Perscrutando os clamores e o recado das ruas: impressões ao calor dos acontecimentos

Nesses últimos sete dias, coincidindo com o clima midiático de euforia pela Copa das Confederações (bem ao ritmo do “Vem pra rua” – titulo de uma propaganda da Fiat, criativamente ressignificado pelos protagonistas das recentes e impetuosas manifestações de rua), temos assistido, para surpresa e espanto de não poucos, sucessivas manifestações massivas, pelas ruas, avenidas e praças, em todas as regiões do Brasil, em praticamente todas as capitais e em dezenas de outras cidades do país. Uma dessas manifestações massivas, realizada no Rio de Janeiro, no dia 20 de junho, por exemplo, reuniu 300 mil pessoas!

Estamos diante de uma raríssima onda de massivas mobilizações de grande envergadura, não apenas pela quantidade de gente que ela foi capaz de atrair, nem apenas pelo seu enorme raio de ação nacional, mas também em razão da incidência de uma ampla diversidade de elementos: complexas e extensas motivações, atipicidade dos protagonismos, forma de organização, multiplicidade dos clamores e demandas, variedade dos alvos e destinatários das manifestações, atipicidade da ocasião (clima de copa…)…

Em se tratando de algo tão complexo, vasto e AINDA EM CURSO, temerário se faz pretender-se analisar mais a fundo. Por enquanto, seguem apenas algumas perguntas às quais tentaremos encontrar alguns elementos de resposta:
– Em que contexto histórico despontam tais mobilizações?
– O quê terá mesmo motivado essa explosão de uma cidadania anônima, a mostrar sua cara, de forma tão impetuosa?
– Qual o perfil aproximativo desses manifestantes?
– O quê reivindicam os manifestantes?
– Como se organizaram para assegurar tanto sucesso, em suas mobilizações?
– Qual sua eventual ligação com os movimentos sociais convencionais?
– O quê recolher, neste momento – e portanto, provisoriamente, como primeiros ensinamentos dessas manifestações?

Em meio a uma conjuntura histórica de crescente complexidade, os fatos se sucedem, com frequência, num ritmo e numa intensidade de difícil acompanhamento e ainda mais difícil compreensão. Na economia internacional, não apenas os grandes nós não são desatados, mas tendem até a complicar-se ainda mais: da profunda crise do Capitalismo incidindo sobre os países ocidentais aos países periféricos, com distintas nuanças, como no caso do Brasil. A própria economia chinesa emite sinais de inquietação, com desdobramentos na economia mundial de grande porte. As questões sócio-ambientais mantêm-se na ordem do dia, sem expectativa mais consistente de superação. Pelo contrário…

Nas esferas da política e da cultura, os desafios não são menores: os Estados nacionais já não respondem minimamente às necessidades e às aspirações básicas das grandes maiorias da população. Há um evidente e progressivo e insolúvel hiato entre, de um lado, as grandes corporações transnacionais e o Estado, e, por outro lado, as grandes maiorias das distintas populações. O mundo anda à deriva, com exceções cada vez mais raras. Sempre sobra dinheiro para investimentos em armamentos. Não é por acaso que a indústria de armas ou de guerra se acha na ponta dos empreendimentos mais lucrativos.

Mas, o conluio entre as grandes transnacionais (nas mais distintas áreas econômicas) e o Estado se dá também no campo da cultura, em que têm na mídia comercial sua principal caixa de ressonância, a ressoar e a massificar sua grade de valores, a exemplo do consumismo desvairado, a agredir crescentemente territórios e gentes.

O Brasil, profundamente (mal) inserido nesse mundo globalizado sob a égide do Capital, segue aos trancos e barrancos, e, a despeito da enorme propaganda de seus dirigentes e respectivos milionários “marqueteiros”, acaba prevalecendo a visibilidade da má qualidade de seus frutos, malgrado a extorsiva carga de impostos a gravar impiedosamente as classes populares, combinada com escandalosas mecanismos legais de renúncia fiscal, além da esdrúxula sonegação fiscal e da remessa de dinheiro para os paraísos fiscais do cândido Ocidente…

O certo é que não há propaganda mágica da Copa das Confederações e da Copa do mundo que consiga “tapar o sol com a peneira”: mais do que ouvir dizer, o povo experimenta na própria pele do seu sufocante dia-a-dia, como usuário dos péssimos serviços ditos “públicos” oferecidos, em contrapartida das vultosas somas arrecadadas pelo Erário…

Era, a esse propósito, bem sonoro (ainda que eivado de ambiguidade) o grito que expressava: “Queremos uma Educaçã padrão-FIFA”, numa alusão à atenção excepcional que o Estado brasileiro dispensou às humilhantes e descabidas exigências da FIFA, com investimentos vultosos, e com obras faraônicas de enorme luxo… A ambiguidade do grito vem por conta de que esse lema acaba beneficiando a própria FIFA, como se essa instituição de padrão ético zero fosse algum modelo de qualidade a se ter como referência… Aliás, quem mesmo controla os feitos da FIFA, se os próprios Estados a elas se fazem submissos?

