Para a gente morar consigo mesmo

Como a gente pode habitar consigo mesmo/a. (Anotações para uma leitura orante do Evangelho)

No evangelho lido, nesse domingo, pelas comunidades, ouvimos as palavras finais de Jesus no discurso da planície (Lc 6, 39 – 45). O contexto social é uma sociedade (a de Jesus), na qual a honra e a desonra social são preocupações das quais todos dependem. Por isso, Jesus começa proclamando quem, para Deus, tem honra (é bem-aventurado) e quem Deus não considera como honrado/a (ai de vocês…). É tendo em vista a honra social que Jesus conclui seu discurso com as palavras do evangelho de hoje.

Esse texto é construído sobre sentenças que Jesus teria dito aqui e acolá, em contextos diversos e que os discípulos juntaram em um discurso. Colaram uma sentença de Jesus a outra, através de “palavras-chaves” como medida(v 38), olho(v 39), árvore(v 43- 44) e assim por diante.

Talvez na época das comunidades dos anos 80, quando esse evangelho foi escrito, essas palavras se dirigiam mais às pessoas que tinham função de “guias” das comunidades, ou seja, coordenadores/as, ministros/as. Além disso, contém uma espécie de “carta de orientações” para pessoas que vinham de outras religiões e outros costumes desejando ser da comunidade cristã. A preocupação central é a ética da relação fraterna e isso é muito atual em nossas relações, tanto nos movimentos sociais, nos partidos, como também nas comunidades de fé.

Todas as tradições espirituais consideram que uma base importante para a espiritualidade é o conhecimento de si mesmo. Segundo o evangelho de Tomé, (texto cristão do século II), Jesus disse:

“Quem conhece todas as coisas, mas não conhece a si mesmo, de fato, não conhece nada” (n. 67).

Santa Tereza de Ávila afirmava que “um dia de humilde conhecimento de si mesmo é melhor do que mil dias de oração”.

Na Idade Média, o Mestre Eckhart declarava: “Não se pode conhecer a Deus se antes não se conhece a si mesmo”[1].

Na Índia, o Mahatma Gandhi, em meio à luta não violenta contra o colonialismo, afirmava: “Comece por você mesmo/a a transformação que quer para o mundo”.

De outro modo, Jesus diz o mesmo: “Antes, tire a trave que está no seu olho para poder tirar a palha que está no olho do seu irmão”.

É questão de honestidade pessoal. Todo mundo tem problemas e limitações. Jesus não pede que, primeiramente, nós sejamos perfeitos para depois poder lutar contra os defeitos ou erros dos outros. Não é isso. No entanto, pede sim que nunca exijamos de ninguém o que nós mesmos não cumprimos. Se a gente faz isso, cai na hipocrisia, na falsidade.

Ser hipócrita é a pessoa pretender ser o que não é. É apresentar ao mundo uma imagem falsa de si mesmo. Com essa imagem do cego que conduz cego, Jesus revela: todos nós temos na vida alguns aspectos pessoais ou atitudes ou modos de ser que em nós são como pontos cegos.

São aspectos de nós mesmos que não conseguimos ver com clareza e ser realmente honestos e lúcidos com relação a aquilo. Essa mistura de claro e obscuro, luz e trevas faz parte da vida. No entanto, é importante procurar clarear esses pontos. Antes de tudo, devo tomar consciência dessa realidade minha e aceitar que as outras pessoas ao meu redor também vivam uma luta interior para se manter coerentes com aquilo em que acreditam e que desejam viver. (O importante é que haja essa luta interior).

A espiritualidade é a busca dessa veracidade profunda com a gente mesmo. É a luta permanente para evoluir a partir da nossa realidade pessoal.

Há uma semana, no Vaticano se encerrou a reunião do papa com presidentes e representantes de todas as conferências episcopais do mundo sobre a tragédia dos abusos sexuais do clero. Para uma instituição como é a Igreja Católica, foi um grande passo em frente que significou tratar claramente o problema, sem mais esconder ou mascarar a sujeira. Para as vítimas e para a sociedade, talvez tenha sido ainda muito pouco. As recomendações que surgiram dali foram boas mas não parecem ter tocado na estrutura clerical que, ao se colocar como sagrada, acaba favorecendo abusos de todo tipo (moral, político ou simplesmente humano). O papa denuncia o clericalismo, mas como se esse fosse um defeito de alguns padres ou bispos. De fato, é toda a estrutura. Enquanto não mudar a concepção de um ministério sagrado em uma linha mais pagã da antiga religião imperial romana que do evangelho de Jesus, nada há a fazer quanto ao Clericalismo.

Do lado de cá, oramos para que a Igreja se despoje dessa roupagem sagrada que veio do paganismo, tenha coragem de eliminar a divisão de classes entre clérigos e leigos, abra os ministérios a homens e mulheres e sem exigências de celibato obrigatório, como se ser celibatário fosse mais espiritual ou santo do que não ser.

Comecemos por nós mesmos, cada um procurando mudar o próprio coração e depois poderemos pedir mudanças aos outros. O modelo é o mestre Jesus: “Por que me chamais “Senhor, Senhor” e não fazeis o que eu digo?”. Aí fica claro que cumprir sua palavra é construir sua casa (tanto a casa interior: o mais profundo da gente mesmo, como social, a comunidade nova) sobre a rocha que é a Palavra de Deus.

Os monges antigos usavam como expressão para a espiritualidade: habitar consigo mesmo. São Gregório Magno dizia de São Bento que foi um homem que habitou consigo mesmo. O evangelho de hoje nos chama a isso: habitar consigo mesmo para sair de nós mesmos na doação amorosa aos outros/as. Com mais de 50 anos no caminho do discipulado e quase tantos anos como ministro do evangelho, cada dia tenho que, como os antigos monges do deserto, acordar e de novo dizer para mim mesmo: “Hoje eu retomo o caminho da minha conversão”. Hoje prometo a Deus e a mim mesmo lutar para ser mais coerente com aquilo em que acredito e, como Dom Helder Camara, dizia: até o último suspiro de minha vida, quero lutar pela realização do projeto divino no mundo, ao qual sirvo.

[1]– M. ECKHART, Meister Eckhart: Sermons and Treatises, 3 vol. coordenados por MAURICE WALSHE, Element Books, Shaftesbury, 1979,  sermão 46, pp. 20.