Paulo Freire como uma centelha de Utopia Humanizadora

“Dez anos sem/com Paulo Freire” – é mote neste, como o foi também de alguns encontros e seminários comemorativos do décimo aniversário da partida desse Tecelão da Utopia, como o tenho chamado. Ao (re)lermos ou relembrarmos essa grande figura humana de Educador, cujo perfil nos remete ainda ao de alguém impregnado da Filosofia da Práxis, sentimo-nos movidos por esse misto de ausência-presença, a que confere mais sentido a intuição de Manoel de Barros, poeta do sonho acordado: “Tem mais presença em mim o que me falta”.

Sentimento misto que se expressa, de um lado, pela tristeza por já não tê-lo fisicamente entre nós; mas, por outro, pela viva sensação de sua densa presença como um vento impetuoso a nos atiçar, a nos instigar à ousadia, e que nos acompanha e nos encoraja a assumirmos a Causa pela qual se entregou, que poderíamos sintetizar, dentre outras formas, como a luta por uma sociedade que assegure a todos os Humanos as condições necessárias de desenvolvimento de todas as suas potencialidades, cuidando do, e vivendo em harmonia com o Planeta. Causa sua que é também a de quem se sente freireanamente instigado a seguir caminho, tornando também sua a aposta no processo de humanização, na perspectiva do seu “inédito viável”.

Numa ocasião como esta, o mote proposto “Dez anos sem/com Paulo Freire” comporta um amplo leque de possibilidades temáticas de interlocução. Além disso, como sói ocorrer em relação a figuras similares, de Paulo Freire também podemos falar, a partir dos mais distintos fios existenciais e do seu legado escrito. Como se trata de uma pessoa inteira, cujos escritos confirmam seu viver, qualquer fio do qual partamos – a depender da sensibilidade e da criatividade do tecelão, da tecelã – vai se enredando, vai se emaranhando em outros, em mais outros, em outros mais, alcançando até uma visão de conjunto da mesma figura.

Podemos partir de sua obra, por exemplo. Inclusive, de qualquer dos seus textos. Podemos partir de elementos biográficos seus. E, nestes, tomar qualquer fio relacional ou de sua subjetividade (espacialidade, trabalho, gênero, etnia, geração, classe social, eticidade, relação ecológica, ludicidade, esteticidade, relações com o Sagrado…). Qualquer um – insisto: a depender de quem faz e de como é feita a costura – pode levar a outros, em busca de uma configuração aproximativa do “todo”.

Se, por exemplo, condicionados pela atual conjuntura, arrancarmos de suas inquietações macro-sociais, não tenhamos dúvida: vamos chegar também aos respectivos rebatimentos inscritos nas micro-relações. E vice-versa. Seguindo essa trilha, podemos compreender a forte carga de indignação ético-política que o movia, de tal modo a lançar-se, em diferentes textos seus (por exemplo: em Ação Cultural para a Liberdade ou em Pedagogia da Autonomia, só para mencionar dois de seus tantos textos) contra o discurso da racionalidade cínica que hoje campeia a céu aberto. Por mais que sejamos forçados a reconhecer o império do que venho chamando de “cultura da ambigüidade” (cf. CALADO, in JEZINE e ALMEIDA, 2007), tendência que podemos resumir nas atitudes de quem avalia como prática a ser cultivada a tendência crescente de se sentir uma coisa, pensar-se uma segunda, dizer-se uma terceira, querer-se uma quarta e fazer-se uma quinta…

Vivemos tempos em que, por vezes, já não se assume mais sequer o que se escreveu, há tão pouco tempo. Escritos de dez ou quinze anos atrás sobre questões macro-sociais de fundo (projeto de sociedade, política de endividamento, política de privatização, política da previdência, reforma agrária, reforma urbana, distribuição de riqueza e de renda, política educacional, de saúde, política de alianças, entre tantas outras, já não batem com o que hoje se diz, ou, embora não se dizendo, se faz… Críticas contundentes feitas, até há poucos anos, a justo título, contra as políticas governamentais claramente contrárias aos interesses das classes populares e a favor dos setores dominantes (bancos, transnacionais, etc.) já não são objeto de críticas como dantes. Pior: não apenas não se criticam mais as políticas perversas: simplesmente se acolhem e se reeditam, ainda que com palavras sutis, que não conseguem mudar substantivamente o conteúdo do que concretamente é feito…

A moda é investir no “marketing” ideológico de inspiração goebeliana, para quem uma mentira repetida à exaustão se transformaria em verdade. Vale dizer até o contrário do que se faz. Por um determinado tempo e para um certo número de pessoas, isto pode terminar vingando. É assumido como verdade. E até se consegue fazer muito estrago. Mas, isso também tem limite. A verdade, um dia, há de prevalecer. Pode-se enganar muita gente, durante um largo tempo, mas não todo o mundo, eternamente, até porque, como diz a sabedoria popular, “A mentira tem pernas curtas”, sentimento assim expresso por Vinicius de Moraes e Toquinho, em sua conhecida canção “Regra Três”: “Tem sempre um dia em que a casa cai”…

Vem-me à lembrança, a esse propósito, um dos ensaios de Paulo Freire, “O papel educativo das Igrejas na América Latina”, que depois integraria sua coletânea de textos Ação Cultural para a Liberdade. Textos, em geral, escritos para seminários por ele animados, em diferentes países, entre 1968 e 1971. O artigo ao qual me refiro, foi escrito em 1971, e do qual li, primeiro, a versão italiana, tendo depois traduzido e publicado . Ao situar criticamente a posição daqueles que ele descreve, de um lado, como “os espertos” (“furbi”) e, de outro, como “os ingênuos”, diante do desafio de transformar as relações sociais dominantes e diante dos riscos que a construção de uma sociabilidade alternativa sempre implica, sustenta que

Esta ilusão de que, com prédicas, obras humanitárias e o desenvolvimento de uma racionalidade desgarrada do mundo é possível, primeiro mudar as consciências, depois, transformar o mundo, existe apenas naqueles que chamamos de “inocentes” e a quem Niebuhr chama de “moralistas”. Os “espertos” sabem muito bem que, com tais formas de ação, retardam o processo fundamental que é, na verdade, o de transformação radical das estruturas sociais para que se possa dar, com a instauração de uma nova prática social, a mudança das consciências. Mudança, por sua vez, não mecanicamente automática.

