No tempo das diligências, por Cristovam Buarque
A distância entre os pés pode provocar desequilíbrio e queda. É o que acontece com os países, quando ficam simultaneamente em séculos diferentes. Como o Brasil: um pé no século XXI e outro no século XIX. O assalto a um Boeing é exemplo de país que vive com as técnicas do século XXI e a moral do século XIX. Técnica de aviões e moral de assalto a diligências.

Na mesma semana, o Brasil usou a Internet e a globalização do século XXI como se estivesse no século XIX, oferecendo recompensa pela captura do bandido Nicolau, como no velho faroeste. Nos mesmos dias, um jornal divulgou matéria mostrando que um grupo de meninos vivia dentro de um buraco no centro da cidade, como se fosse um esconderijo do tempo das diligências, mas dentro do buraco havia uma televisão.

A sociedade brasileira está tropeçando por viver, ao mesmo tempo, em dois momentos diferentes. Em vez de caminharmos, tropeçamos sacrificando milhões de brasileiros, nas tentativas de evitar as quedas. A violência, a corrupção, a instabilidade, o desemprego, a crise da Educação e da Saúde são sintomas de uma queda talvez ainda não percebida, como a de um suicida que pensa estar voando.

Para concluir a semana no tempo das diligências, o ministro Malan desafiou o Partido dos Trabalhadores a apoiar um programa de estabilidade monetária. Até no duelo proposto estamos desequilibrados: o ministro tem o pé financeiro na globalização e o pé político no debate nacional. Já que estamos em um tempo desequilibrado, acho que o PT deve aceitar o duelo.

Como desafiado, o partido tem o direito de escolher as armas ou o local do embate. O nosso lado deve ser a defesa dos interesses nacionais e do povo brasileiro. Não precisa mudar a arma da estabilidade monetária, nem fugir do tema da dívida. O PT deve lembrar que as forças conservadoras fizeram a inflação para financiar o megalomaníaco projeto de desenvolvimento para os ricos, enganando aos pobres.

Deve lembrar, também, que a luta contra o que se chamava carestia sempre foi uma bandeira das esquerdas. Deve dizer que a democracia exige respeito aos compromissos inclusive o pagamento das dívidas. Mas, deve ir para o duelo e discutir todas as dívidas e todas as formas de inflação.

A estabilidade monetária não significa apenas preços estáveis, mas estabilidade do poder de compra, também. Para quem perde o emprego, os preços ficam infinitos, mesmo quando não há inflação. Sendo de todos os brasileiros, o ministro não pode querer a estabilidade apenas para alguns: os donos do capital, os que têm emprego e não têm diminuição no salário. A queda do valor dos salários é uma forma de inflação tão brutal quanto a subida dos preços. Queremos duelar com o ministro sobre todas as formas de inflação.

Da mesma maneira, não há por que ter medo de duelar sobre o problema da dívida. Mas todas elas. Chamemos o ministro Malan para duelarmos sobre a forma de pagar a dívida com os bancos, mas também com as crianças sem escolas, com os adultos sem empregos, com os doente sem leitos, com os agricultores sem terra, com os cidadãos sem segurança, com as florestas sem proteção.

Desafiemos o ministro Malan a pagar todas essas dívidas, inclusive com os credores financeiros. Mas sabemos que o dinheiro não dará para pagar a todos. E queremos saber se o Governo que o ministro Malan representa tem coragem de dizer que prefere pagar a dívida com os credores financeiros a pagar a dívida com as crianças sem escola, com os doentes sem hospitais.

O duelo está em definir a hierarquia das muitas dívidas. E queremos que o Governo explicite qual delas se propõe pagar primeiro. Nós já temos nossa hierarquia. Se o governo disser que tem a mesma, mas os bancos são fortes e não há como deixar de pagar-lhes cada centavo, mesmo que seja preciso deixar nossas crianças sem escola, nós chamamos o ministro para mudar de desafiante.

No lugar de desafiar, chamar o PT e demais partidos como aliados num duelo contra aqueles que estiverem contra nossas crianças. Pode até ser que percamos o duelo e que o Brasil tenha de tirar suas crianças da escola e seus adultos do emprego para podermos pagar integralmente a dívida com os credores financeiros. Mas pode ser que não sejamos tão fracos, ou que os credores percebam que estão passando do limite. Pelo menos, teremos duelado contra eles, e não entre nós.

Teremos feito um duelo como antigamente: nós contra os outros, os mocinhos contra os bandidos, com clareza. E não este moderno duelo da globalização em que os credores empurram presidentes e ministros a duelar contra seus próprios cidadãos. Pelo menos no duelo, coloquemos os dois pés em um só século.


O Globo 28/8/2000
Cristovam Buarque é professor da UNB e autor do livro A segunda abolição.
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