O Rio de Janeiro para principiantes
Marcos Sá Corrêa, 4 de maio de 2003

Maus tempos aqueles em que o carioca, em vez de linchar tubarão, se ofendia quando um forasteiro lhe perguntava se nas ruas do Rio de Janeiro transitavam cobras. Transitar, elas nunca transitaram. Mas esse já foi um modo de insinuar que a cidade ainda mal saíra do mato, num tempo em que nada ofendia mais o civismo urbano do que ter um pé no sertão bravio.

Hoje estão ambos vingados. Se a cobra visitasse a cidade atualmente, encontraria os turistas à sua espera, com todo o equipamento que promove a modalidade esportiva o exercício de sobrevivência na selva: uniforme cáqui, chapéu de explorador, guia fantasiado de mateiro e jipão camuflado. Só falta a cobra.

E o carioca aprendeu a ganhar dinheiro com o que em outros tempos usava só para escovar os brios da cidade. Os estrangeiros querem visitá-la como se estivessem entrando em Tikrit? Não seja por isso. Estamos aqui para lhes mostrar tudo o que o Rio de Janeiro tem de bravio e exótico. A começar, naturalmente, pelas favelas, que antes os guias turísticos tentavam apagar dos morros com retoques fotográficos.

Começou com excursões às favelas. A Jeep Tour, agência desbravadora do ecoturismo no asfalto, comprou dez anos atrás os primeiros veículos 4x4 para levar à floresta da Tijuca os delegados da Eco-92 e acabou topando no alto do morro com a atração internacional da Rocinha. Diz ela, em sua página na internet: “Satisfazendo a curiosidade de turistas, visitamos uma comunidade carente e desenvolvemos um projeto social em uma área marginalizada, berço do carnaval e fonte de mão-de-obra para a cidade (motoristas, porteiros, camareiras, domésticas etc.), possibilitando um maior contato com as raízes do povo brasileiro”.

Reconhecer que as favelas fazem parte do cenário carioca parece um grande negócio. Uma década depois a Jeep Tour tem 15 representantes no Rio. Enfrenta a concorrência de pelo menos duas firmas rivais. Mas não se queixa de ociosidade em sua frota de “30 jipes militares, com capacidade e segurança para 200 passageiros, uma equipe de motoristas treinados e guias poliglotas, e um conjunto de itinerários dedicados ao ecoturismo”.

Quais? Há, por exemplo, a Trilha da Borboleta Azul, que termina numa cachoeira em Angra dos Reis, com “água cristalina” e uma “verdadeira hidromassagem”. A Costa Verde, no litoral fluminense, onde “o contraste do azul do mar e o verde das montanhas oferece uma paisagem deslumbrante”. Ou o Circuito do Café, em Barra do Piraí, para “observar todo o luxo e esplendor em que viveram os primeiros barões do Brasil”.

Mas, até pelo lugar que ocupa em sua publicidade, o prato de resistência desse cardápio é mesmo a favela – “a maior da América do Sul”, promete a agência, com certo ufanismo. Seu programa oferece um mergulho na rotina da Rocinha, “com visita a casas de moradores, creches e escolas, caminha por entre as vielas e pelo centro de comércio do bairro”, além de conhecer o galpão da escola de samba e uma feira-livre com “comidas, bebidas e artigos de artesanato da região Nordeste”.

Dizem os guias que eles chegam a trabalhar com 600 turistas por mês. Os carros usados nessas ocasiões são invariavelmente relíquias das forças armadas compradas em leilões de sucata, como o caminhão Dodge M-601 ou a picape F8s FF-220. Quase sempre viajam em caravana, parecendo uma tropa de ocupação. A clientela, quase sempre vestida a caráter, vai empoleirada em caçambas abertas, desfraldando cabeleiras louras ao sol e ao vento. Os grupos não poderiam ser mais espalhafatosos no asfalto. Na favela, então, nem se fala.

E quantas vezes a Jeep Tour e sua carga de turistas tiveram problemas com assaltos, balas perdidas e traficantes encastelados em seus feudos, nesses dez anos de operação? “Nenhuma”, responde o recepcionista. Qual o segredo de tamanha imunidade? “Empregamos de preferência motoristas e cicerones contratados na própria favela. Sabemos onde ir, onde fotografar. Ou seja, tomamos cuidados normais”, ele garante. Há qualquer coisa de estranho, como se vê, na violência carioca. Ao contrário das cobras, ela anda solta nas ruas. Mas, de perto, parece muito bem amestrada.

Marcos Sá Corrêa [[email protected]]
Visite o No Mínimo


Consciência.Net