Pesquisadores discutem modelo econômico mais humano

Com o tema “Alternativas à Globalização: Potências emergentes e os novos caminhos da Modernidade”, começou neste sábado (8/10) o II REGGEN (Rede de Economia Global), no Hotel Glória, no Rio de Janeiro. O evento segue até o dia 13 de outubro. Assim como na primeira edição, em 2003, o REGGEN se iniciou com uma homenagem ao economista Celso Furtado. Em seu lugar, esteve presente sua mulher Rosa Furtado, que agradeceu o esforço de Theotonio dos Santos, coordenador do evento, ao realizar uma grande mobilização dois anos antes em torno do nome de Celso para o Prêmio Nobel de Economia. Diversas autoridades e pesquisadores marcaram presença no primeiro dia de encontro. Além de evento de 2003 e do atual, em 2005, o REGGEN já organizou encontros menores em três outras universidades: na UnB, em Brasília, na UFSC (Santa Catarina) e na USP (São Paulo).

Theotonio dos Santos: visão mais ofensiva e propostas concretas

O primeiro a falar foi o presidente da mesa e coordenador geral do REGGEN, Theotonio dos Santos, que lembrou que a Rede já conseguiu publicar quatro volumes com os textos apresentados em 2003, em oito dias de intenso trabalho [veja a nossa cobertura em www.consciencia.net/reggen/reggen2003.html]. Ele lembrou que a edição de 2003 girou em torno à crítica ao hegemonismo dos Estados Unidos, e que 2005 haveria de ser portanto mais propositivo. “Precisamos de uma visão mais ofensiva, de planos mais propositivos quanto às alternativas à globalização”, sintetizou.

No REGGEN de 2003, esta já era a fala do sociólogo Emir Sader, que destacou: “Tenho uma preocupação em relação ao Fórum Social de Porto Alegre: ele não tem sido um lugar de geração de alternativas. É angustiante a velocidade em que temos avançado em alternativas. (…) Precisamos organizar uma construção de uma política anti-hegemônica. Analisando a política de captação da articulação global que permite a hegemonia, a política de comércio mundial e verificando as causas dos nossos problemas graves na formulação de alternativas a isso. (…) É preciso que haja mais políticas como o plebiscito sobre a ALCA. Para que tenhamos maiores elos que garantam a legitimidade do executivo”.

Theotonio destacou que um importante estudo de um banco suíço apontou quatro centros de poder no século XXI, já na metade do século: Rússia, Índia, China e Brasil. Neste sentido, a Rede de Economia Global se esforça em reunir representantes destes quatro países com a finalidade de promover a integração, acrescendo ao grupo a África do Sul, segundo Theotonio por sua importância estratégica. Ele finalizou a primeira parte de sua fala afirmando que a idéia eurocêntrica de que ‘modernidade’ significa ocidentalizar-se é uma tese superada. Para Theotonio, nenhum país é modelo e todos devem ter soberania quanto aos caminhos de suas economias. “Há experiências acumuladas por povos para atender necessidades de emancipação, e assim deve ser”.

Ex-pesquisador da Universidade das Nações Unidas (UNU) no Japão, Marco Antonio Dias representou a instituição para destacar que a proposta que Theotonio dos Santos fizera acerca de uma rede de economia na UNESCO que tivesse nomes independentes como o do egípcio Samir Amin sofreu muita resistência. Dias fez uma breve saudação ao REGGEN e alertou que, mais do que um projeto de Nação, tanto ele como Theotonio tinham uma leitura de que, diante dos desafios da globalização, era necessário construir um projeto de civilização.

Em breve mais sobre o primeiro dia. Neste domingo tem muita gente boa, entre eles: Samir Amin (Fórum do Terceiro Mundo), Jan Kregel (Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU), Giovanni Arrighi (Universidade John Hopkins, EUA), Jomo Kwame Sundaram (Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU), Gilberto Dupas (USP), Luis Fernandes (MCT) e Marco Aurélio Garcia (Assessor Especial da Presidência da República), tudo pela manhã.

À tarde: Beverly Silver (Universidade John Hopkins – EUA), Manoranjan Mohanty (Universidade de Delhi – India), Gao Xian (Academia Chinesa de Ciências Sociais – China), Ben Turok (Parlamento da África do Sul), Antonio Carlos Peixoto (Coordenadoria para Assuntos Internacionais do Governo do Estado do RJ), Yves Berthelot (PEKEA) apresentado por Marc Humbert (PEKEA), Sedi Hirano (USP), Eurico Lima Figueiredo (UFF), Berta Becker (UFRJ) e Samuel Pinheiro Guimarães (MRE).

Li Shenming: O movimento socialista do século XX foi apenas um prelúdio

Depois de Theotonio, foi a vez de Li Shenming, vice-presidente da Academia Chinesa de Ciências Sociais, uma instituição de pesquisa que orienta boa parte do pensamento político e social do governo chinês.