E o quê mais terá desencadeado essa onda mais recente de manifestações massivas pelo Brasil afora? No começo, falava-se quase tão-só no aumento abusivo das tarifas de transporte urbano (ônibus, metrô, trem, barca…) atendo-se, com frequência, a um detalhe enormemente destacado: a diferença de vinte centavos… Nada fácil imaginar-se uma manifestação de centenas de milhares de pessoas apenas contra tal diferença… Há bem mais caroço nesse angu…

Na verdade, a despeito de uma motivação tão simples ter desencadeado sucessivas manifestações de massa por todo o país, bem sabemos que há uma gama de outras razões semelhantes e até mais graves do que brigar por uma diferença de vinte centavos. Há um ENORME ACÚMULO DE QUEIXAS E DEMANDAS REPRIDAS, faz muito tempo. A população passou, quanto a isto, um longo tempo, engolindo a seco, reprimindo sua indignação cívica contra uma série interminável de desmandos cometidos pelo conluio entre o Mercado e o Estado:
– a perseguição aos povos indígenas, quilombolas, contra os povos das águas e das florestas;
– as constantes agressões contra a Natureza, sobretudo pelo investimento maciço em megaprojetos (Transposição, hidrelétricas como a de Belo Monte), e, pior, com gastos suntuosos e grandes prejuízos para o Erário…
– o investimento do Estado em benefício do agronegócio, com sua estratétigia devastadora de gentes e de territórios;
– descompromisso do Estado em relação às reformas estruturantes (reforma agrária, por ex., e outras, mais verbas para educação e para a saúde, etc., etc., etc.);
– aprovação desastrada do Código Florestal;
– crescentes investidas das grandes empresas de mineração, a pressionarem inclusive pela maior desregulação das atividades de exploração mineral;
– crescente onda de violência social, de criminalização e de assassinatos de mulheres, de pessoas do segmento LGBT, de camponeses, de moradores de rua, de jovens, de pobres, enfim…
– de revolta generalizada contra a cultura da IMPUNIDADE SELETIVA (enquanto uns têm punição certa até de “crimes presumíveis”, outros há que não são presos nem quando formalmente julgados culpados…
– de votação de medidas favoráveis aos bancos, que já lucram demais à custa da população… É enorme a lista, enfim.

No tocante ao perfil dos manifestantes, deparamos com uma diversidade notável de participantes, sendo que os jovens constituem a grande maioria. Mas, nas manifestações, encontram-se jovens, adultos, pessoas de idade, mulheres, homens, membros de movimentos populares e outros segmentos. Reparando-se para suas bandeiras, cartazes e palavras de ordem, é possível ter uma idéia dessa diversidade de sujeitos anônimos, desconhecidos, pelo menos na cena política convencional.

Tanto mais tocante é a atipicidade do rosto dos manifestantes, quando se sabe que se tem tratado de manifestações fortemente espontâneas, isto é, sem atrelamento significativo a partidos, a sindicatos e a instituições similares. É a gente comum que sai às ruas, juntando-se aos protestos por melhores condições de vida e de trabalho.

O quê denunciam? O quê reivindicam? Até por conta da diversidade de composição, são bastante variadas as listas de clamores e de reivindicações, inclusive quanto ao seu conteúdo e extensão. Há, com efeito, quem ganhe as ruas para reivindicar a redução da tarifa de transporte. Há, também, quem vá além: reivindica-se uma melhor qualidade dos transportes urbanos. Daí as queixas contra ônibus superlotados, horários insuficientes e desrespeitados, paradas de ônibus “queimadas”, más condições de acessibilidade para pessoas com deficiência, lucros abusivos das empresas de ônibus, consentidos pelos poderes “públicos”…

Queixam-se os manifestantes contra as más condições dos serviços públicos essenciais (principalmente, saúde e educação). Reclamam que se assegure uma qualidade em tais serviços semelhante à que se garante nas construções destinadas à copa. Aqui se fala – equivocadamente, ao meu sentir – em “serviços qualidade FIFA”… Bem percebemos o que se quer dizer com isso, mas de modo equivocado, à medida que buscamos aprimorar o sentido das palavras. “Qualidade FIFA” soa como um IMERECIDO E DESCABIDO elogio à FIFA, cuja identidade institucional evoca e inspira sobretudo odiosos privilégios e falcatruas, no plano da ética.

E como se têm organizado esses protestos? O que explica o sucesso de sua força mobilizadora? Aqui reside um importante traço do seu ineditismo: a forma de organização. Não é, por certo, a primeira vez que isto se dá em outros acontecimentos recentes, no mundo. Grandes mobilizações populares em alguns países muito têm a dever às redes sociais. No caso do Brasil, é a primeira vez que isto se dá, pelo menos com tal poder de mobilização, com tais resultados. Normalmente, não se espera que grandes contingentes de jovens se deixem motivar a saírem da virtualidade de suas máquinas ao desconforto e aos riscos que as grandes mobilizações de rua comportam. Mas, foi isso que se deu!

