O pacto da espera, por Cristovam Buarque
    Em um seminário na cidade de Bamako, em Mali, promovido pelo Unicef na semana passada, o representante de um dos 27 países participantes disse que o Bolsa-Escola era uma ótima idéia, mas era preciso esperar para quando houvesse dinheiro disponível nas mãos dos governos. Apesar do risco de estar tocando em um ponto muito sensível para os africanos, respondi que se pensassem desta forma no Brasil do século XIX, aqui ainda teríamos escravos descendentes de africanos. Houve um silêncio preocupante até que outra pessoa lembrou que os governos sem dinheiro da África continuam gastando dinheiro com a compra de armas, com obras suntuosas, desperdícios, compromissos com os ricos.

    A verdade é que há no mundo um pacto de espera adiando o enfrentamento do problema da pobreza. Este pacto se percebe de maneira ainda mais gritante em um país com a riqueza do Brasil. A política brasileira tem um pacto histórico de que o problema da pobreza deve esperar. Os políticos de direita defenderam a espera para depois que o país fosse desenvolvido, os de esquerda defenderam para depois que o país fizesse uma revolução. Até lá, os pobres teriam que esperar. Não surgiu ainda uma política de comprometimento ético com a abolição da pobreza.
    A direita defende que a pobreza existe porque o Brasil ainda não recebeu a quantidade necessária de investimentos estrangeiros que, aos poucos, vão chegar, criando oportunidades industriais que gerarão emprego. Com os salários pagos por essas indústrias todos seriam ricos no Brasil. Uma grande mentira. O Brasil foi o país que mais cresceu durante o século XX, sem reduzir o drama da pobreza de milhões de seus habitantes. Crescemos "cinqüenta anos em cinco" e fizemos logo depois um "milagre econômico". O resultado social foi praticamente inexistente e, em muitos setores, a situação piorou. Agora, eles defendem que a globalização fará de cada brasileiro, até o mais pobre, um consumidor no mesmo padrão da classe média americana. Continuam mentindo.
    A esquerda tradicional defende o mesmo, desde que sob controle do Estado e desde que, ao lado dos investimentos econômicos, ocorram investimentos sociais garantindo creches para todas as crianças, como se estivéssemos na Suécia; escolas de qualidade, onde estudarão todas as crianças, quando seus pais estiverem todos empregados, sem necessidade de usar o trabalho de seus filhos. Esta é uma falsa promessa para o imediato, por isso, faz parte do pacto da espera.
    A abolição da pobreza, cem anos depois da abolição da escravatura, não pode esperar por soluções demoradas, intermediadas por um longo processo econômico que, no final, só beneficiará aos que estiverem dentro da modernidade. No lugar de políticos de esquerda e de direita, a abolição da pobreza virá de políticos comprometidos com um sentimento ético da urgência na solução desse problema. Como ocorreu, finalmente, em 1889 com a escravidão, depois de quase um século de luta de escravos e abolicionistas, no meio do pacto da espera de então: a espera na suspensão do tráfico, na Lei do Ventre Livre, na liberdade do sexagenário. Alguns ainda queriam, naquela época, que se adiasse o fim da escravidão até o dia em que o Brasil já estivesse caminhando para sua industrialização, outros queriam que o Estado comprasse os escravos de seus donos, antes de dar lhes a liberdade.
    O mesmo continua ocorrendo hoje com a abolição da pobreza: a promessa de depois dos investimentos econômicos ou depois da revolução social. O que se precisa é eliminar este pacto imoral da espera e usar os recursos de que o Brasil já dispõe. O local desta luta é o Congresso Nacional, durante a atual elaboração do orçamento de 2002. Se o Brasil de hoje quiser, dispõe de recursos para cumprir todos os programas necessários para a erradicação da pobreza. Esses programas já são conhecidos nas áreas da saúde, da habitação com água e esgoto, da educação, da alimentação, do transporte público. Garantir isso a todos os brasileiros custaria menos de 10% da receita do setor público prevista para o próximo ano.
   O que impede é o apego aos privilégios e a mentira de promessas distantes, os dois mantidos pelo pacto da espera.

Cristovam Buarque é professor da UnB e autor do livro "A Segunda abolição", pela Editora Paz e Terra

Fonte: O Globo


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