Papa Francisco, no dia mundial do migrante e do refugiado

Missa celebrada em 14.01.2018

Este ano, quis celebrar o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, com uma Missa, à qual são convidados, em particular, vocês, migrantes, refugiados e requerentes de asilo. Alguns de vocês chegaram, há pouco, à Itália; outros, faz muitos anos, aqui residem e trabalham; enquanto outros ainda constituem a chamada “segunda geração”.

Para todos ecoa, nesta Assembléia, a Palavra de Deus que hoje nos convida a aprofundar o chamado especial que o Senhor dirige a cada um de nós. Assim como Ele fez com Samuel, Ele nos chama pelo nome – a cada um de nós -, para honrar o fato de que nós fomos criados como seres únicos, irrepetíveis, todos diferentes entre nós, e com um papel singular na história do mundo. No Evangelho, os dois discípulos de João perguntam a Jesus: “Onde é que o Senhor mora?”, deixando entender que da resposta vai depender o juízo deles a respeito do Mestre de Nazaré. A resposta de Jesus é clara: “Venham e vejam”, abrindo assim caminho para um encontro pessoal, que comporta um tempo adequado para acolher, conhecer e reconhecer o outro.

Na Mensagem para o Dia de hoje, escolhi: “Todo estrangeiro que bate à nossa porta, é uma ocasião de encontrar Jesus Cristo, que Se identifica com o estrangeiro acolhido ou rejeitado de qualquer época. E para o estrangeiro, o migrante, o refugiado, o fugitivo e o requerente de asilo, toda porta da nova terra constitui igualmente uma oportunidade de encontro com Jesus. Seu convite “Venham e vejam” hoje se dirige a todos nós, comunidades locais e recém-chegados. É um convite para superarmos nossos medos, e para que possamos ir ao encontro do outro, para acolhê-lo, conhecê-lo e reconhecê-lo. É um convite que oferece a oportunidade de nos fazermos próximos do outro, para ver onde e como vive. No mundo de hoje, para os recém-chegados, acolher, conhecer e reconhecer significa conhecer e respeitar as leis, a cultura e as tradições do País em que são acolhidos. Significa também, compreender seus medos e apreensões pelo futuro.

E para as comunidades locais, acolher, conhecer e reconhecer significa abrirem-se a riqueza da diversidade sem preconceitos, compreender as potencialidades e as esperanças dos recém-chegados, assim como sua vulnerabilidades e seu temor.

O verdadeiro encontro com o outro não se limita à acolhida, mas a todos empenha nas três outras ações que mostrei na Mensagem para este Dia: “Proteger”, “Promover” e “Integrar”. No verdadeiro encontro com o próximo, seremos capazes de reconhecer Jesus Cristo que pede para ser acolhido, protegido, promovido e integrado? Como nos ensina a parábola do Evangelho do Juízo Universal, o Senhor estava com fome, com sede, nu, doente, estrangeiro e encarcerado, e por alguns foi socorrido, enquanto por outros não. Este verdadeiro encontro com Cristo é fonte de salvação, uma salvação que deve ser anunciada e levada a todos, como nos mostra o Apóstolo André. Depois de ter revelado ao seu irmão Simão: “Encontramos o Messias”, André o leva até a Jesus para que faça a mesma experiência do encontro.

Não é fácil entrar na cultura de outrem, colocar-nos na pele de pessoas diferentes de nós, compreender seus pensamentos e suas experiências. E assim, muitas vezes, renunciamos ao encontro com o outro e levantamos barreiras para nos defender-nos. As comunidades locais, por vezes, tem medo que os recém-chegados perturbem a ordem estabelecida, “roubem” alguma coisa do que foi duramente construído. Por sua vez, os recém-chegados têm seus medos: temem o confronto, o juízo, a discriminação, o fracasso. Estes medos são legítimos, fundamentam-se em dúvidas plenamente compreensíveis do ponto de vista humano. Ter dúvidas e temor não é um pecado. O pecado é deixar que estes medos determinem as nossas respostas, condicionem as nossas escolhas, comprometam o respeito e a generosidade, alimentem o ódio e a rejeição. O pecado é renunciar o encontro com o outro, ao encontro com o diferente, ao encontro com o próximo, que de fato é uma ocasião privilegiada de encontro com o Senhor.

Deste encontro com Jesus presente no pobre, no descartado, no refugiado, no requerente de asilo, brota a oração de hoje. É uma oração recíproca: os migrantes e os refugiados rezam pelas comunidades locais e as comunidades locais rezam pelos novos recém-chegados e pelos migrantes mais antigos.

À materna intercessão de Maria Santíssimo confiemos as esperanças e todos os migrantes e refugiados do mundo e as aspirações das comunidades que os recebem, afim de que, de acordo com o supremo mandamento divino de amor e amor ao próximo, todos aprendamos a amar uns aos outros, o estrangeiro, como nos amamos a nós mesmos.

Trad.: AJFC

Digitação.: Gabriel Luar Calado Bandeira