A Culpa é Nossa, por Cristovam Buarque
    O Ministro Cavallo vem culpando a política cambial brasileira pela crise que a Argentina atravessa. Segundo ele, ao desvalorizar o real diante do dólar, o Brasil está provocando déficit na balança comercial de seu país. Tem razão, ao desvalorizar nossa moeda, o Brasil fica com seus produtos mais baratos em dólar e o resultado é que passamos a vender mais do que compramos.

    Tem razão, mas a culpa é deles, que optaram por uma moeda sem convertibilidade. Apostaram errado. E agora jogam a culpa no Brasil. Como país soberano, o Brasil tem o direito de tratar nossa moeda da maneira que mais nos interesse, pelo menos enquanto não houver um pacto monetário ou uma moeda única no Mercosul. Os argentinos também têm o mesmo direito. Se nossa opção é correta, eles que façam o mesmo corrigindo uma aposta errada.
    É difícil entender o porquê de Fernando Henrique ficar irritado com o discurso do ministro Cavallo, afinal ele também costuma jogar a culpa de nossas crises nos países estrangeiros: ora na Rússia, ora na Tailândia, no México, ou na própria Argentina.
    A globalização está servindo para que os governos joguem a culpa de seus erros nos vizinhos. Globalizar é exportar a culpa dos governos para o resto do planeta.
    Nas últimas semanas, o presidente brasileiro vem sistematicamente jogando nos EUA e nos países europeus a culpa das nossas dificuldades comerciais. Segundo o presidente, nossos déficits decorrem do fato de que esses países protegem seus produtores, dificultando as importações de produtos brasileiros. Como se defender seus produtores não fosse uma obrigação de todo governo.
    Aqueles países prejudicam o Brasil ao protegerem seus empresários e trabalhadores, com artimanhas alfandegárias que impedem importações de produtos brasileiros. Fazem isso para defender o emprego em seus países, no lugar de empregos no Brasil. É péssimo para nós, mas é para eles um direito tão soberano – por mais que o governo brasileiro esperneie – quanto deixar que nossa moeda desvalorize é um direito brasileiro – por mais que esperneie Cavallo.
    A culpa é nossa. O governo Fernando Henrique fez uma aposta errada na liberação radical de nossas barreiras alfandegárias, esperando que os demais países cumprissem o que falavam teoricamente nos discursos neoliberais, enquanto na prática política agem conforme os interesses de suas populações. Se eles estão agindo dessa forma e protegendo o emprego e a produção local, no lugar de reclamar deveríamos aprender. Não temos o mesmo poder que eles têm, mas não somos impotentes a ponto de cairmos no ridículo do esperneio, enquanto eles riem de nossas reclamações. Como Fernando Henrique e Malan demonstram claramente estarem rindo das reclamações do ministro Cavallo.
    Os países europeus têm democracias participativas, onde cada setor é ouvido e respeitado, enquanto no Brasil uma elite deslumbrada, iludida ou conivente reclama dos estrangeiros, no lugar de atender os interesses nacionais. Há anos a oposição vem dizendo que a radical abertura comercial brasileira era prejudicial ao País, criava empregos nos EUA ao custo de desemprego no Brasil. Há dez anos, como ministro e como presidente, Fernando Henrique diz com toda arrogância que as oposições estão erradas.
    Agora, no final do mandato, reconhece que os países ricos não vão abrir suas fronteiras. No lugar de, como governante, liderar uma alternativa, prefere, como o ministro argentino, reclamar dos governos estrangeiros, que estariam errados porque defendem os empregos de seus trabalhadores. Diante de governos estrangeiros errados, não reclamamos, enfrentamos.
    Mas não é só o governo conservador que joga a culpa no exterior. Uma grande parte da esquerda brasileira joga a culpa de nossa tragédia no FMI, na dívida externa, quando a culpa está no egoísmo de nossa elite. Seja porque ela tolera intervenções estrangeiras, seja porque pediu empréstimos que não podíamos pagar, seja porque apostou errado que as exportações pagariam com facilidade todas as dívidas no dia em que a Europa e os EUA abrissem suas fronteiras para nossos produtos.
    Ao defender que a pobreza só será eliminada depois de uma ruptura com o FMI ou uma moratória, a esquerda está desculpando a elite pela continuidade do quadro de pobreza. Em um país com uma receita do setor público superior a R$ 400 bilhões em 2002, há condições de erradicar a pobreza, desde que os recursos necessários sejam corretamente aplicados, ainda que sejamos obrigados a pagar o valor integral do serviço da dívida externa para o próximo ano. É um direito tentar renegociar as dívidas, mas jogar nelas a culpa de não cumprirmos as obrigações sociais é fazer o mesmo que fazem Cavallo e Cardoso: exportar a culpa de nossa tragédia, de nossa incompetência e de nossas apostas erradas.
    Muitos estudos mostram que bastaria uma pequena parte da receita do setor público, investida corretamente, para que em poucos anos o Brasil tenha corrigido o quadro de pobreza da população – garantindo escolas de qualidade a todas as crianças; um eficiente sistema de atendimento médico para todos; moradia, água potável, esgoto, limpeza urbana para todas as famílias e provendo toda a população de alimento, para que ninguém nunca mais passe fome neste país.
    Se não fazemos isso é porque, como Cavallo e Fernando Henrique, nos acostumamos a jogar a culpa nos outros, como desculpa para não cumprirmos nosso dever: usar os recursos com soberania, mas também com ética nas prioridades.
    O primeiro passo para a Argentina encontrar um caminho é não jogar a culpa nas políticas do Brasil, e o primeiro passo para sairmos de nossa própria tragédia social é assumirmos nossa responsabilidade como lideranças, no governo e na oposição, porque a culpa é sempre nossa, nunca dos outros.

Cristovam Buarque é professor da UnB, onde foi reitor, ex-governador do DF, pelo PT e presidente da Missão Criança. Seu novo livro é “Admirável Mundo Atual”.

Fonte: http://www.mundolegal.com.br/revista/revista_texto.cfm?did=3509


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