Os outros mundos do homem e a sociologia: A multidimensionalidade do real e o conhecimento científico

Trataremos nas linhas que se seguem, de delimitar e dar um conteúdo o mais preciso possível, à crítica freqüentemente colocada à Sociologia, em termos de que esta teria se desumanizado. Essa desumanização aparece basicamente com dois sentidos que nos parece conveniente separar analiticamente: por um lado, afirma-se que a sociologia teria se desumanizado por ter excluído da sua preocupação as conseqüências éticas e políticas da aplicação dos conhecimentos e pesquisas gerados no seu âmbito.

Desumanização significa, neste contexto, esquecimento de valores humanos como a vida de populações, a saúde, o bem-estar, a ecologia, etc. Por outro lado, critica-se o tipo de recorte objectual com que trabalha a sociologia dominante, no sentido de que o mesmo coisifica a realidade humana, unilateralizando-a de acordo com perspectivas fragmentárias que destroem a unidade do homem. Desumanização significa, neste contexto, entre outras coisas, construção de um objeto espúrio, incompleto, caricatural, por eliminação de dimensões da existência humana tais como a praxis, a esfera intuitiva, o emocional, o subjetivo, o místico, o singular.

A primeira crítica remete para a questão da responsabilidade social do intelectual, enquanto produtor de um conhecimento que traz conseqüências para a vida das pessoas. Remete, também, para a crítica de um modo de conceber a atividade científica como separada e inclusive oposta à vida. A ciência como um valor em si mesmo, independente de opções valorativas do pesquisador. A sociologia como uma ferramenta dos poderes políticos e econômicos na sociedade.

A segunda crítica remete mais para o terreno propriamente científico, e não tanto para as consequências sociais da aplicação do conhecimento. Embora, como veremos mais adiante, da forma como venha a ser construido o objeto da sociologia, também se derivam consequências para a vida das pessoas. Entretanto, a crítica que aponta para a desumanização na construção do conceito de homem, nos leva mais diretamente à filosofia científica (pressupostos ontológicos e gnoseológicos). Aqui iremos nos ocupar apenas desta última crítica, tentando, como dissemos no começo deste trabalho, delimitar com precisão qual seja o seu conteúdo, bem como a sua validade e consequências.

Todo trabalho científico supõe um recorte mais ou menos arbitrário na infinitude do real, que é transformado em objeto de conhecimento. esse recorte é feito, e só pode ser feito, como Weber demonstrou incontestàvelmente, em função de idéias de valor, as únicas que emprestam a algum setor da realidade um interesse cognoscitivo. Claro que esta forma de ver as coisas é diametralmente oposta a qualquer versão positivista, uma vez que instala na base mesma do afazer científico, um elemento de relativização: qualquer descrição do mundo feita à partir da ciência descansa sobre um consenso de valores acerca do que seja esse mundo, como pode ser conhecido válidamente, quais são as características do conhecimento científico em relação a outras formas de conhecimento, etc.

Uma vez que endossamos esta concepção do conhecimento científico como assentado em valores compartilhados, cabe fazer uma reflexão acerca de como os pressupostos básicos da sociologia condicionam o afazer dentro do âmbito dessa disciplina, desembocando nessa visão do homem fragmentado que dá pé à crítica de desumanização.

É um lugar comum, mas não vemos como escapar dele, dizer que a nascente sociologia, premida pelo desejo de se tornar uma ciência como as naturais, adotou o paradigma destas, isto é: a concepção do mundo como um todo obediente a leis que podiam ser descobertas mediante o uso da razão e enunciadas de maneira clara e distinta; a fé na possibilidade de obter, por esse meio, um conhecimento da realidade tal como ela é, objetivo, com total independência de juízos de valor de caráter teleológico, conhecimento que permitiria prever –e assim controlar– a ocorrência de fenômenos.

A realidade era concebida, ademais, como essencialmente material, física, sendo os fenômenos espirituais emanação ou reflexo dela. Como esse conhecimento racional (isto é, coerente, lógico) podia ser obtido apenas acerca das dimensões quantificáveis, diretamente observáveis, da realidade, todo o lado referente à sensibilidade ética e estética, os valores, as qualidades, os sentimentos, os motivos, as intenções, a alma, a consciência, a experiência cotidiana, foi expulso do território da ciência (Leach, Capra, Kosik, Adorno, Ianni).