Shenming começou sua fala afirmando que o socialismo não se extinguiu, mesmo com a derrocada da União Soviética no final dos anos 80, e mais ainda: está emergindo das adversidades. Citando o filósofo alemão Karl Marx por diversas vezes, Shenming argumentou que o marxismo continua tendo uma forte vitalidade. “Dizem que o capitalismo teria ganho definitivamente. No entanto, é no final do século XX, no berço do capitalismo, que circulam duas notícias importantes”, diz. Segundo ele, duas importantes agências de notícias, entre elas a BBC News, publicam pesquisas sobre os maiores pensadores do milênio. “De 30 mil pessoas, 27% escolheram Karl Marx”, destacou. “Em segundo lugar, muito atrás de Marx e com apenas 10%, está David Hume [filósofo escocês]. Platão, Sócrates, Aristóteles e Hegel ficam muito atrás”.

Para Shenming, a História se comprovou mais uma vez como “juiz definitivo e justo”, e a concepção e metodologia de Marx estão de acordo com a vontade das massas e se demonstraram “científicas” – contradizendo, neste ponto, Rosa Furtado que, em sua fala em homenagem ao ex-marido Celso Furtado, disse que a economia não é uma ciência e que não pode se separar da política, tal como sustentava Celso.

O pesquisador chinês defendeu, desta forma, uma reorientação dos rumos da sociedade global. “A globalização econômica das grandes potências e o rápido desenvolvimento da ciência e da tecnologia só fizeram aumentar as contradições do atual sistema, apressando assim o processo de construção de alternativas à globalização. Fazendo uma retrospectiva histórica, Shenming destacou que durante todo o século XX, o capitalismo experimentou vários tipos de monopólio – o privado, o estatal e o internacional, verificado atualmente. Estas novas características do sistema não superaram, no entanto, as contradições fundamentais e os problemas estruturais.

A revolução tecnológica (principalmente da informática) impulsionou as forças produtivas, mas, para Shenming, novamente Marx reapareceu como instrumento necessário de entendimento da nossa realidade: as máquinas, diz, se revelaram muito mais perigosas que os cidadãos. O capital, em sua fase internacional, se apropriou desta tecnologia para aumentar sua circulação no mercado financeiro global, separando-se da economia real e da cadeioa de produção. A multiplicação do seu valor, sustenta Shenming, cria um cenário onde países e indivíduos ricos ficam cada vez mais ricos, ao passo que países e indivíduos pobres ficam cada vez mais pobres.

“Nosso grande líder chines dizia… Onde há opressão, haverá luta e rebeldia”, disse Shenming, lembrando a figura de Mao Tsé Tung. O pesquisador lembra que o neoliberalismo não alcançou os avanços que pretendia e só promoveu recessões econômicas e sociais. No início do século XXI, diante da crescente pauperização dos povos em todo o mundo, o capitalismo internacional começa a ficar menos ganancioso e, por outro lado, para se sustentar, começa a cortar empregos, investimentos e, desta forma, a demanda interna de potências ocidentais. Esta é a causa fundamental da recessão, diz Shenming, que brinca: “O capitalismo perdeu sua elegância”.

Ao mesmo tempo que provocaram a crise estrutural que observamos, os principais agentes do capitalismo – tais como instituições multilaterais (FMI, Banco Mundial etc.) e elites das potências hegemônicas – se beneficiaram do neoliberalismo no mundo inteiro, exceto pelo já referido fato de que o aprofundamento da recessão econômica e o desenvolvimento da ciência e tecnologia criaram condições mais amplas para a construção de alternativas. “Há indícios de que estamos em uma fase de recuperação das tendências socialistas na Ásia, África e América Latina”, ressalta.

“O movimento socialista do século XX foi apenas um prelúdio do desenvolvimento do socialismo real”, teoriza, lembrando que hoje há alguns importantes países com projetos de desenvolvimento do socialismo, tais como China, Cuba, Vietnã, Laos e Coréia do Norte. Já nas potências ocidentais, sob regime capitalista, Shenming lembra que o interesse por Marx é crescente, tal como mostraram duas pesquisas citadas pelo pesquisador que envolveram 30 mil pessoas. “Outro ponto importante é que nos países que eram socialistas, as forças socialistas voltam a se reunir. E em países na Ásia, África e América Latina que sofreram com o neoliberalismo surgiram não poucos governos de esquerda”, lembrou.

“Se tivermos uma visão mais ampla sobre o mundo, percebemos que o desenvolvimento das nações é espiral, árduo e longo. O planejamento dos povos quanto às alternativas já pode ser observado sobre o horizonte”, conclui.

Imprensa ocidental deturpa

Ao comentar a exposição de Li Shenming, Theotonio dos Santos apontou como era de fácil observação o fato de que a imprensa ocidental vende uma imagem deturpada da China. Nesta visão, o desenvolvimento da China seria resultado de uma “abertura” ao neoliberalismo e ao capitalismo, algo completamente distinto do que pensa o governo chinês e seus intelectuais, para os quais a intervenção estatal é essencial. “Os neoliberais dirigiram o fracasso da Rússia e do Leste Europeu, não foram os chineses. O FMI e o Banco Mundial nunca orientaram a política econômica da China”, disparou Theotonio.