E, mais diante, assim arremata:

“Uns e outros “atravessam” a ideologia das classes dominantes e por ela são “atravessados”, mas os “espertos” assumem esta ideologia. São bastante conscientes do que fazem. Os “inocentes” por sua vez, através de sua própria prática histórica, ao desvelar a realidade e sendo nela desvelados, tanto podem assumir a ideologia da dominação, transformando, assim, sua “inocência” em “esperteza”, quanto podem renunciar a suas ilusões idealistas. Neste caso, então, retiram sua adesão acrítica às classes dominantes e, comprometendo-se com as classes oprimidas, iniciam uma nova aprendizagem com elas. (FREIRE, 1984, p. 106).

Conseqüente, inclusive ao contexto sócio-histórico latino-americano de então – o de um clima efervescente suscitado pela então recente realização da Conferência de Medellín e do surgimento das Comunidades Eclesiais de Base e da Teologia da Libertação -, Freire trata especificamente do que-fazer histórico-educativo das igrejas cristãs. Não obstante, sua reflexão, mutatis mutandis, mantém-se atual, não apenas em relação ao papel das igrejas cristãs. Hoje sua reflexão pode estender-se também a outros sujeitos coletivos e a segmentos outros tais como movimentos sociais, organizações sociais de base, espaços universitários, entre outros, nos quais tem sido praxe o recurso à “esperteza”, por meio de discursos autojustificativos quanto

– às flagrantes contradições que, de eventuais e esporádicas, arriscam transformar-se em regra ou mesmo em discurso apologético, no que diz respeito, por exemplo, ao seu apoio (explícito ou velado) às políticas governamentais antes condenadas com veemência;

– à tendência a superestimar meros procedimentos metodológicos, sucumbindo às vezes aos vícios do tecnicismo, como meio de refrear suas ações crítico-propositivas ao sistema, fazendo, assim, ouvidos moucos à advertência freireana contra práticas mistificadoras:

Outra dimensão da mistificação da conscientização realizada pelos “inocentes” ou pelos “espertos” é a tentativa de conversão da tão propalada educação para a libertação a um problema puramente metodológico, tomando-se os métodos como algo neutro, assexuado. Desta forma se pretende esvaziar a ação educativa de seu conteúdo político e a expressão “educação para a libertação” já não faz sentido. (FREIRE, 1984, p. 110).

Mesmo em relação a vários Movimentos Sociais Populares (inclusive segmentos daqueles poucos que trabalham com projeto alternativo de sociedade) e outras organizações sociais de base – para não mencionar relevantes núcleos de organizações sindicais e partidárias que teimam em continuar autoproclamando-se de esquerda, é possível observar-se, com freqüência cada vez maior, uma tendência ao irenismo, a uma atitude de incondicional pacifismo frente às políticas governamentais de caráter macro-social. Atitude dissimulada ora por um silêncio de cumplicidade, ora por leves críticas aos efeitos superficiais, ora pela expressa apologia centrada nas políticas sociais de varejo dos órgãos públicos, mas sobretudo pela tendência a despolitizar ou mesmo a substituir as análises de conjuntura por meras oficinas de ensino-aprendizagem de técnicas ou métodos de trabalho popular, sem a devida atenção ao horizonte para o qual estão apontando esses métodos e técnicas.

Não raro, são oferecidas tais oficinas, em nome da pedagogia freireana, sob a alegação de que nelas se exercita o protagonismo dos participantes, o que, em parte, é verdade. O problema é: que tipo de protagonismo se está a promover? Uma coisa, como se sabe, é promover a participação de jovens e adultos em atividades metodológicas desconectadas do horizonte transformador; outra coisa bem diferente – que não é feita! – seria a promoção da efetiva participação dos protagonistas nos debates e nas decisões sobre o tipo de sociedade que queremos construir e que caminhos apontam nessa direção, afinal de contas

a práxis, através da qual a consciência se transforma, não é pura ação, mas ação e reflexão. Daí a unidade entre prática e teoria, em que ambas se vão constituindo, fazendo-se e refazendo-se num movimento permanente no qual vamos da prática à teoria, e desta a uma nova prática. (FREIRE, 1984, p. 109).

Diante desse contraditório quadro sócio-histórico, é que recorremos a figuras como Paulo Freire, de quem buscamos haurir forças capazes de nos permitir seguirmos firmes na busca da construção de uma nova sociedade, que a todos assegure o exercício daquela amorosidade que tantas vezes testemunhou, quando afirmava, por exemplo: “Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso. Eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade.”

Nossa reflexão aqui se desenvolve em três momentos interrelacionados. Iniciamos, em breves pinceladas, sublinhando alguns dos momento considerados mais densos de seu percurso existencial. Em seguida, situaremos alguns dos desafios atuais que sentimos mais fortemente, nas várias esferas da realidade social. No último tópico, ousamos propor algumas pistas de enfrentamento, especialmente na esfera dos valores, sempre buscando fundamentar-nos no legado freireano.

1. Re-situando alguns elementos do percurso existencial de Paulo Freire

Já se dispõe hoje, no Brasil ou fora do país, com relativa facilidade, de várias referências biográficas sobre Paulo Freire. Em nosso caso, não se trata de reeditar aqui algo parecido. Nosso intento é sublinhar, levemente, certos elementos do seu percurso existencial, como referência a outros pontos aqui levantados.

