Organizar a esperança

Arte: Banksy

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A vitória democrática de um militar que apoia a tortura e afirma não ter existido ditadura militar no Brasil obrigará a oposição – liberal ou não, de direita ou de esquerda – a pensar sobre as causas de tal feito.

Jair Bolsonaro é uma figura patética, despreparada para administrar um condomínio e, mesmo assim, se tornou força política mais forte do que partidos tradicionais brasileiros.

O projeto bolsonarista é muito mais próximo da direita, evidentemente. Basta analisar os planos privatistas que FHC poderia muito bem ter executado, caso tivesse mais tempo e força política.

Por outro lado, a esquerda stalinista que se apossou de muitos dos cargos no governo federal fez algo muito parecido com o que Bolsonaro hoje promete, sem a mesma força ou ênfase. Basta lembrar as declarações de José Dirceu quando, ainda em 2003, sugeriu que os opositores de políticas neoliberais petistas que estavam nas fileiras do PT deixassem o partido no caso de estarem “insatisfeitos” – limando a discussão política mais séria sobre os rumos da reforma da Previdência, por exemplo.

Não há como defender a forma petista de governar que, sem vergonha alguma de se aliar a Paulo Maluf para fazer um prefeito em São Paulo – entre outros inúmeros exemplos –, atacava ao mesmo tempo a esquerda do partido que buscava apenas corrigir rumos.

O PT tem um projeto de Brasil, certo. Mas também tem um projeto de poder que parece demasiadamente autocentrado. E, pior, dependente do carisma de Lula, hoje limado do debate púbico nacional por conta da perseguição jurídico-midiática vitoriosa no Brasil.

A esquerda precisa se renovar. E tenho minhas dúvidas sobre se o PT será capaz de fazê-lo. Mesmo que o partido comece a acertar, precisará voltar às bases e abandonar práticas fisiológicas das quais milhares de militantes mais atentos são testemunha. O PT dos anos 1980 é testemunha da fragilidade programática do PT dos 2010.

A esquerda precisa voltar a organizar a esperança, tarefa árdua que levou o ex-operário nordestino ao poder em 2003. E não fará isso sem voltar a abraçar a luta de classes – ou pelo menos voltar a falar mais de direitos dos trabalhadores, na linguagem dos trabalhadores.

Hoje, a esquerda brasileira é um exemplo de fracasso global no que diz respeito ao tema. Lula conseguiu surfar na onda econômica dos 2000, sem no entanto incomodar minimamente o capital. Os bancos nunca lucraram tanto quanto na Era Lula. Se a esquerda nada vê de errado, precisa voltar aos estudos. É fácil acusar os adversários de não ler história promovendo um revisionismo sobre o que significa, de fato, a luta de classes.

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