Plebiscito não já!

Por Eliane Cantanhêde

Depois da Pensata da quarta-feira passada e de duas colunas na Folha de S. Paulo sobre o frenesi pela redução da maioridade penal, recebi centenas de e-mails e concluí: tomara que não haja um plebiscito agora, com sangue quente, sobre isso.

As pessoas estão indignadas com os crimes bárbaros, com a rotina de roubos e assaltos, com a corrupção nas polícias, com a inépcia das autoridades estaduais e federais. E querem sangue.

Se houver um plebiscito agora, será uma repetição do que aconteceu com o desarmamento. A grande maioria parecia a favor. Na hora do debate, a grande maioria se revelou contra. Ou seja: preferiu manter a sociedade armada, para alimentar o ciclo de violência sem fim.

Recebi centenas de mensagens ponderadas, serenas, concordando em que não se pode transformar os menores infratores nos grandes culpados pela situação. Como também recebi dezenas no sentido contrário: duras, irritadas, algumas cheias de uma maldade de dar calafrio.

Como esse tipo de debate envolve emoção, paixão, medo, crianças, mães, pais, quem acaba puxando o tom e o resultado é quem grita mais forte e demonstra mais indignação. E aí é que mora o perigo.

A legislação vem sendo modificada aos poucos para comportar penas mais severas para menores que cometam crimes brutais, como assassinatos. Mas sem jogá-los às feras das penitenciárias de adultos. Deixem essas mudanças seguirem seu curso.

Um plebiscito agora sobre redução ou não da idade penal, seja para 16, para 14, para 12 anos, acabaria se transformando numa caça ao Judas ou numa caça a Joana Darc.

Na prática, não estaríamos apenas massacrando os menores de alta periculosidade — o que já é terrível — mas estaríamos também jogando crianças e adolescentes pobres e desprotegidas nas fogueiras da ira nacional por causa de um tênis, de um relógio, de uma imensa solidão.

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Eliane Cantanhêde é colunista da Folha e assina a coluna “Brasília” da página A-2 aos domingos, terças, quintas e sextas-feiras. Formada pela UnB, foi diretora de Redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília. Escreve para a Folha Online às quartas. Original deste texto aqui.

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