Pela equiparação dos direitos humanos aos direitos das vidraças dos bancos

A partir do caso da repórter da Globo exposta por duas pessoas enquanto trabalhava, com ataques diretos a ela nas ruas de Copacabana, vê-se que a questão dos profissionais de mídia atuando nos grandes meios de comunicação é mesmo delicada, num momento particularmente delicado.

Se for me lembrar, de cabeça, de todos os amigos que trabalham na “grande mídia”, vou lembrar de amigos, bons profissionais e, com raras exceções, pessoas sem caráter ou sem critérios, digamos, confiáveis. A maioria merece todo o respeito, com as exceções.

Por outro lado, o resultado final em relação ao trabalho deles — principalmente na TV e em outros veículos de massa — é deplorável. É o oposto do que posso dizer dos meus colegas, muitos amigos. Há exceções? Sim. Mas a maioria das matérias sobre temas importantes e mais sensíveis — como questões sociais, por exemplo — são ruins e, muitos vezes, parecem de fato seguirem a mesma lógica do braço do poder que a mídia cumpriu tantas vezes em nossa História.

Podemos citar algumas centenas de exemplos, todos os anos, de casos-chave em que a informação foi pelo ralo. Peguem o caso do Douglas, assassinado em Copacabana. A TV Globo passou o tempo todo, até quando pôde, reafirmando como verdade a versão das polícias (civil e militar). Segundo “peritos”, não havia perfuração, apenas uma queda. O “comentarista de segurança” da emissora chegou a “informar” que ele já teve passagens pela polícia. O laudo desmentiu. Ele foi covardemente assassinado. A mãe não quer nem mesmo se encontrar com o governador.

São dezenas e dezenas de casos que acompanho diariamente de informações equivocadas.

Então, o que temos aqui? Profissionais mal intencionados?

Não, quase nunca. Trata-se, mesmo, de uma metodologia — o que é pior ainda. O oficialismo, por exemplo — a fonte “oficial” vem sempre em primeiro plano –, é uma das causas. Os anunciantes também influenciam sobremaneira nas pautas. A ideologia é outra aliada da manipulação. A lógica é simples: a propriedade é mais importante que determinadas vidas humanas.

Aí vem a questão: e a repórter com isso?

Não tem (quase) nada a ver, a princípio. Mas a TV Globo é uma concessão pública, correto? Sim, é. Faz um serviço PÚBLICO, e não privado. É uma emissora privada? Sim, sem dúvida. Mas seu serviço nunca deixará de ser público. Não há sobre o que se debater sobre isso. Pode-se dizer que não deve sofrer qualquer influência estatal — é verdade. Esquecem-se de dizer: público não é estatal e, influência por influência, também não deve se vender despudoradamente às empresas.

Então, quando presidentes da República, senadores e outras autoridades são colocadas contra a parede — ou os “walls” das redes sociais — isso é “bullying”? Pode ser, mas tem de se aprender a conviver com isso. Agir dentro do possível. Mas nunca, em hipótese alguma, achar que isso não é da democracia.

A TV Globo não deve sair “ilesa” de ser questionada pela sociedade. E se os seus executivos não debatem e encaram de frente a sociedade, esta deve e pode questionar seus funcionários. Sem violência, dentro dos limites da lei, respeitando a liberdade de expressão — mas nunca, de novo, em hipótese alguma, desrespeitar o direito do cidadão de questionar os serviços públicos prestados por qualquer empresa ou autarquia. Seria absurda essa posição.

No final das contas, é muito fácil colocar a “culpa” pelo “bullying” sofrido pela jornalista no casal de interlocutores, ou mesmo em quem filmou a discussão. É mais fácil — e irracional, pois quem filmou estava filmando publicamente e fazendo seu trabalho de imprensa! — do que se voltar para dentro da empresa e se perguntar: por que será que esse vídeo fez tanto sucesso? Vamos avaliar isso? Como diz um já natimorto candidato da República: vamos conversar sobre isso?

Por exemplo: todos os jornalistas sabem que trabalhar de freelancer numa determinada revista sediada em São Paulo se tornou um fardo pesado. Você escreve sua matéria corretamente, mas ela é contratada como um “relatório” e o editor vai lá e muda tudo. Pega um trecho aqui, outro ali e produz uma peça publicitária. Quem é que está lá, na ponta, no dia a dia? O jornalista. E para quem a “fonte” vai se referir, portanto?

Pois é. É a mesma coisa — e não falo sobre esse caso específico, tomo como uma questão geral. A GloboNews e a TV Globo têm insistentemente manipulado muitos dos acontecimentos nestes confusos tempos pré-Copa. É fácil manipular: as informações estão cada vez mais fragmentadas, sem um grande referencial central, e a “Internet” não chega à maioria das pessoas — e, mesmo se chegasse, seu conteúdo é ainda mais fragmentado.

O telespectador que é internauta atento sabe disso. Dirão que são “nuances”, casos isolados, pequenos “erros”, “interpretações” e, no final, fruto da liberdade de expressão. Não são: quem é telespectador e internauta sabe disso. E muitos dos colegas conhecem essa realidade e já se levantaram, dentro de suas redações e cada um a seu modo, contra essa situação. Como empresa privada tem chefia, a situação continua dependendo da boa vontade dos executivos, preocupados em última instância com seus negócios, os negócios da comunicação.

Em relação à tal revista sediada em São Paulo, todos os meus colegas mais “antigos” — com seus trinta e poucos anos — deixaram a publicação. Partiram pra outra. Sobram apenas os novos, que sofrerão a mesma situação.

A questão é de fato complicada. É inadequado, portanto, buscar frasismos para resolver o tema, ou mesmo soluções aparentemente mágicas — como “cadê o sindicato?” ou “estão atacando a liberdade de expressão”.

O que muitos não entendem — e nem querem — é que enquanto as grandes empresas veem a comunicação como um mercado e estão, portanto, fazendo “business as usual”, muitos outros (e cada vez mais) veem a comunicação como estratégica para o desenvolvimento humano e a ampliação dos direitos humanos. É até uma graduação em muitos países, a “comunicação para o desenvolvimento” (está nos níveis do jornalismo, de Rádio&TV, publicidade etc).

A repórter tem direitos, OK. É um ser humano e está muito estressada com seu trabalho, como ficou fácil ver. Foi a primeira? Claro que não. Eu já vi repórter de TV neste mesmo estresse algumas dezenas de vezes na minha vida profissional.

Agora, que tal olhar para os outros direitos? Essa repórter trabalha numa emissora que já classificou — não uma, duas ou três vezes, mas dezenas de vezes — trabalhadores comuns como criminosos. E pior: sugerindo que, como criminosos, não merecem o Estado Democrático de Direito. Como dizemos no popular: jogou pra galera.

E essas famílias?

E os milhões e milhões de brasileiras e brasileiros pobres, “quase todos pretos” (como cantou Caetano) e destituídos de aparelhos hegemônicos da mídia? E as milhões e milhões de pessoas expulsas de suas casas ou atacadas por forças do Estado por exigirem direitos enquanto os mesmos de sempre — incluindo a tal emissora! — fazem negócios durante a Copa?

Pergunto-me, enfim, quando que, na grande mídia, os direitos das vidraças de bancos serão equiparados aos direitos humanos.

Nesse dia, estas situações estressantes tendem, creio eu, a diminuir. Não acabarão, mas vão certamente diminuir.

PS. E adiciono: quero ver alguém lembrar que, ali bem atrás da câmera, tinham pelo menos dois profissionais da área de radialismo que tiveram que ouvir calados o esporro da repórter para eles.

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