Ao rememorarmos traços biográficos de Paulo Freire, acompanhamos a página do Centro Paulo Freire – Estudos e Pesquisas (www.paulofreire.org.br ), que distribui seu percurso existencial em três períodos: o de Recife (1921-1964); o período do exílio (1964-1980); e o período de São Paulo (1980-1997).

Sua primeira fase abarca quarenta e um anos, razão pela qual merece a devida atenção. Não é nosso propósito daí extrair apenas detalhes convencionais, mas ir em busca de episódios e situações mais fortes que se acham direta ou indiretamente associados à sua vida posterior. Convém ter presente, a esse respeito, que foi durante esse período que ele viveu sua infância, sua juventude, por anos a fio, durante os quais elaborou os fundamentos de sua proposta pedagógica, na qual desembocaram suas intensas e apaixonadas leituras que empreendeu, de modo todo especial, entre seus dezenove e vinte e dois anos. Partindo, com efeito, dos seus estudos lingüísticos, Freire relembra

Comecei a desenvolver certas idéias pedagógicas, juntamente com reflexões históricas, culturais e filosóficas. Enquanto desenvolvia essas idéias, porém, tinha de enfrentar as realidades sociais muito dramáticas e desafiadoras de minha terra natal, o Nordeste. Tivera uma infância difícil devido à situação econômica de minha família. Agora, jovem, trabalhando com operários, camponeses e pescadores, tomava consciência, mais uma vez, das diferenças entre as classes sociais. (FREIRE e MACEDO, 1990, p. 109).

Caçula de quatro irmãos, Paulo Freire nasceu em Recife, a 19 de setembro de 1921, de Joaquim Temístocles Freire (capitão da Polícia Militar de Pernambuco) e Edeltrudes Neves Freire, uma família algo próximo do que se convenciona chamar de “classe média”. Tinha dois irmãos (Armando e Temístocles) e uma irmã (Stela). Foi alfabetizado pela mãe, à sombra das mangueiras do quintal da casa, e com gravetos: “O chão foi o meu quadro-negro; os gravetos, o meu giz.”, relembra, saudoso, em A Importância do Ato de Ler.

Aos oito anos, com toda a família, o menino Paulo curte um momento de grande dissabor, ao ter que acompanhar os pais e os irmãos, obrigados a mudar-se do bairro de Casa Amarela para Jaboatão. A família morava numa casa pela qual Paulo Freire nutria forte encanto, por conta inclusive do quintal com duas mangueiras, entre as quais e sob cujas deliciosas sombras seu pai até estendia uma rede. A casa pertencia ao seu tio, então comerciante no Rio de Janeiro, que se viu arruinado em conseqüência dos desdobramentos da crise de 1929, sufocado de dívidas que o fizeram perder a casa.

Situação agravada, alguns anos depois, com a perda do seu pai. Mais transtornos para a família e para o próprio adolescente, forçado a interromper os estudos, de modo a só poder reiniciá-los (desta vez, no Ginásio), aos 16 anos, graças ao esforço dos dois irmãos Armando e Temístocles, a quem agradecia por haverem permitido, com o seu trabalho, que o irmão caçula prosseguisse os estudos.

Aos 22 anos, entra para o curso de Direito, período em que começa a ministrar aulas de Português, no Colégio Oswaldo Cruz. Situação que lhe vai permitir casar-se, em 1944, com a Professora Elza Maria Costa de Oliveira – Elza Freire -, que sobre ele teria uma influência marcante, reconhecida por ele próprio, sem desconhecer, porém, tratar-se de uma influência recíproca, fato ao qual voltaremos, mais adiante.

Outra conquista sua foi a de ter conseguido trabalho no SESI, em 1947, onde passaria dez anos. Não menos significativa, porém, foi sua designação, em 1956, pelo Prefeito de Recife, Pelópidas Silveira (figura progressista que gozava de ampla respeitabilidade entre as forças de esquerda) como um dos membros do Conselho Consultivo de Educação de Recife. Nessa área, Paulo Freire vai cada vez mais se firmando, graças também à influência de sua esposa, professora. Influência – recíproca – que se manifestou em diferentes momentos. Um desses momentos se deu quando Paulo Freire, então concluinte do Curso de Direito, chega a admitir seu fracasso vocacional, desde quando, ao assumir uma de suas primeiras causas, não teve coragem de levar a termo seu pleito de privar aquele dentista de seus instrumentos de trabalho como meio de saldar dívidas. Optou definitivamente pela educação. Opção em que foi também decisivo o papel exercido, direta e indiretamente, pela Profa. Elza.

A esse respeito, em primeiro lugar, recorremos ao testemunho do próprio Paulo Freire:

Quando eu tinha vinte e dois anos encontrei minha primeira mulher, Elza (…) Elza foi uma grande educadora. Trabalhava como poucas com crianças da pré-escola, e como poucas se dava às crianças a quem, apaixonadamente, desafiava para que escrevessem e lessem. Ela sabia como lidar com as crianças a quem, sem manipulá-las, sorrateiramente ou não, nem tampouco larga-las no horizonte sem limites ou licenciosidade, Elza vivia muito bem a tensão entre liberdade e autoridade. Fui seu professor de sintaxe. Foi assim que a conheci. (FREIRE, ap. SANTIAGO, 1999, p. 3).

No mencionado artigo, Eliete Santiago mostra, de forma didática e bem documentada, em que e de que modo a Professora Elza exerceu sobre seu esposo uma influência significativa. Em Alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra, é o próprio Paulo Freire que assim se expressas, referindo-se a Elza: “ela influenciou-me enormemente.” (ap. SANTIAGO, ib.). É ainda o próprio Paulo Freire quem atribui a dois fatores conjugados sua paixão pela Educação: “Os meus estudos lingüísticos e o meu encontro com Elza.” (FREIRE e MACEDO, 1990, p. 109).

