Pessoalizando o movimento

Ainda que haja uma série de explicações circulando em redes sociais e na Grande Mídia para os protestos que tomam as ruas do Brasil, governantes e jornalistas seguem qualificando as razões para as manifestações como difusas, difíceis de entender.

Sim, as razões são muitas (e que bom que já ficou claro que não se trata apenas de R$ 0,20).  Estamos falando de um sentimento de insatisfação geral a respeito da péssima qualidade dos serviços públicos no país, não obstante a pesada carga tributária que afeta os brasileiros, aliada a um custo de vida que só faz aumentar, à corrupção e à falta de representatividade política – com Felicianos, Sarneys, Calheiros e outros fazendo o que bem entendem, apesar da desaprovação por parte da opinião pública.

Sinto, porém, que falta sair um pouco do nível macro e pessoalizar, na medida do possível, as motivações para tanta indignação, a fim de jogar um pouco mais de luz sobre os elementos que justificam a atual conjuntura.

Peço licença, portanto, para fazer um depoimento.

Venho de uma família de classe média. Nunca passei fome e tive acesso à educação de qualidade – ainda bem novo, passei em um concurso para uma escola federal, o que permitiu que meus pais pagassem colégios particulares para minhas duas irmãs. Com a sólida base educacional, pude ingressar em uma universidade pública, onde me formei há quatro anos.

Ou seja, não tenho muito do que reclamar, dado que, no mesmo país em que vivo, há quem sequer tenha o que comer, certo? Errado.

Pensar assim é pensar pequeno. Claro que há de se resolver urgentemente o problema da fome e da miséria, mas isso não impede que soluções para outros problemas – muitos dos quais estão, inclusive, na raiz de questões como a pobreza extrema – sejam exigidas, discutidas e implementadas.

Sigo então com meu “desabafo”.

Hoje, com 26 anos, vivo preocupado com as perspectivas que ora se apresentam para meu futuro. Moro com minha mãe, porque, com o salário que ganho – apesar do terceiro grau completo, de uma pós-graduação, inglês e espanhol fluentes –, não tenho condições de alugar um apartamento por conta própria. Comprar então, nem se fala: hoje, na cidade em que vivo, qualquer kitinete está valendo R$ 1 milhão.

Ok, muitos dos que ainda seguem com esta leitura podem, neste ponto, ironizar meu discurso: “Coitado do playboyzinho que não quer ir morar no subúrbio e, por isso, reclama do preço das coisas”.

Perfeito, o argumento é válido, mas não é disso que se trata a discussão.

O que gostaria de colocar em pauta e, assim, justificar e reforçar a importância das correntes manifestações, é como mesmo os (relativamente poucos) brasileiros que tiveram oportunidades e percorreram todo o caminho que sempre lhes foi recomendado por seus pais, professores, especialistas, etc. não estão, hoje, em uma situação efetivamente confortável.

Enquanto isso, vejo na TV o governo pintando um país cor de rosa; vejo a celebração pela ascensão de uma classe média que, apesar de seus novos eletrodomésticos, vive em favelas a beira de valas de esgoto, e segue sem acesso à educação e cultura; vejo pessoas sendo retiradas da miséria, mas que só não são consideradas miseráveis porque agora ganham R$ 70 (!!!) por mês; vejo políticos iletrados ganhando R$ 15 mil, R$ 30 mil, R$ 50 mil (fora suas propinas, benefícios e aposentadorias absurdamente desproporcionais às dos cidadãos que trabalham por tanto ou mais tempo que esses engravatados de merda), enquanto meus pais, professores acadêmicos, não ganham metade do que recebe um vereador cuja contribuição maior ao longo de seu mandato é criar o dia da pizza ou novos nomes de ruas; vejo o fortalecimento de religiosos fanáticos na política brasileira, pregando a intolerância e atrasando um país que já nasceu atrasado; vejo uma especulação imobiliária desenfreada, que remove populações pobres (à base da força) e de classe média (pela redução de seu poder aquisitivo).

Vejo, acima de tudo, governos – não importa se de esquerda, direita, centro, ou seja lá o que for – que agem tão somente em causa própria, com vistas à sua manutenção no poder; que só atendem aos interesses dos financiadores de suas campanhas milionárias. Vejo um sistema político viciado, projetado para representar elites e nada mais.

Acredito que seja por essa razão que muitas pessoas com uma trajetória parecida com a minha estejam indo, neste momento, às ruas, mesmo aquelas que não pegam ônibus – o que não é o meu caso, diga-se de passagem.

Enfim, não é só por R$ 0,20; é por um país minimamente justo, onde as pessoas possam colher o que plantam. Hoje, infelizmente, nossa colheita parece servir a um único propósito: sustentar os 39 ministérios do governo federal , cujos representantes demandam R$ 11.540,00 por minuto, o custo mais elevado do mundo.