A volta por cima, por Marcos Sá Corrêa
    No fim do século XIX, quando os cariocas ainda aprendiam a chamar de favela os barracos que os recrutas da guerra de Canudos espetavam no morro da Providência, os nova-iorquinos estavam cansados de saber o que isso queria dizer. É "um estado de miséria quase indescritível", segundo o jornal Sun em 1834, que se inspirava no "mau cheiro" e na "promiscuidade interracial".

    O Tribune definiu-a em 1849 como "a grande úlcera central da perversão". Ou seja, "sinônimo da ignorância mais completa, da miséria mais abjeta, do crime da mais negra extração, de aviltamento tão profundo", segundo a escritora sueca Fredrika Bremer, que abaixo dele "a natureza humana não pode mergulhar". Com o olho treinado por suas histórias sobre a pobreza de Londres, o novelista Charles Dickens foi mais longe: "Muitos porcos vivem aí. Será que eles jamais se perguntam por que seus donos caminham eretos em vez de andar de quatro? E por que eles falam em vez de grunhir?".
    Tudo isso foi extraído de Five Points, um pentágono pelas futuras ruas Baxter, Mosco e Worth, mais ou menos onde a Canal Street desemboca em Chinatown. Antes, era um pântano, cercando o poço que abastecia a cidade até a água ser envenenada pela carniça dos matadouros e o esgoto dos curtumes. O Collect foi aterrado em 1813. Seu mau cheiro e com ele a má fama, que acabou credenciando aqueles quarteirões para a moradia de imigrantes, negros e pobres em geral.
    Five Points foi a primeira favela dos Estados Unidos. Ou seja, um prato feito para a imprensa sensacionalista, repórteres policiais, prostitutas, malandros, reformadores sociais, criminosos e políticos populistas. O sociólogo Jacob Riis usou seus moradores como cobaias para um estudo sobre a depravação da vida urbana. E os pregadores religiosos, que chegavam a brigar na disputa daquelas almas, plantaram ali a "Casa Industrial para os solitários, os bêbados e os desgarrados", um projeto de salvação pelo trabalho quase forçado.
    Tudo isso fez de Five Points, segundo o historiador Daniel Czitrom, "muito provavelmente o bairro mais comentado dos Estados Unidos". Não agüentou o peso da fama. Antes da virada do século XIX, a administração municipal e o mercado imobiliário riscaram a favela do mapa e nova-iorquinos teriam esquecido sua existência, se dez anos atrás o judiciário americano não resolvesse construir uma nova sede em Manhattan.
    O prédio, em Foley Square, está fincado numa esquina de Five Points. E suas estacas deram aos arqueólogos um pretexto para exumar 850 mil artefatos enterrados com a favela. São cacos. Pertencem agora a uma coleção que, azarada, estava num porão do World Trade Center, onde precisara ser novamente desencavada. E as melhores peças continuam expostas na internet, em http://r2.gsa.gov/fivept/afarts2.htm
    Entre os fragmentos da vida cotidiana, há ossos de um macaco que aparentemente colhia moedas num realejo, cachimbos de barro que eram a marca dos imigrantes irlandeses, um pente contra piolhos e o pedaços da fina porcelana usada na casa dos Hoffman, uma família de padeiros que enriqueceu no bairro.
    Quase tudo prova que as testemunhas do século XIX mentiram ou, pelo menos, exageraram. Em "Five Points" podia haver de tudo, inclusive miséria e crime. Mas havia pouca vagabundagem. Os fragmentos de sua vida cotidiana mostram que foi a futura classe média americana quem passou por lá, morando em quartos sem janelas e trabalhando duro para subir numa sociedade de imigrantes, enquanto enriquecia com seus aluguéis os proprietários das infectas casas de cômodos.
    Agora, aquela gente recebe um atestado póstumo de cidadania. Saiu, em Nova York, o livro Five Points, de Tyler Anbinder, um historiador que começou a bater aqueles quarteirões quando ainda estudava na universidade de Columbia. O livro é labiríntico e superlotado como o bairro, a começar pela capa, onde o título de 19 palavras explica que se trata do lugar que "inventou o sapateado, roubou eleições e se tornou a mais notória favela do mundo".
    Anbinder conta, por exemplo, que nela os órfãos eram adotados automaticamente pelos vizinhos. E que os moradores, quando saíam da penúria, quase sempre se mudavam para endereços mais respeitáveis na cidade, reforçando a miragem de que ali a pobreza não tinha saída. Five Points, descrita assim, é quase um laboratório clandestino e mal falado da competição que empurrou para frente a prosperidade americana. Convém, portanto, tomar cuidado com o que se escreve hoje sobre as favelas brasileiras. Não se sabe o que dirá delas o século que vem.

Marcos Sá Corrêa

Fonte: http://www.no.com.br/


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