É assim que a Educação, graças também ao papel de Elza Freire, vai se tornando para Paulo Freire, cada vez mais, seu alvo de constantes e crescentes incursões reflexivas. Pouco a pouco, vai assumindo um lugar de destaque, como pedagogo, inquieto com todo o processo de alfabetização. Não tardaria a notabilizar-se como metodólogo.

Não obstante, e para além de seu reconhecido empenho na formulação de uma proposta metodológica mais consistente, Paulo Freire não se sentia, por certo, diminuído, ao ser saudado por haver formulado também um método mais eficaz de se trabalhar o processo de alfabetização – o famoso “método Paulo Freire”. Confessava, porém, que sua “gula” era maior: pretendia – e disso deu conta satisfatoriamente – acenar para a necessidade de uma proposta metodológica subordinada e organicamente articulada a uma visão transformadora do mundo, dos Humanos e da sociedade.

Apaixonada aposta que vai se firmando mais e mais, durante a década de 1950, pelos trabalhos de extensão cultural que vai coordenar, na então Universidade de Recife, cuja tese de concurso de admissão vai se constituir num marco de reflexão para a educação da época. Continua a desenvolver e a aprimorar suas reflexões, na Universidade de Recife, agora também como professor de Filosofia e História da Educação.
Processo de reflexão que lhe permitirá aprofundar o sentido de sua aposta fundamental, sem o que se corre o risco de tornar estéril o núcleo fundante de sua proposta que reside no processo de humanização, numa perspectiva libertadora. Eis o sentido mais forte da proposta freireana. Nisso reside o cerne de sua Utopia, entendida, em um de seus textos, como a “dialética entre o ato de denúncia do mundo que se desumaniza e o anúncio do mundo que se humaniza”. Entendimento semelhante se acha em sua afirmação de que

Para mim o utópico não é o irrealizável; a utopia não é idealismo, é a dialetização dos atos de denunciar e anunciar, o ato de denunciar a estrutura desumanizante e de anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão a utopia é também um compromisso histórico.
A utopia exige conhecimento crítico. É um ato de conhecimento. Eu não posso denunciar a estrutura desumanizante se não a penetro para conhecê-la. Não posso anunciar se não conheço, mas entre o momento do anúncio e a realização do mesmo existe algo que deve ser destacado: é que o anúncio não é anúncio de um anteprojeto, porque é na práxis histórica que o anteprojeto se torna projeto; na minha biblioteca tenho um anteprojeto que se faz projeto por meio da práxis e não por meio de blábláblá. (FREIRE, 1980, pp. 27-28).

Tal exercício de aprimoramento do “pensar certo”, enriquecido sobremaneira pela sua viva inserção nas iniciativas de intervenção social, em sua época, a exemplo dos Círculos de Cultura, propiciaria uma crescente notoriedade, ao ponto de vir a coordenar, a convite do então Ministro de Educação, Paulo de Tarso Santos, o Programa Nacional de Alfabetização. Experiências como a de Angicos, no Rio Grande do Norte, e a do MEB (Movimento de Educação de Base) muito deveram à contribuição da pedagogia freireana, nesse primeiro período. Experiências que o Golpe de Estado empresarial-militar iria interromper ou tentar desvirtuar, como sua iniciativa do MOBRAL.

Bem mais conhecidos são os episódios relativos ao seu segundo período, que se estende de setembro de 1964 ao meio do ano de 1980. Após uns dias de exílio na Bolívia, segue para o Chile. Aí volta a apresentar uma densa contribuição, favorecido que foi também pelo contexto de efervescência e de mobilização social. A partir de 1969, após breve período por universidades dos Estados Unidos, vai fixar residência, juntamente com sua família, em Genebra. Aí tendo seu principal ponto de apoio, via seu compromisso profissional com o Departamento de Educação do Conselho Mundial de Igrejas, Paulo Freire não cessou de percorrer o mundo, a serviço de uma educação libertadora, principalmente junto às populações dos países africanos.

Com residência em Genebra, Freire vai tecer múltiplas relações com “gentes” de várias partes do mundo. Notável é sua densa correspondência entretida com dirigentes e educadores africanos, e publicada em Cartas à Guiné-Bissau, um valioso e fecundo atestado do trabalho desenvolvido em mutirão por ele e sua Equipe, em efetiva parceria com os protagonistas africanos.

Além dos países africanos – aliás, não apenas os de antiga colonização lusa -, ele teve a oportunidade de atender a numerosos convites de várias partes do mundo, para proferir conferências, coordenar seminários, ministrar cursos em diferentes universidades e instituições, receber homenagens. Isto se lhe constituiu um rico aprendizado e um meio precioso de testar e de aprofundar sua proposta pedagógica, bem cimentada numa visão de mundo consistente.

Quanto ao terceiro período, desde o seu retorno para o Brasil, em 1980, até à sua partida, em 2 de Maio de 1997, Paulo Freire, a partir de São Paulo (PUC e UNICAMP), entregava-se às mais distintas tarefas que lhe eram propostas: palestras, cursos, seminários, etc., nos vários Estados da União, fazendo-se solícito a convites que lhe eram feitos por “Gentes” de várias áreas do Norte, Nordeste, Sul, Sudeste, Centro-Oeste e de outros países da América Latina e do mundo.

Num contexto político ainda de esperança, aceitou até, por um breve período, ser Secretário de Educação da Prefeitura de São Paulo, na gestão Luíza Erundina. Não parecia ser propriamente sua “praia”.

Foi também este um período de intensa publicação: vários de seus livros foram editados, nesse período, a exemplo de Educação e Mudança, Pedagogia da Esperança, Educação e Política, Pedagogia da Autonomia, entre outros.