Roberto Amaral: “Precisamos acreditar neste país”

Ex-ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo Lula, Roberto Amaral sofreu pressões, afirmou Theotonio dos Santos, pelo apoio que deu ao REGGEN 2005. “Eu não sabia que vinha para a mesa, não sabia que ia falar e muito menos que podia, em auditórios como esses, citar Marx”, brincou, se referindo à palestra anterior, de um representante chinês, que citou o filósofo alemão Karl Marx por diversas vezes. O Hotel Glória, onde se realiza o encontro, é um dos mais caros do Rio de Janeiro e o público é formado basicamente de estudantes e intelectuais das classes média e alta.

Para se referir a Marx, Amaral falou sobre a necessidade de intervir na realidade para modificá-la, e modificá-la para melhor. “Celso Furtado, assim como Florestan Fernandes, interpretou este país para mudá-lo”. Unindo-se às homenagens feitas a Celso, o ex-ministro disse não saber o que é mais importante sobre o autor: sua bibliografia ou sua biografia. “Foi um dos grandes patriotas deste país, e esta é outra expressão que caiu em desuso, patriotismo. Precisamos resgatar estes valores, resgatar o valor da política e a importância de acreditar neste país”, disse.

Ele acredita que a maior tragédia política que vivemos hoje é decorrente do abandono da utopia. “Passamos a nos ater à chamada governabilidade”, criticou, em referência indireta ao governo Lula, iniciado em 2003 e que tem adotado uma política de alianças que não obedece critérios ideológicos. Finalmente, fazendo uma referência a uma importante obra da literatura internacional, concluiu: “Que viva Dom Quixote e que desapareça da nossa frente os Sancho Panças”.

Elmar Altvater: “Precisamos construir uma economia pós-autista”

Integrante da Universidade Livre de Berlim, o alemão Elmar Altvater fez um grande esforço para falar em português, ressaltando que respeita a diversidade lingüística mundial, algo que “temos que defender”. Ele brincou no começo, lamentando que, em eventos na Europa e em seu país, mesmo não havendo um único representante da Inglaterra, todos se comunicam em inglês. “Não é em alemão nem em português”. O autor tem um estudo de fôlego sobre a Amazônia que alcança 600 páginas e, infelizmente, nunca foi traduzido para o português.

Para Altvater, a importância de Celso Furtado para o mundo se dá pelo fato de que foi ele um dos primeiros a criticar o neoliberalismo, já nos anos 70. Ele lembrou que o fenômeno teve início no período pós-guerra, nos anos 40 e 50. A economia, sustenta, é algo que deve estar ligado à sociedade. “No capitalismo, a economia se desliga da realidade e não se dá conta dos atores sociais envolvidos. Este tipo de economia é uma economia abstrata, autista, e precisamos portanto construir uma economia pós-autista”. Isso se daria basicamente, diz, com a redistribuição de renda e propriedade, principalmente a propriedade rural. É por isso, argumenta, que a relação cidade-campo é fundamental para este processo de transformação.

Além desses fatores, é preciso reconhecer a importância da economia global atualmente. Há vários fatores externos que podem influenciar a economia de um país, entre eles os termos de troca (“terms of trade”), as taxas de juros e de câmbio e o endividamento externo e serviços da dívida. As questões financeiras e econômicas são vitais, diz, mas se trata também (e principalmente) de fatores políticos. “São decisões políticas as responsáveis pelos rumos econômicos”.

Para Altvater, os conceitos de desenvolvimento e modernização se diferem fundamentalmente. Enquanto este é oriundo principalmente dos EUA, o segundo diz respeito a uma alternativa, uma necessidade de estabelecer o planejamento estatal da economia e tomar mais atos políticos. “Não é só o mercado que é importante para que haja o crescimento da economia de um país”, alerta.

Em decorrência desse processo, Altvater enxerga um fenômeno que chama de “failing states”, algo como “Estados fracassando”, por conta da precarização do trabalho e do trabalho informal, dos desastres ecológicos crescentes e do terrorismo, entre outros aspectos.

Hoje, argumenta, talvez não seja tão importante o termo “socialismo”, porque precisamos buscar outras formas de poder. Ele cita como exemplos a economia solidária e o cooperativismo. Estas formas, ressalta, não são feitas com um partido centralizado, nem pelo Estado. “É uma economia que vem debaixo, que é solidária e coletiva”. Nesta perspectiva, ele classifica a economia informal como o “neoliberalismo debaixo”. Outro ponto que Altvater sustenta como importante para o futuro do mundo são as energias renováveis. “É muito importante pensarmos o que Celso Furtado pensou, mas temos a obrigação de ir além. Pensando sobre e em cima de Celso, mas além do pensamento dele”.

A viúva de Celso, Rosa Furtado, fez uma breve fala relembrando a campanha que Theotonio dos Santos mobilizou para lançar o nome de Furtado ao Prêmio Nobel de Economia. “O comitê do Nobel perdeu uma grande chance”.