Assim, o homem era razão, mente. O resto, não era objeto da ciência. (Aqui nos parece haver uma ponte bastante clara entre esta forma de conceber a realidade humana e o uso da sociologia como ferramenta de dominação a que faz referência a primeira das críticas apontadas no início deste escrito). Só que esse “resto” está alí, sempre esteve, e hoje retorna reclamando seus direitos.

Esta concepção do conhecimento científico, positivista, permanece nos dias de hoje fortemente nas correntes dominantes do pensamento sociológico, embora sem o rótulo original, atualmente usado frequentemente quase que como insulto para desqualificar o adversário. A separação radical entre o sujeito cognoscente e o objeto, sobre a que se apóia a afirmação da possibilidade de um conhecimento objetivo; a afirmação de que o conhecimento científico expresso em teorias e leis gerais é o único verdadeiro, e a redução consequente de toda e qualquer esfera de prática humana a domínio cuja verdade última se encontra fora dela, no âmbito da ciência, são rastros pesados da herança positivista, sem dúvida alguma.

Como se dá, como se está dando esse retorno do “outro”,  dessa realidade humana deixada de lado pela sociologia dominante? Parece-nos que as fontes mais fecundas que alimentam essa reconstituição do homem integral retalhado pela ciência se encontram em correntes como o marxismo novo (para dar algum nome ao pensamento de autores como Agnes Heller, Karel Kosik, Alejandro Serrano Caldera), o existencialismo de Sartre, a fenomenologia social de Alfred Schutz, e o pensamento de autores como Theodor Adorno, Max Horkheimer e Georg Simmel.

Acreditamos ser possível, mediante um uso de recursos conceituais que provavelmente seu criador desaprovaría, lançar mão da sociologia weberiana como um instrumento capaz de contribuir nesta empreitada. De maneira diversa, e com base em concepções em muitos sentidos divergentes entre si, os autores mencionados têm caminhado na direção de abrir caminho para uma concepção de homem integral: razão e inteuição, desejo e emoção, ciência e arte, teoria e práxis.

Sem pretender de modo algum esgotar as concepções dos autores mencionados, e talvez, com risco de estar fazendo uma síntese arbitrária, queremos enunciar alguns elementos que a nosso juízo se encontram como preocupação em todos eles, e que pretendemos utilizar para desenvolver nosso próprio pensamento sobre a questão.

– Não há uma descontinuidade entre sujeito cognoscente e objeto conhecido. O conhecimento supõe uma interação, uma atividade que cria o que se conhece.

– O ser humano possui uma multiplicidade de capacidades irredutíveis ao conhecimento teórico; são mundos de significado e experiência cuja verdade se encontra neles mesmos e não na explicação científica.

– Qualquer paradigma científico ou cultural é uma forma de descrever e viver o mundo, que necessariamente enfatiza certos aspectos do real e descarta outros, ou os coloca em relações hierárquicas diferentes, e não ha’forma de dizer, com base na ciência, qual seja melhor ou mais verdadeiro.

O desafio que se coloca para esta sociologia que procura reconstituir o homem integral, pode ser posto nos seguintes termos: Como construir um paradigma científico que incorpore as dimensões jogadas para escanteio pelo positivismo, de modo a estender o âmbito da razão a esses domínios, produzindo uma visão do ser humano completo em que qualquer pessoa possa se reconhecer?

Acreditamos ter apenas assinalado, e talvez muito grosseiramente, uma direção para onde caminhar. Sem dúvida que haverá muito trabalho a fazer para que alguma coisa comece a aparecer com clareza no meio deste amontoado de sugestões. Provavelmente, seja necessário fazer disto muito mais do que uma empresa meramente intelectual. Seguramente teremos que deixar a nossa sensibilidade muito solta para que ela nos ajude a descobrir o momento em que a razão e a intuição dão as mãos, o momento em que a experiência do dia-a-dia e o pensamento se unem para frutificar em novas compreensões.

Talvez olhando aqueles grandes artistas-cientistas da humanidade, possamos vir a sentir em nós mesmos esse impulso criador que sempre se encontra no desaborochar das descobertas. É necessário ousar, não temer o fracasso ou o ridículo. Saber que qualquer caminho vale a pena ser percorrido, e que a aventura de ir em prol do desconhecido só nos faz crescer, independentemente dos resultados que venhamos acolher.

Cadernos de textos do CCHLA, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Paraíba (1990)

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