2. Desafios atuais da realidade social e educativa, no Brasil

Dez anos se passaram, desde a partida de Paulo Freire. De lá para cá, que balanço é possível esboçar, seja no plano macro-social, seja no plano da Educação? Sem negar conquistas pontuais, alcançadas nas diferentes esferas da realidade social, não há como ignorar que têm prevalecido mais sombras do que luzes.

Saudamos avanços científico-tecnológicos, por exemplo, na área da saúde, nas informações de alerta ante a progressiva degradação ecológica, e em outras áreas. Se pesquisas nessas e em outras áreas têm logrado contribuir com a qualidade de vida dos Humanos e do Planeta, tanto melhor! Isso, porém, não nos impede de inquietar-nos sobre alguns limites de tais conquistas: por um lado, sendo positivas, elas têm se restringido a parcelas minoritárias da sociedade. Não conseguem estender seus benefícios à maioria da população. Por outro lado, ainda sendo positivas, algumas delas não conseguem reverter, por exemplo, a tendência de progressiva degradação do Planeta (caso das informações e das técnicas de controle sobre os efeitos maléficos das mudanças climáticas). Apesar de certa difusão das informações sobre o estado do Planeta, pouco se avança em relação a itens tais como: desmatamento, incêndios das matas e florestas, estúpido crescimento do número de automóveis, para mencionar apenas esses exemplos.

Se assim nos referimos às conquistas, o que dizer, então, dos graves retrocessos, nas diferentes esferas da realidade? No plano econômico: concentração de riquezas e de renda; privatização das fontes de vida (até das sementes, graças à síndrome dos transgênicos), implantação de políticas econômicas concebidas e impostas pelos organismos multilaterais, resultando em: desemprego estrutural, hipertrofia das atividades informais, compressão de salários, etc. No plano social: desmonte ou sucateamento das políticas públicas relativas aos serviços essenciais (saúde, transporte público, saneamento, crescente déficit de moradias, concentração de terras, superpopulação dos presídios, etc.). No âmbito político: desobrigação dos Estados nacionais com as políticas sociais, subserviência do Legislativo ao Executivo, surtos intermináveis de esquemas de corrupção, em todas as esferas de poder, etc. No terreno cultural: inversão de valores pela crescente subordinação aos valores do Mercado…

Mesmo em se tratando de um leve esboço de balanço desses dez anos após a partida de Paulo Freire, percebem-se a complexidade e a extensão dos desafios que, a despeito de avanços pontuais, aqui, ali, sobretudo se agravaram desde então. Partindo de qualquer das esferas da realidade social ou de qualquer dos pontos acima referidos, resultam impactantes os desdobramentos do quadro. Restrinjamo-nos a alguns pontos, a título de ilustração. É sabido que uma sociedade economicamente baseada nas relações salariais não tem como alcançar uma justiça social satisfatória, mesmo que até os anos 60/70, a Social-Democracia vivia a propagar sua promessa do “emprego pleno”. Iniciada, porém, a fase dita neoliberal do Capitalismo, a partir da época Thatcher/Reagan, e seguida do processo de reestruturação produtiva, o Capitalismo não apenas não manteve sua promessa de “pleno emprego”, como passou a fazer apologia da famigerada “empregabilidade”, assumindo para valer a “necessidade” do desemprego estrutural. Desde então, por toda a parte, os problemas sociais se agravariam sobremaneira. No caso do Brasil, mesmo com a atual política de geração de empregos, quando comparamos as estatísticas oficiais dos empregos criados, de um lado, e, do outro, o número de jovens que a cada ano atingem a idade de trabalhar, percebemos a impotência estrutural, por parte do Governo, de responder satisfatoriamente a tal desafio. Resultado: milhões e milhões de trabalhadores e trabalhadoras jogados à própria sorte, muitos dos quais sentindo-se empurrados a sobreviver mergulhados na delinqüência, sem perspectiva real de reversão do atual quadro.

Impotentes para cumprir políticas sociais à altura dos desafios, diante de problemas antes sob sua responsabilidade, eis que tratam agora as instâncias públicas de tentar compensar sua impotência com o recurso abusivo ao “marketing” político, tomando como fundo autojustificativo as políticas compensatórias.

Ao desemprego estrutural em curso vêm somar-se outras graves manifestações da desigualdade social, características do sistema vigente:

– a desordenada explosão da economia informal, nos grandes e pequenos centros urbanos, dando a impressão, por vezes, de haver mais vendedores do que compradores…;

– o incorrigível déficit habitacional, agravado pelo drama de milhares de pessoas a viverem na rua e pela tendência das estatísticas oficiais, obcecadas pelo delírio do “marketing” político, de tomarem como “casa” toda e qualquer loca indigna de ser habitada por humanos, à altura do terceiro milênio da era cristã;

– o sucateamento ou desmonte dos serviços públicos oficiais, a despeito do aumento da carga tributária direta e indireta, a recair sobretudo nas costas dos mais pobres da população. É assim com serviços públicos essenciais como saneamento, saúde, educação, transporte coletivo, segurança pública…

No plano político, a despeito do agravamento das condições gerais de vida e da crescente precarização das condições de trabalho da enorme maioria da população e do Planeta, o processo decisório continua pautando-se nos velhos e inoperantes esquemas das democracias formais, amparadas em Estados subservientes aos interesses dos grandes conglomerados transnacionais e das grandes potências, com partidos fisiológicos, reféns de esquemas ético-polícos visceralmente apodrecidos, alimentados, porém, pela realização de eleições também viciadas (antes, durante e depois), de cujos resultados vimos sendo – até quando? – ao mesmo tempo, testemunhas, vítimas e protagonistas corresponsáveis… Aqui, também, é possível perceber manifestações pontuais de um sistema estruturalmente irrecuperável.

