“Pelo fruto se conhece a árvore”: que “árvore” produz as migrações forçadas?

Uma das chagas sociais mais graves da atualidade expressa-se na figura das migrações forçadas. Estas vêm se multiplicando, por toda parte, como raras vezes, na história recente. São centenas de milhares de humanos – mulheres, homens, crianças, pessoas idosas… – que se sentem compelidas a sobreviverem, deixando suas casas, seus parentes, seus pertences, em busca de outras terras, enfrentando os piores entraves e adversidades – fome, frio, perseguições, ameaças, riscos de toda sorte, tendo que aventurar-se por caminhos perigosos, pelos mares, em embarcações precaríssimas, nos diversos continentes.

Quase diariamente, divulgam-se notícias de tragédias, em várias partes do mundo. O Mar Mediterrâneo, por exemplo, passa a ser conhecido também como o maior cemitério a céu aberto do mundo. Ainda repercutem, pungentes, as palavras proféticas do Bispo de Roma, ao visitar (mais de uma vez) esses irmãos migrantes forçados. Isto se deu em Lampedusa (Itália), em 07 de julho de 2013, a menos de cinco meses após o Papa Francisco ter assumido suas funções de Bispo de Roma (https://www.youtube.com/watch?v=JV1TXm_r5M0).

Nesta ocasião da visita aos migrantes forçados acolhidos em Lampedusa, o Papa Francisco se achava particularmente comovido com aquelas gentes, vindas de vários países, em busca de sobreviverem em terras europeias. Dirigiu-lhes, então, palavras de profunda solidariedade, ao tempo em que lançava graves críticas contra os protagonistas do que chamou de “Globalização da indiferença”, denunciando a viva voz a grave responsabilidade dos controladores de um sistema cruel, que leva à morte milhares de seres humanos, mundo a fora. E não ficou apenas nesta visita. Deslocou-se também outra vezes (em Lesbos, nos Estados Unidos…).

O fenômeno da migração, como se sabe, acompanha o processo histórico dos humanos. A condição de nômade integra nossa trajetória humana, desde longa data. Em certa medida, todos nos sentimos migrantes, de algum modo. Isto tem a ver também com o gosto pela aventura do desconhecido, de que também temos sede. Sentimo-nos, por vezes, fascinados pelo testemunho de migrantes e peregrinos. Deles e delas nos fala forte um de seus lemas: ”Omnia mea mecum porto.” (“tudo que é meu trago comigo. ”). Algo que, independentemente de nossas opções pela mesma escolha, nos toca profundamente como uma marca própria de um ser livre. Migração, por conseguinte, se e quando resultante de uma escolha de vida só pode merecer o nosso apoio e entusiasmo. Mas, não é das migrações voluntárias que aqui tratamos. Ocupamo-nos, nas linhas que seguem, de entender as razões mais fundas dessas ondas crescentes de migrações forçadas, que, nada têm a ver com a vontade de quem migra.

Eis que, nas últimas décadas, sucessivas ondas de migrações forçadas se expandem, nos vários continentes, de modo mais acentuado desde o continente africano e asiático, em direção à Europa, e desde América Central, em direção aos Estados Unidos.

O que, então, compele a centenas de milhares de seres humanos a deixarem suas respectivas terras, em busca do desconhecido? Um exame detido sobre as condições de vida, materiais e imateriais, dos países e das populações donde partem tais migrantes forçados, revela os escandalosos índices de miséria, de desigualdade sociais, de violência social, de belicismo, de absoluta falta de condições de vida digna para tais populações. Pior ainda é constatar que, na base desta miséria, se acham mecanismos estruturais de enriquecimento crescente de setores dominantes locais e externos. No caso dos setores dominantes e externos, os principais grupos privilegiados, vem da chamada civilização ocidental e cristã. A expansão acelerada e voraz do capitalismo pelos países periféricos dos vários continentes, tem envolvido uma multiplicidade de estratégias, seja na esfera da produção, seja na esfera política, seja na esfera cultural. Mais do que identificar, numa única destas esferas, a eficácia pernóstica de exploração, de dominação e de marginalização em massa, presentes nos países periféricos, importa perceber sua dinâmica combinação, inclusive por meio da expansão do fundamentalismo religioso. Há algumas décadas, refletindo tal processo, de incidência mais forte no continente americano, o autor Délcio Monteiro de Lima escreveu um livro, cujo título não vinha à toa: Os demônios descem do norte (Editora Francisco Alves, 1987) cf. comentário in:http://fotossintetizador.blogspot.com/2011/12/sobre-o-livro-os-demonios-descem-do.html

Faz-se atual a denúncia lançada, ainda nos anos 70, da existência de “ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres.” Nos países periféricos do mundo, o Capitalismo atinge seu mais alto grau de perversidade. No centro de suas operações, estão as grandes corporações transnacionais, a atuarem em todos os setores da economia, (haja vista sua extrema lucratividade no campo da indústria de armamentos, por exemplo) inclusive no campo da Cultura e até das religiões…. Tal é sua avidez de lucro, que não hesitam em degradar cada vez mais as condições socioambientais, nas mais variadas partes do mundo. E já não se contentam com atuarem apenas na esfera da produção: também atuam numa variada gama de setores, de modo fortemente articulado, isto é, cuidam de atuar em conjunto com os Estados, induzindo-os a escancararem suas portas às suas mais destrutivas políticas econômicas. Não é por acaso o crescente hiato ou o crescente abismo que se abre entre governos e respectivas populações. Em profunda crise se acham as democracias representativas, mundo a fora.

E tudo isto vem sucedendo, num contexto também de crises daquelas forças e organizações de base da sociedade civil, portadoras de reconhecido potencial transformador. Sem tais forças, resulta em vão a luta por efetivas mudanças. Daí a urgência de se reorganizarem tais forças da sociedade civil, retomando, em novo estilo, seu processo organizativo e seu processo formativo CONTÍNUO, sem o que não há muito o que esperar de superação desses impasses societais, inclusive no que diz respeito aos fatores centrais provocadores das migrações forçadas.

João Pessoa, 17 de novembro de 2018