrados, quem os encontra, de tudo se desfaz para adquiri-los: assim é o Reino de Deus! Ainda neste tópico, que destacava a face compassiva de Jesus, vem à tona a parábola do chamado “filho esbanjador”, que o autor prefere chamar, com razão, de parábola do pai bondoso. O filho mais jovem pede ao pai que lhe dê toda a sua herança, e, atendido, sai a percorrer o mundo e gastar toda a sua herança, de modo a esbanjar em farras. Sobreveio àquela região um período de grave crise e penúria e fome. Tendo esbanjado toda a sua herança, vai mendigar emprego, sendo enviado a cuidar dos porcos. Tal sua fome, que desejava comer a lavagem dada aos porcos. Humilhado, cai em si e diz para si mesmo: “Quanta fartura na casa do meu pai! Como gostaria de ser ao menos um empregado dele, para saciar minha fome. Vou até meu pai, e lhe direi que pequei contra o céu e contra ele, já não merecendo ser tratado como filho. Então que ele me trate como um dos seus criados. Levantou-se e voltou à casa do pai, que havia muito já o esperava. E, ao avistá-lo, corre ao seu encontro e o beija, e pede ao empregado para vesti-lo e calçá-lo com o que melhor havia em casa, e manda preparar um banquete, para festejar o retorno do filho. Depois, vem a cena do irmão mais velho, enciumado com o irmão mais jovem,a dirigir ao pai palavras de desabafo. A grande lição da parábola é a subversão que Jesus inaugura, ante a lógica convencional, agindo como mãe que não esquece o filho rebelde, e dele se compadece. Não é por acaso que este capítulo se intitula “Poeta da Compaixão”.

Um outro tópico lido atinha-se à misericórdia de Jesus.

Retomando a leitura, a partir da p. 163 (chegamos até à p. 168), deu-se prosseguimento ao comentário do autor acerca da parábola do filho pródigo, que o autor, a justo título, prefere chamar de “a parábola do pai bondoso”. A essa altura, o autor analisa o comportamento do filho mais velho, enciumado pela recepção festiva que o pai preparou para o filho mais jovem. Encheu-o de cobrança e de acusações contra o irmão, tal como é praxe em nossa história. O pai bondoso – figurando a lógica do Reino de Deus -, tem comportamento diferente: de alegria, de acolhimento, de celebração pelo retorno do filho que estava morto e agora vive, estava perdido e agora foi encontrado. A parábola a seguir – não esquecer que, também neste capítulo IV (“Poeta da Compaixão”), o autor traz à reflexão uma longa sucessão de parábolas evangélica – nos interpela quanto à relativa distância que há entre os critérios do Reino de Deus e os nossos critérios hegemônicos. Trata-se da parábola do administrador de vinhas, saindo, várias vezes, no mesmo dia, a fim de contratar trabalhadores diaristas para a colheita. Com os trabalhadores das primeiras horas combina um determinado preço a pagar, ao final do dia. E assim, sai às 9 horas, às 12, às 15 e às 17 horas, com o mesmo objetivo: o de contratar trabalhadores para a colheita no campo por ele administrado. O surpreendente na parábola se dá com o que o administrador paga a todos os trabalhadores, com salário igual, tendo os últimos recebido o mesmo valor do que receberam os contratados na primeira hora. Não apenas os diaristas contratados nas primeiras horas daquele dia estranham e se disto se queixam ao administrador, mas nós também estranhamos tal atitude. O que Jesus quer mostrar-nos? Os critérios do Reino de Deus vão bem além das aparências e dos nossos próprios critérios. Ele estava preocupado com as precárias condições do conjunto do seu povo, principalmente daqueles que, contratados de última hora, e sem saberem quanto iriam receber – pois, diferentemente do que o administrador ajustou com os diaristas das primeiras horas, já nada disse aos das últimas horas, a não ser que lhes pagaria o que fosse justo, razão por que eles foram na confiança, apostando numa promessa indefinida…

Ao trazer a reflexão várias outras parábolas, o autor foca a desconcertante atitude misericordiosa e compassiva de Jesus, a chocar Seus ouvintes, por conta de certa inversão dos valores predominantes daquela e de nossa gente.

A primeira parábola que aí aparece é mais conhecida como a do publicano e do fariseu. Estes se encontram no templo, cada qual em seu lugar, a orar. Enquanto o fariseu se dirigia a Deus orgulhoso por ser um cumpridor das leis, fiel pagador dos dízimos, e julgando-se melhor do que o publicano, este, por sua vez, sentado no último lugar, de cabeça baixa, contrito, batia no peito, arrependido, dizendo a Deus necessitar de sua compaixão. Jesus desconcerta os ouvintes, dizendo que, foi o publicano e não o fariseu, que voltou para casa justificado pela misericórdia de Deus, porque Deus não julga de acordo com os nossos supostos méritos, menos ainda pela nossa pretensão de sermos melhores que os outros, mas nos veem em socorro por força de Sua misericórdia, de Sua compaixão, ouvindo os clamores dos necessitados, dos pecadores, dos fracos. A parábola seguinte trazida à tona é a do bom samaritano numa estrada perigosa, conhecida pela atuação de assaltantes, uma pessoa se encontra caída, por ter sido assaltada. Ao avistarem a vítima, duas pessoas religiosas preferem desviar-se do caminho, daquele incômodo, e tratava-se, curiosamente de duas pessoas religiosas, um sacerdote e um levita… um outro transeunte que não gozava de boa fama, era um samaritano – também passava por ali, e avistou a vítima de assalto caída. O samaritano então, se aproxima da vítima, põe vinho, e azeite nas feridas, a põe sobre o animal e a transporta a uma hospedaria. Lá chegando, apresenta-a ao dono da hospedaria, recomendando que trata daquela vítima, enquanto ele (samaritano), lhe paga parte da conta, e, ao retornar de sua viagem, compromete-se a pagar outras despesas. Mais uma vez, Jesus acentua a força da prática e não a pertença religiosa ou a fé abstrata. Do Reino de Deus se aproxima quem pratica a caridade, quem socorre os necessitados, não importando estes quem sejam. Dura lição para aqueles e aquelas que se acham salvos, por conta de sua assiduidade ao tempo e de sua auto avaliação infundada aos olhos de Deus.

Outras parábolas veem à reflexão: a da ovelha perdida, e a da Dracma encontrada. Na primeira, Jesus conta que um pastor não hesitou em deixar num deserto 99 ovelhas, para ir à procura de uma só ovelha que se havia desviado do rebanho. Aí, está a marca de um Deus-Mãe, para quem é fundamental envidar todos os esforços em busca do filho ou da filha que se tenha desgarrado. Uma mãe, sem deixar de cuidar e de amar todos os seus filhos e filhas, prioriza seus cuidados em relação ao mais necessitado. Algo semelhante também sucede em relação à parábola da moeda perdida e encontrada pela mulher que, ao varrer em sua casa encontra a moeda perdida, e sai pela vizinhança a convidar suas amigas a se alegrarem com ela pelo achado.

Tão denso é o cap. IV – “poeta da compaixão” -, que nos dá a impressão de se tratar de um dos mais impactantes do livro, pela ênfase posta na misericórdia como maior característica dos valores do reino de Deus.

João Pessoa, 07 de Julho de 2018.

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