Associada a esse quadro econômico-político, observa-se a produção de uma grade axiológica assustadora, do ponto de vista dos critérios éticos do processo de humanização. Sem deixarmos de considerar a especificidade de cada uma das esferas constitutivas do social (a econômica, a política e a cultural), costumamos, entretanto, sublinhar sua dinâmica inter-relação. Este traço interativo que as caracteriza, não apaga o peso maior ou menor de alguma delas sobre as demais, a depender do modo de produção e da conjuntura em vigor. Como negar, por exemplo, o peso decisivo que, nas sociedades de classes, tem a esfera das relações de produção? No entanto, por outro lado, como ignorar, na atual conjuntura, a força expressiva da esfera cultural, no que tange, no caso, à influência dos valores dominantes?

Quando nos pomos a examinar tal influência, nos dias de hoje, por mais que não deixemos de reconhecer o lugar fortemente condicionante do econômico, vamos observar o peso extraordinário da grade de valores dominantes, a também influir sobre as relações de produção e a estrutura e exercício do poder, ainda que também pelas mesmas condicionada.

Grade de valores expressa, por exemplo, a partir do intenso culto ao Mercado. A mídia expressa e difunde muito bem a onipresença e onipotência desse deus. Impacta, contudo, a extraordinária performance de sua orgânica articulação com os demais espaços ideológicos = da família à escola; do Estado às igrejas, passando por outras instituições. Respira-se mercado. Adora-se o deus Mercado. Na escolha de uma profissão (aos que têm o “privilégio” de fazê-lo), já não se vacila em tomar-se como primeiro e decisivo critério: “o que indica o Mercado?”.

Daí por diante, (quase) todas as demais escolhas passam a ser condicionadas ou direta ou indiretamente associadas a essa grade de valores.

Em trabalhos com jovens do meio popular, em que me envolvo, costumo recorrer a um quadro didático acerca desse embate de valores. Organização modelar é aquela que cultiva – ainda que, às vezes, de forma velada – a hiper-hierarquização das relações: os prepostos do deus Mercado.

O sucesso profissional vai depender fundamentalmente da capacidade competitiva dos que exercem essa ou aquela profissão. De tão consolidado esse traço nas relações do dia-a-dia, já nem se percebem as conseqüências danosas para a saudável convivência: clima de falsidade, de mentira, de suspeita, de fofoca, de bajulação… A mania de se cultivar o chefe chega ao ponto de condicionar as pessoas a terem vergonha de serem socialmente iguais. Todos querem tornar-se “chefes”, não importando do quê… Qualquer pretensa nesga de poder é cobiçada…

Daí a naturalização do excessivo apego a cargos e funções. Aplaudimos o profissional da política que se reelege legislaturas sem conta… Dificilmente, alguém que se candidate e seja eleito a um cargo – a vereador, por exemplo – pensa em, uma vez cumprido seu dever cívico de representação, retornar à vida comum. É daí para frente. De atividade de eventual representação política, a escolha se transforma em profissão, se possível para o resto da vida…

Situação semelhante, quando se trata de distribuir os papéis sociais. Uns até parecem ter nascido para mandar, enquanto outros apenas para executar ordens. A uns poucos, o privilégio de trabalharem com a cabeça; aos outros, apenas o trabalho braçal. Está, assim, consolidada a dicotomização entre trabalho intelectual e trabalho manual, divisão social tão própria das sociedades de classe, e chegada ao extremo na sociedade capitalista.

Consumismo é outro valor hiperdimensionado. As conseqüências já nem se percebem: endividamento, arruinamento individual e coletivo. A propaganda consumista, cientificamente elaborada, encarrega-se de distrair com outros mecanismos de sedução em massa.

A própria religião, não raro, vira balcão de negócios, sob o encorajamento dos fundamentos da “teologia da prosperidade”. Respeito e cuidado com a Natureza não passam às vezes de meras palavras. Na prática, atitudes e hábitos são outros e se expressam de outro modo. Citemos três exemplos: silêncio cúmplice em relação aos transgênicos, à defesa desvairada da política do etanol, o agigantamento anual do número de automóveis particulares. Se hoje, nos grandes centros, mal se pode circular, nas horas de pico, o que prever para daqui a alguns anos?

Sinais como esses não parecem ser exceções. Muito pelo contrário, infelizmente. Isso não aponta para nenhum horizonte de humanização dos Humanos e de respeito à Mãe-Natureza. Por outro lado, instigados pela humanizadora utopia freireana, e já partindo de manifestações moleculares alternativas, podemos, sim, ousar dar passos noutra direção.

A despeito da ampla prevalência desses pontos sombrios e até tenebrosos, cumpre não esquecer nem perder de vista que, felizmente, a mesma realidade é bem mais do que os traços com que foi pincelada. Comporta também positividades, aspectos outros menos visíveis a olho nu, que não passam, contudo, despercebidos ao olhar de quem, esperançoso, se põe a contemplar as “correntezas subterrâneas” (José Comblin, João Batista Magalhães, Roberto Eufrásio de Oliveira e outros e outras mais).

Quem, com efeito, se dá ao trabalho de perscrutar os sinais que se apresentam ao olhar, ao ouvir, ao sentir atentos, vai perceber o que se passa para além das águas de superfície. Vai se deparar com uma rede (ainda pouco articulada e menos ainda visibilizada) de pequenos grupos e de pessoas, espalhados por esse chão, a apostar em, e a exercitar algo novo e alternativo a essa ordem dominante. Afinal, que valores somos historicamente chamados a contrapor ao modelo imperante?

