A violência importada, por Marcos Sá Corrêa
    O presidente Fernando Henrique Cardoso não perde uma chance de mostrar que é mesmo um brasileiro fora de série. Só ele ainda consegue falar da violência nas grandes cidades do país como se fosse um problema grave, mas alheio. Até para anunciar a "guerra contra o crime organizado", ele consegue soar como crítico isento da mixórdia nacional que enxerga de longe.

    "Não é aceitável que estejamos assistindo a cada instante a fugas nos presídios, estouro nos presídios, entrada de armas nos presídios e até helicópteros. Isso já passou dos limites", disse o presidente, comentando o assassinato do prefeito Celso Daniel. "Assistir", para começo de conversa, não é o verbo mais indicado para quem se elegeu em 1994 prometendo com a mão espalmada enfrentar as cinco pragas nacionais. Um dos dedos era então o da segurança pública.
    Mas pior é falar em "entrada de armas", coisa que cabe antes de mais nada ao Exército e à Polícia Federal ou seja, ao governo dele controlar. Antes de chegar às grandes cidades brasileiras, onde se espalha sob a incompetência ou a corrupção das secretarias estaduais de segurança, o arsenal do crime organizado passa pelas fronteiras do país com uma desenvoltura que raramente se permite, por exemplo, aos programas para computadores. É tudo tão fácil que o crime desorganizado aproveita e se arma também.
    As relações da violência urbana brasileira com a muamba paraguaia dispensam investigação policial. Funcionam escancaradamente. Cerca de 70% das armas apreendidas em mãos de criminosos no Rio de Janeiro vêm do Paraguai. Meses atrás, a Folha de S. Paulo mostrou como é fácil se armar na cidade de Pedro Juan Caballero, que uma avenida separa de Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul. Ali, um fuzil AR-15, o preferido dos traficantes cariocas, pode ser comprado na rua por US$ 2.500. Nos morros do Rio de Janeiro, sai por US$ 5.000.
    Pedro Juan Caballero, onde só num fim-de-semana podem passar 300 ônibus de brasileiros, é um shopping-center do contrabando. Os camelôs vendem pistolas 9 mm por US$ 300. A munição, por US$ 15. Nas lojas, para quem exige um mínimo de formalidade, o produto sai por US$ 500. De registro nem se fala. Por menos de duzentos dólares leva se um revólver made in Brazil, que as fábricas brasileiras, como a Taurus e a Rossi, exportam para o Paraguai. Aqui, o 357 Magnum é arma exclusiva das Forças Armadas. No Paraguai, não.
    Atrapalhar esse comércio, se não for capaz de suprimi-lo, é o mínimo que o governo Fernando Henrique poderia fazer contra a violência no Brasil ou pela restauração do dedo que ele perdeu desde a campanha de 1994. Para isso, bastava cobrar da Polícia Federal o mínimo de empenho no cumprimento de uma obrigação inalienável. Não era preciso esperar pela onda de indignação levantada pela morte do prefeito Celso Daniel. Ou pela audiência com Lula e o presidente do PT José Dirceu, que ensaiaram este palpite para a conversa com Fernando Henrique nesta terça-feira.

Marcos Sá Corrêa

Fonte: Notícia e Opinião


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