Para não enlouquecer

A imprensa noticiou esta semana que o Senado concedeu aposentadoria de R$ 20,9 mil mensais à governadora do Maranhão, Roseana Sarney, pelos serviços prestados como analista legislativo da casa.

Até aí, nada demais. Ainda dá para respirar fundo, contar até dez, e virar a página do jornal. Afinal, não é novidade a gritante disparidade entre o que ganham políticos neste país em relação ao trabalhador médio brasileiro, e não adianta agora ficar esperneando.

No caso do leitor que se aventurou a ir além do lide das matérias, porém, tais recursos dificilmente serão suficientes para evitar que seu dia perca ao menos um pouco de brilho.

Pois, ao prosseguir com a leitura, descobre-se que, àquela polpuda quantia, se somará o salário que Roseana ganha atualmente como governadora, no valor de R$ 15,4 mil.

Fica-se a par também de que a remuneração (vitalícia, diga-se de passagem) a que ela terá direito se refere a um período de apenas três anos em que trabalhou no Senado.

Apura-se ainda que Roseana não prestou concurso público para assumir o posto de analista legislativo e que o ano de sua admissão na casa coincide com o ano em que seu pai, José Sarney, assumiu a presidência da república (1984).

O leitor, então, inevitavelmente se lembrará de tudo o que já ouviu e leu a respeito da família Sarney, conhecida por dominar o estado do Maranhão e ter grande influência sobre o Amapá – estados que, por acaso, estão entre os mais miseráveis do país.

E se dará conta de como o Brasil – o “país de todos”, como apregoa o slogan do governo federal; a “nova potência mundial”, como se alarda aos quatro ventos – mantém a pecha de uma soberba injustiça social e está longe de se livrar do domínio de oligarquias que tanto o atrasam.

Daí para se ver absorto em fantasias como “Vamos explodir o Congresso Nacional!” ou “Vou-me embora deste país de merda!” é um pulo.

A minha é escrever e pensar que isso pode, de alguma forma, mudar alguma coisa. Cada um com a sua loucura.