3. Paulo Freire como uma centelha de Utopia humanizadora

No legado existencial de Freire (e de outros e outras) encontramos inspiração e força encorajadoras no sentido de ousarmos o “inédito viável”. Esse tecelão da Utopia continua a nos atiçar a ousarmos ações alternativas que se contraponham à raiz desse sistema, que se contraponham inclusive, no que diz respeito à grade de valores dominantes. A centelha de utopia humanizadora que para nós representa, não nos convida a repeti-lo, mas a reinventá-lo. Que iniciativas, nesse plano, estariam, por exemplo, ao nosso alcance?

Nas atividades de formação de que tenho participado, junto a jovens do meio popular rural e urbano, tenho recorrido, como subsídio didático, a um quadro que tem funcionado como um ponto de partida instigador e de provocação ao trabalho de mutirão. Trata-se de um quadro que apresenta, numa coluna, alguns exemplos de valores que hoje campeiam, com força cada vez maior; enquanto, na outra coluna, são apontados valores alternativos a essa grade dominante. Eis o quadro:

VALORES DOMINANTES / VALORES ALTERNATIVOS

Determinismo do deus Mercado Valor supremo é a Vida (dos Humanos e do Planeta)
Relações hiper-hierarquização / Valorização das relações horizontais/coletivas
Cada qual cuida de si / A sorte de uns tem a ver com a dos outros
Na vida, só se vence pela competição / A cooperação é a chave do sucesso de todos
Trabalha-se em função Mercado / Trabalho como auto-realização
O chefe ou alguns deliberam por todos  / Todos são protagonistas nas decisões
Só vale quem é capaz de produzir  / O trabalho é importante, mas todos valem pelo que são
Uns trabalham c/ a cabeça; outros com as mãos  / Trabalha-se com mente e com as mãos
Quem mais consome, é mais feliz  / Ser feliz requer lidar com a fartura e com a penúria
Aposta cega no poder da tecnologia  / Subordina tecnologia a valores humanos e Naturais
Excessivo apego a cargo  / Rodízio revela novos talentos e evita burocratização
Valoriza apenas resultado / Avalia processo, dinâmica e produto
Consumismo: supérfluo vira necessidade Liberdade / Autonomia requer sobriedade
Shopping-Center: templo neoliberal  / Valorização espaços naturais e simples
O ser humano pode usar e abusar da Natureza / Natureza é nossa Mãe. Somos parte dela
Monopólio da inteligência/cognição provoca esquizofrenia  / Aposta-se na sabedoria (coerência entre sentir-pensar-querer-agir)
Privilegia quantidade de inf. na mídia / Atitude crítica diante das informações
Marginalização de crianças e idosos  / Complementaridade entre as gerações
Erotismo de criança vira negócio rentável  / Respeito aos ritmos da vida
Natureza é escrava dos seres humanos  / Relação de fraterna com a Mãe Natueza
Religião vira balcão de de negócio nas relações com o Sagrado  / Valoriza gratuidade no atendimento individual
Supervalorização da aparência das marcas e da grife / As pessoas valem pelo que são
Moda dita padrão de estética / Valoriza-se estética plural, e o respeito à diversidade
Imediatismo na realização do desejo  / Articulam-se presente, passado e futuro
Culto obsessivo ao corpo  / Cuida-se do corpo e do espírito
Professor só ensina. Aluno é cópia do professor  / Professor também aprende, aluno também ensina
Privilegia-se a cidade em prejuízo do campo  / Valoriza-se complementaridade entre campo e cidade
Saúde = mercado. Trata só doença, não da pessoa  / Saúde está a serviço da Vida. O doente é protagonista da cura
Fascínio pelo rótulo do “novo”  / O novo e o tradicional valem pela sua qualidade.
Basta o chefe mandar as ordens  / Direção colegiada

Extraído de CALADO, 2003, pp. 59-60.

Esse é um modo de buscar seguir ou de seguir buscando o horizonte de humanização apontado por Freire, no que concerne especialmente ao efetivo combate à grade de valores em vigor e, ao mesmo tempo, à tentativa instituinte de ousar passos alternativos aos valores imperantes. Outros, outras, inspirados no mesmo Freire, podem tomar caminhos diferentes, quanto aos procedimentos pedagógicos, em busca de semear algo alternativo à ordem dominante. Nossas diferenças podem se completares, não sendo antagônicas entre si, desde que partindo do horizonte freireano e apontando rumo a um processo de humanização que o Capitalismo não pode oferecer.

Da lista de valores dominantes apresentados, percebemos que uns, pela sua complexidade e pelo seu profundo enraizamento no tecido social das relações do cotidiano, constituem desafios maiores. Dentre estes, destaco alguns com mais ênfase. Começo pela introjeção generalizada do determinismo do deus Mercado. Quem se contrapõe a esse sistema, desde suas raízes, assume o enorme desafio de procurar dar passos conseqüentes rumo à sua superação. Por exemplo, demonstra, pelas suas atitudes, não ser funcional à grade de valores dominantes, a começar pelo modelo de sociabilidade em vigor, mesmo sabendo estarmos vivendo sob a égide do Capitalismo.

Estamos cansados de saber, pelos frutos desta “árvore” ou desse “tecido” (Capitalismo), que nele em vão buscamos pôr remendos novos, não importa que nomes lhes atribuamos: democracia representativa, partidos políticos convencionais, organização em Estado com seus respectivos aparelhos, além de seus ritos característicos, entre os quais o das eleições. Sobre isso tenho voltado, vez por outra, em alguns escritos.

Outro valor dominante que aqui tomamos como um outro enorme desafio, e que está organicamente ligado à mesma lógica do Mercado tem a ver com dicotomização entre trabalho intelectual e trabalho manual. Isso, não apenas numa dimensão coletiva, mas também introjetada no viver individual dos membros da sociedade. Aí reside a origem de boa parte das atitudes esquizofrênicas ou do que venho chamando “cultura da ambigüidade”. A quase apologia do hiato entre sentir//pensar/querer//fazer. Com relação a tais desencontros gritantes entre teoria e prática, Paulo Freire assim se posicionava, ao criticar seus cultivadores:

Dizem-se comprometidos com a libertação e agem de acordo com os mitos que negam a humanização.