Curioso notar um caso irônico. Ganhou popularidade, nos meios de comunicação social convencionais uma propaganda financiada por uma empresa automobilística, a FIAT, com um título chamativo de motivação da população em relação à Copa das Confederações; “Vem pra rua… porque a rua é a maior arquibancada do Brasil”… Um dos traços da criatividade dos organizadores e organizadoras dessas manifestações reside no fato de se terem servido de uma propaganda comercial, talvez de tom alienante, e de tê-la RESSIGNFICADO, imprimindo-lhe um apelo cidadão…

Não menos significativo é o fato de que essas manifestações comportam um altíssimo grau de espontaneidade, isto é, não tiveram, a não ser residualmente, uma inspiração direta dos movimentos socais mais bem organizados – do campo e da cidade. É certo que contaram com a participação notável de estudantes, mas dificilmente se pode atribuir à força de algum desses movimentos, em especial. Muito menos, têm a influência de partidos e de sindicatos. Ao contrário, observa-se até um certo desconforto – para não dizer mesmo alguma hostilidade – ante a presença ostensiva (com bandeiras) desses protagonistas habituais (partidos e sindicatos).

Antes de tentarmos esboçar algumas inquietações ou impressões ao calor dos fatos ainda em curso, tratemos de resumir – ainda que muito superficialmente – os clamores e demandas básicas dessas manifestações ainda em curso, tentando distribuí-las didaticamente nas seguintes esferas da realidade social:

sócio-ambientais: denúncias contra as várias formas de agressão sócio-ambiental, inclusive a política de (má) convivência com o Semiárido nordestino; denúncias em relação ao custo e às qualidades do transporte urbano; desabafo contra o nível de violência social por parte dos aparelhos de Estado; contestação pública em relação aos gastos exorbitantes feitos por exigência da FIFA, comparados aos investimentos na oferta e na qualidade dos serviços essenciais; denúncia quanto à crescente degradação da qualidade de vida nos centros urbanos (insuportável cotidiano do trânsito, dos transportes, dos altos e crescentes índices de violência, descontentamento contra as condições de moradia, revolta contra as desigualdades sociais)

econômicas: insatisfação contra o custo de vida, indignação contra as enormes disparidades salariais e econômicas entre distintos segmentos da sociedade, voracidade e ganância de certos setores sociais (agronegócio, bancos, empreiteiras, transnacionais, disparidade de vencimentos entre “representantes” e “representados”; indignação contra o enorme montante de recursos públicos desviados por diferentes razões (corrupção, renúncia fiscal, propaganda perdulária…), denúncia das más condições de trabalho.

políticas: claro sentimento de falta de representatividade; desconfiança quanto às promessas das políticas sociais; orfandade em relação aos aparelhos de Estado, aos partidos políticos, às centrais sindicais, aos movimentos sociais tradicionais; desejo de participação nas decisões fundamentais do País; denúncia contra o projeto de emenda à Constituição que tenta limitar a atuação do Ministério Público…

culturais: crítica ao papel da mídia convencional (“Vem pra rua” é uma ilustração; denúncia das difusas formas de discriminação (de gênero, contra a homofobia, de classe, de etnia, de geração, de espacialidade);

Diante desse quadro provisório, parcial e limitado, o quê se pode insinuar como ensinamentos dessas manifestações, sobretudo para os movimentos socais que atuam com projeto alternativo de sociedade? Destaquemos, então, de passagem, alguns pontos.

Cada geração encontra sua lógica, seu jeito e seu tempo próprios de ação e de intervenção. Cada geração recolhe elementos de outras, sem tentar reeditá-los, mas, antes, buscando ressignificá-los, do seu jeito e em função dos desafios identificados.

– Dito isto, perguntamos: será que sua espontaneidade também não constitui um recado para os protagonistas habituais, inclusive os movimentos sociais lidando com projeto alternativo de sociedade, no sentido do relativo distanciamento deles, da vida cotidiano desses sujeitos políticos que, em seu anonimato, fazem questão de dizer sua palavra e mostrar sua força cidadã?

– Ainda nesse sentido, será que isto também não aponta graves lacunas desses movimentos sociais quanto a uma aproximação orgânica questionável com os poderes instituídos, fazendo-os perder sua força crítico-transformadora?

– Isto também não aponta seriamente para inexistente ou insuficiente aposta no processo formativo contínuo dos próprios movimentos sociais?

– Será que um dos recados a recolher não tem a ver com o sentimento de uma múltipla orfandade político-pedagógica: não apenas em relação óbvia com o Mercado e com o Estado, mas também em relação às forças de esquerda partidárias, sindicais e outras?

Sigamos acompanhando e atentos a essa irrupção de indignação ético-política que busca, ao seu modo, a efetivação do PÚBLICO frente à onda privatista do Mercado e do Estado, procurando auscultar / perscrutar-lhe o sentido dos clamores e das aspirações, e, sobretudo, buscando recolher seus ensinamentos, com vista a, com eles e com elas, seguir construindo uma nova sociedade, economicamente justa, politicamente participativa, culturalmente diversa, assegurada igualdade social, em escala universal.

João Pessoa, 21 de junho de 2013.

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