Jornalismo platônico
Gustavo Barreto, 27 de novembro, 2002

Sobre uma coisa, todos concordam: objetos não sabem escrever. A minha cadeira, por exemplo, não sabe redigir uma matéria sobre o resultado das últimas eleições no Brasil. Então é relativamente razoável constatar que um jornal nunca poderia ser escrito por cadeiras. Ou mesas. Se não são objetos, deduzimos que são sujeitos. Desta primeira análise, concluo que uma matéria jornalística, por definição, não poderá ser objetiva – ou seja, terá emoções, crenças, valores e tudo o que um sujeito possui. Por outro lado, pode ir mais (ou menos) direto aos fatos, é claro.

Durante toda a minha vida pré-universitária, comprei jornais que tentavam me chamar a atenção pelo alto nível de imparcialidade. A isenção é qualidade primordial e indispensável ao jornal que eu, pré-universitário, deveria comprar, diziam ‘eles’. Um belo dia, ao me informar melhor dos meandros do mundo jornalístico, percebo que nove entre dez profissionais do meio não acreditam em isenção. Ensinam-me, na própria universidade, que isenção é um instrumento retórico. Um artifício publicitário, em alguns casos, que ajuda a vender jornais a pessoas desinformadas. Como os pré-universitários, por exemplo. O argumento é bom e factual. Eu, portanto, concordo.

Villas-Boas Corrêa, destacado jornalista político, defende: “A minha geração, a de Castellinho e de Heráclio Salles, conquistou o seu espaço nos jornais abrindo a vereda da imparcialidade, com o reconhecimento dos diretores e editores da diferença entre a linha opinativa dos editoriais e o noticiário objetivo dos fatos e a sua análise isenta, imparcial”.

E, para completar, Clóvis Rossi lembra, na Folha de São Paulo, importante argumento do jornalista cujo nome me escapa e que trabalhou no escândalo Watergate: “Uma reportagem é a versão mais próxima da realidade”. A conclusão básica a que chego, por hora, é bem satisfatória: não há isenção, mas deve-se buscá-la para chegar à melhor idéia de isenção que possa existir. É como um cavalo para Platão. Este cavalo, coitado, nunca será como o cavalo do mundo das idéias.

Vamos supor, hipoteticamente, que a isenção pretendida por Villas-Boas se torne real. Um jornalista, finalmente!, consegue escrever uma matéria sem paixão, opinião, subjetividade ou qualquer tipo de interferência. Joga os valores no lixo, rasga seus sentimentos e destrói o fantasma da opinião. Os fatos, portanto, tomaram conta da matéria e a fizeram um instrumento de luta para se chegar à verdade. Seria tudo?

E aí que entro e, humildemente, me coloco na recente discussão entre Milton Temer e Villas-Boas Corrêa [JB, 10 e 13/11/02]. Mesmo isenta, ela poderia ser deslocada. Assim como uma cadeira, a verdade pode facilmente mudar de lugar para que, assim, se acomode melhor a pessoa que senta. Uma notícia, mesmo fora de um contexto, pode ser absolutamente baseada em fatos – completamente isenta; contudo, seria ela completa?

Vemos este tipo de recurso diariamente. Os jornais se vendem pela isenção – e de fato se esforçam para obtê-la – mas jogam notícias absurdamente fora de contexto. O leitor está muito bem informado, por exemplo, sobre a enorme dívida do Estado do Rio de Janeiro. Sabe ele alguma coisa sobre os atores causadores da dívida? Molda-se, convenientemente, a dívida para uma das duas últimas administrações. Até que se faça uma auditoria, ninguém saberá. O público é informado rapidamente das incríveis manifestações populares contra o governo Hugo Chávez. Alguém ficou sabendo das que aconteceram a favor dele, apesar de terem sido em igual ou maior número?

Fecho a rodada de exemplos com chave de ouro: os noticiários econômicos. Quem sabe o que significam todas aquelas coisas que se fala durante o noticiário econômico? Os economistas e jornalistas de economia, talvez. O que o leitor comum entende de Bolsa de Valores? O que é Nasdaq? Se a confiança dos investidores está baixa, por que não redigir cartas de esperança para eles, do tipo "tudo vai dar certo no final"? Não seria melhor guardar todo o meu dinheiro debaixo do colchão? Seriam Indiana Jones e Dow Jones parentes?

No entanto, diariamente sou informado do que está acontecendo no mundo econômico. Tudo muito factual; as coisas que são ditas realmente aconteceram. Todas. E daí? Eu, por sorte, tenho algum dinheiro e um pouco de tempo para ler sobre Economia. E, mesmo sendo universitário e tendo todas as possibilidades de leitura, ainda me enrolo um pouco. Quem não se enrola, não é mesmo? Mas e os outros? Sabe a multidão algo sobre o assunto? Diante da falta de informação, vejo uma conseqüência direta: falta de questionamento. Quase ninguém se pergunta, por exemplo, por que cargas d’água recebemos nosso minguado salário em Real e dependemos da "agitação" do mercado internacional para calcular contas de gás, gasolina etc. Ninguém sugere que, em vez de medir a confiança dos consumidores, se avalie a quantas anda a confiança do cidadão.

Frei Betto lembrou, certa vez, uma visão muito interessante sobre o que seria um cidadão consciente. Uma boa resposta, afirmou, seria o cidadão que pensa o mundo de forma geográfica, e não apenas biológica. É dessa forma que concordo com Milton Temer quando ele pensa em transparência para o jornalismo. E, não satisfeito, introduzo mais um conceito fundamental para que haja jornalista sério. É preciso, antes de tudo, da maneira mais ampla possível, contextualizar os fatos e averiguar, de maneira clara, tudo o que possa estar em volta deste ou daquele acontecimento. Se não há possibilidade de fazer esta contextualização, é melhor nem falar.

Como diria meu amigo Thiago Brigada, “se não sabe, não fala”.


Gustavo Barreto é editor do jornal Consciência.Net
 

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