Democracia seqüestrada, por Cristovam Buarque
O que aconteceu em Buritis não foi ocupação de terra, foi o seqüestro de uma casa. Mas, em um país tomado por um eficiente sistema de informações, é impossível que influentes pessoas do governo não estivessem sabendo que esse seqüestro ocorreria. Ainda mais, que sistema de informações e segurança é esse que abre as portas da fazenda do presidente, sabendo que ela estava cercada, há anos, por militantes do MST querendo chamar atenção para sua luta? Houve uma combinação de interesses para realizar o seqüestro e, no meio, seqüestrar a própria democracia.

Triste Brasil que, em pleno século XXI, precisa ainda de um movimento de trabalhadores sem terra lutar pelo quase primitivo direito a um pedaço de terra para sustentar sua família; mais triste ainda o Brasil que, em pleno século XXI, tem um movimento político que confunde ocupação de terra com seqüestro de casa; e, ainda mais triste, uma política onde os partidos tiram proveito da fragilidade da democracia, manipulando para jogar nos adversários a responsabilidade dos atos desse movimento.

Triste Brasil com uma democracia seqüestrada pelos serviços de informação tão incompetentes que não sabem com antecedência a invasão da casa do presidente e de uma segurança tão incompetente que não guarda a porta da casa do presidente; ou, muito pior, que triste Brasil se o competente serviço de informação e de segurança for usado para deixar invadir a casa do presidente dentro de uma estratégia para ganhar as próximas eleições.

A democracia brasileira está seqüestrada.

Mais do que a ocupação de uma área improdutiva no imenso latifúndio chamado Brasil, para atender a legítima demanda por terra, o MST fez o seqüestro de uma casa de campo em fazenda produtiva de um cidadão que ocupa o cargo de presidente da República.

O processo democrático não resiste sem fazer-se a óbvia distribuição da imensa terra brasileira, apropriada por latifundiários improdutivos, aos nossos cidadãos que desejam produzir e têm direito a isso; nem resiste ao desrespeito dos direitos individuais de cada cidadão, inclusive do presidente da República. Com um agravante, quando se invade a casa do presidente, a população se assusta porque, se até ele é vítima da violência, que poderá acontecer com cada um de nós; mais do que a quebra de um direito pessoal, a invasão da casa do presidente representa, especialmente para as crianças, como a quebra da sacralidade que o cargo exige.

Na democracia, o poder do presidente não está nas armas, está no simbolismo da votação que teve, na liturgia de seu cargo, na intocabilidade de sua pessoa. Sem isso, qualquer grupo armado, de sem-terra ou de soldados, tem mais poder do que ele. Na democracia, o presidente é um homem desarmado, e se para se defender ele precisa usar as Forças Armadas, começou a acabar seu poder ou começou a acabar a democracia.

Há exatamente 38 anos o povo brasileiro assistiu perplexo e assustado ao seqüestro explícito da democracia, mas alguns comemoraram ingenuamente considerando que se tratava de um movimento de defesa da democracia. Hoje, assistimos ao seqüestro da democracia ao vermos, perplexos, a invasão da casa do presidente, mas muitos comemoram como sendo uma vitória de um movimento de sem-terra lutando por um direito deles, ou porque serve para abalar o prestígio de um partido adversário.

Se essa é a forma de lutar pela reforma agrária, quanto tempo vai demorar para os familiares de doentes começarem a ocupar a casa do diretor do hospital como forma de ter preferência na triste fila para receber atendimento; ou de ocupar a residência de ministros quando eles não atenderem reivindicações? As greves terão sido substituídas por seqüestros. A partir do próximo ano, depois de sua posse, quanto tempo vai demorar para os descontentes, de qualquer tipo, inclusive latifundiários, invadirem como protesto propriedade de lazer do novo presidente?

Da mesma forma como em 1964 um movimento que tinha alguns democratas iludidos foi usado pelos ditadores, hoje já se percebe que a invasão da casa do presidente, mesmo que tivesse sido feita por trabalhadores sem terra, já está com manipuladores querendo tirar proveito dela. Os representantes do próprio presidente da República se pronunciam como se estivessem comemorando, no lugar de lamentando. Da mesma forma como comemoraram a ação da Justiça no escritório do senhor Jorge Murad, porque dinamitou a campanha da governadora Roseana, mas para a democracia seria melhor que ela perdesse no voto, não por uma invasão de sua casa ou seu escritório.

É possível que o seqüestro da casa do presidente tenha um efeito negativo para a campanha do PT, por causa da tradicional luta deste partido pela reforma agrária no Brasil, mas aqueles que jogam a culpa no PT para tirarem proveito desse irresponsável ato de violência cometido pelo MST estão comemorando a vitória de seus candidatos derrotando a democracia. É preciso dizer, entretanto, que o PT não fez ainda a crítica contundente desse ato do MST. Ser aliado de um movimento não significa tolerar ou dar a impressão de tolerância com atos equivocados que ele cometa. O melhor aliado é aquele que denuncia com ênfase o erro do aliado, e nesse caso o MST errou, cometeu uma violência injustificada, contra um alvo errado; cometeu o seqüestro da casa de um cidadão que foi eleito para simbolizar a democracia, mesmo que lhe façamos oposição.

O MST errou ao invadir uma casa, ainda mais do presidente da República, o ministro da Justiça errou ao tentar tirar proveito jogando injustamente a culpa no PT, da mesma forma como o PT erra se não fizer a diferença clara entre a legítima luta pela terra para produção e a invasão de casas para chamar atenção. Enquanto isso, a democracia brasileira está seqüestrada.

Cristovam Buarque, ex-reitor da Universidade de Brasília, foi governador do Distrito Federal. Publicado pelo jornal "Correio Braziliense"


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