Analisam os mecanismos sociais de repressão mas, ao mesmo tempo, através de meios igualmente repressivos, freiam os estudantes a quem falam.

Dizem-se revolucionários mas, ao mesmo tempo, não crêem nas classes oprimidas a quem pretendem conduzir à libertação, como se isto não fosse uma contradição aberrante.

Querem a humanização dos homens mas, ao mesmo tempo, querem também a manutenção da realidade social em que os homens se acham desumanizados.(FREIRE, 1984, p. 104)

Dessa mesma lógica também resulta boa parte da cultura presidencialista (aqui entendida como a tendência historicamente arraigada a ter um chefe, um guia, um “salvador” que faça para mim/nós o que é do meu/nosso dever), a da dependência invencível de alguém que fique à frente de nós, a decidir por nós e a guiar o nosso destino. Em vez da aposta no mutirão, no fazer e decidir coletivamente; em vez da aposta no protagonismo de todos nos processos decisórios, por meio da cultura dos conselhos (ou que outros nomes tenham), preferimos eleger um “salvador” ou uns poucos, a quem passamos um cheque em branco, esperando que eles façam o que nos caberia fazer coletivamente. Ou não é nisso que acaba terminando a lógica eleitoreira das democracias formais?

Um terceiro desafio de monta: investir num processo formativo permanente que se contraponha radicalmente à grade de valores dominantes. A educação escolar (em todos os níveis) se acha permeada dos vícios e mazelas da ideologia dominante, ainda que também seja um campo de disputa (neste caso, numa correlação de reconhecida desigualdade). Na perspectiva freireana, trata-se em apostar numa formação integral e continuada, capaz de promover todas as potencialidades do ser humano, no que diz respeito seja à formação de sua identidade (m processo), seja quanto à sua condição de trabalhador, de trabalhadora (na acepção marxiana), seja quanto às relações de gênero, de etnia, seja ainda quanto às relações com a Natureza e com o Sagrado…

Eis, em suma, um rápido esboço de avaliação do quadro geral dos dez últimos anos, após a partida de Paulo Freire. Nosso propósito foi o de sublinhar alguns pontos talvez mais relevantes (de negatividade e de positividade), como provocação ao passo seguinte, o de priorizar um rápido olhar especial sobre a grade de valores dominantes, diante da qual somos instigados a nos posicionar, dentro do horizonte da Utopia humanizadora de Paulo Freire. De Paulo Freire e de outros e outras que ele costumava tomar como interlocutores seus, interagindo, recebendo e exercendo algum tipo de influência, nessa perspectiva.

De fato, nisso Freire não está sozinho. Ele é o primeiro a reconhecê-lo. Basta que nos remetamos aos vários autores com quem exercita amplo diálogo. Autores de quem recebe e sobre quem também exerce influência. Sem prejuízo de sua genial criatividade, principalmente no modo como encarna em si toda uma vasta tradição de bons clássicos, Paulo Freire nos remete a vários autores. Permito-me aqui destacar, por exemplo, a força transformadora do legado Marxiano, tal como formulada, por exemplo, nas conhecidas Teses sobre Feuerbach, especialmente a famosa Tese 11, apontando para sua obsessão de transformar o mundo, não se contentando com o mero exercício teórico de interpretá-lo.

REFERÊNCIAS

CALADO, Alder Júlio F. Direitos Humanos X Capital: potencializando a intervenção social de movimentos sociais e organizações de base. João Pessoa: Idéia; Caruaru: Edições FAFICA, 2003.

CALADO, Alder J.F. Movimentos Sociais por uma sociabilidade alternativa: enfrentamentos e apostas. In: JEZINE, Edineide e ALMEIDA, Maria Luíza. (Orgs.). Educação e Movimentos Sociais: novos olhares. Campinas: Alínea, 2007.

COMBLIN, José. A Vida em busca da Liberdade. São Paulo: Paulus, 2007.

FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática de libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Moraes, 1980;

FREIRE, Paulo. Ação Cultural para a Liberdade e outros escritos. São Paulo: Paz e Terra, 1982.

FREIRE, Paulo e MACEDO, Donaldo. Alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

FREIRE, Paulo. Educação na Cidade. São Paulo: Cortez, 1991.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia.

SANTIAGO, Maria Eliete. A presença de Elza Freire em Paulo Freire. Texto utilizado no Curso de Iniciação ao Pensamento de Paulo Freire, organizado pelo Centro Paulo Freire – Estudos e Pesquisa, Recife, 1999. (cf. www.paulofreire.ufpb.br )

João Pessoa, 25 de outubro de 2007

(Texto da conferência de abertura do Seminário Diálogos com Paulo Freire”, realizado em Pelotas, de 21 a 23 de novembro de 2007)

ALDER JÚLIO FERREIRA CALADO é Sociólogo e Educador Popular. Atualmente, docente-pesquisador do NUPESQ, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru – PE. É membro do Centro Paulo Freire – Estudos e Pesquisas. Acompanha a caminhada dos Movimentos Sociais Populares e as Pastorais Sociais – especialmente no Nordeste – desde meados dos anos 60. É organizador e co-autor de Conferências dos Colóquios Internacionais Paulo Freire, 3 vols. Recife: Bagaço, 2007. Texto mais recente: “Movimentos Sociais rumo a uma nova sociedade: do consenso ideológico ao dissenso alternativo”, publicado na Revista Eletrônica portuguesa intitulada O Comuneiro, n. 5, set. 2007 ( www.ocomuneiro.com ).

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