A palavra que, hoje, vem do deserto

Nas Igrejas que seguem o lecionário litúrgico (Ano B), hoje se começa a leitura do evangelho de Marcos. O título bíblico desse livro é “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo”.

É o único livro bíblico que tem esse título de “evangelho”. Os outros três receberam esse título da tradição pelo fato de ser associado a esse. Na Bíblia três livros começam pela palavra “Princípio”: o livro do Gênesis que no hebraico tem isso como título: Bereshit, No princípio… O evangelho de Marcos e o de João. Princípio aí significa começo, mas também significa princípio como base, fundamento, raiz. Como quando se pergunta: Quais são os seus princípios?

No mundo antigo, Evangelho significava um decreto de anistia do imperador. No tempo de Marcos se falava dos evangelhos dos imperadores flavianos. Eles queriam agradar a seus súditos com algumas medidas como no Brasil se chama de “bondades” (medidas positivas de um governo). Ao tomar esse nome para contar o anúncio que Jesus fez do reinado divino, os autores mais atuais mostram que Marcos quis fazer um anti-evangelho no sentido de um evangelho contra o evangelho do imperador de Roma. Segundo ele, não é o imperador Vespasiano ou Tito que trazem a boa notícia da salvação aos povos, mas é Jesus.

Hoje, é preciso recuperar essa dimensão concreta, social e política do evangelho. Muitas vezes, as igrejas converteram o evangelho em um livro de virtudes e valores individuais e de ensinamentos religiosos. Não é. A fé que o evangelho suscita no Deus da Vida nos reune em um movimento do reinado divino no mundo. Jesus chamou os discípulos para serem adeptos e vivenciadores desse reinado. E ao se organizar, os discípulos começaram concretamente as Igrejas cristãs. Mas, o evangelho é sempre e deve ser boa notícia de libertação e subversiva aos impérios do mundo, seja ao Império Romano, seja aos impérios do Trump e do Temer.

Conforme Marcos, o princípio do evangelho começa no deserto por uma voz profética e pedindo conversão – em grego metanoia – mudança de mente e de coração das pessoas. E essas eram mergulhadas (batizadas) nesse novo estilo de vida, novo caminho. Em hebraico, o termo Dabar – palavra é muito ligada ao termo Dbar deserto. A palavra vem do deserto. A comunicação vem da solidão e da pobreza. O primeiro movimento da conversão é entrarmos em nós mesmos e ouvirmos esse apelo para um novo começo de vida, uma renovação da mente e do coração – em um novo modo de sermos. Aceitamos isso? Aceitamos nos comprometer com isso?

O mundo atual é dominado por um império, sob certos pontos de vista, mais cruel que o Império Romano, porque atualmente, o império do dinheiro, das sociedades anônimas não tem rosto, não tem responsável. Ninguém assume a culpa. É um império sem imperador pessoal (Trump ou Temer são lacaios e gerentes desse império, mas não mandam. Seguem o que o sistema ordena fazer). Nesse contexto, setores importantes das próprias Igrejas e religiões, sem perceberem, entram na lógica do império e trocam o evangelho do reino de Deus por um evangelho do poder e do prestígio humano. Graças a Deus que ele continua a suscitar profetas que gritam no deserto e essa Voz que clama no deserto, hoje, continua pedindo conversão.

Hoje é o dia que a ONU consagra aos Direitos Humanos, atualmente tão desconsiderados. Apesar de que sua formulação ainda é ocidental e liberal, a Declaração dos Direitos Humanos foi para o século XX um evangelho no sentido de que mesmo se foi pouco praticada, não deixou de lembrar esse apelo à conversão. Agora, ao defender o direito dos migrantes, dos refugiados, dos índios e de todos os empobrecidos do mundo e ao unir o grito dos pobres ao Grito da Mãe Terra, o papa Francisco grita novamente ao mundo o evangelho da justiça misericordiosa do amor divino. Sejamos nós nesse tempo de Advento discípulos de João Batista e saibamos reconhecer Aquele que vem como Testemunha do reino da justiça e da Paz.

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