27 de abril de 2003
Chame o marido
Marcos Sá Corrêa

O estado do Rio de Janeiro está sob intervenção conjugal. A dupla Garotinho se antecipou às “vozes ocultas” que conjuravam a intervenção federal e reconheceu que a governadora não pode cuidar sozinha da crise na segurança pública. Em outras palavras – as palavras adocicadas que oficializaram a nomeação – ela entregou seu maior problema ao que tem de mais precioso na vida. “A responsabilidade agora é minha, deixa comigo”, declarou à imprensa o Garotinho-macho. Justiça seja feita: o casal é valente. Não teme nem o ridículo.

Antes mesmo de assumir o cargo, o novo secretário mostrou a que veio. Foi ao Ministério da Justiça e, debaixo das manchetes que anunciavam a súbita adesão do Rio de Janeiro ao Sistema Único de Segurança, revogou todas as disposições da mulher em contrário. Disse que ela havia criticado a proposta por só conhecer suas “linhas gerais”. De leve, assim como quem não quer nada, ele acusou a governadora de leviandade, por malhar publicamente um projeto que não ainda não estudou.

Mas isso eles que resolvam em casa. Para a vida pública, o que interessa é o cachê de R$ 40 milhões que o ex-governador Anthony Garotinho ganhou com sua performance em Brasília. Não é pouco para uma primeira viagem. Quando ele saiu do Rio, havia a ameaça de uma intervenção federal. Quando voltou, o que trazia de federal em sua bagagem era a promessa de uma verba da União para sua polícia. Ele sequer entrou em campo e já virou o jogo.

Mas o que seriam as tais “linhas gerais” que a governadora ignora? São a “letra morta” do Sistema Único de Segurança, como ele esclareceu aos jornais, como se fosse natural o futuro secretário adotar em sua administração um projeto que, de cara, ele mesmo chama de caduco. Ele certamente sabe o que quer dizer letra morta. É uma “coisa que passou a não ter significação ou valor, que já não produz mais efeito”, segundo o dicionário Houaiss. Ou um “preceito escrito que não se cumpriu, ou que já não tem autoridade nem valia”, segundo o Aurélio.

Outro político menos esperto e tarimbado do que ele poderia se enganar sobre o sentido de suas palavras. Mas o ex-governador Anthony Garotinho, não. Enganar não é um verbo que ele use sem mais nem menos na forma pronominal. Ele estava era avisando, com todas as letras, que pretende abraçar o Sistema Único da mesma maneira que adotou em 1998 o programa do antropólogo Luiz Eduardo Soares para a segurança no Rio de Janeiro.

Para quem não ouviu o escândalo, a história está no livro “Meu Casaco de General”, da editora Cia. das Letras. Para contá-la, Soares se refugiou numa bolsa acadêmica em Nova York por vários meses. Temia sofrer atentados se ficasse no Rio de Janeiro, depois que Garotinho o demitiu. Soares, que o governo Lula transformou em secretário nacional de Segurança, foi o coordenador de um programa de reforma da polícia no Rio de Janeiro que o governador sabotou antes mesmo de assumir o mandato.

Soares fez um projeto baseado em quase duas décadas de pesquisa. Na campanha, Garotinho o chamava de “nosso livro”. Depois da briga, passou a chamá-lo de seu. Mas, eleito, no dia em que saíram os resultados das urnas, ele anunciou ao coordenador da reforma que entregaria a secretaria de Segurança a José Siqueira, um general que achava as estatísticas da violência no Rio de Janeiro mais do que razoáveis porque na Bíblia, quando Caim matou Abel, a taxa de criminalidade bateu em 50%.

Na primeira reunião da equipe, o general avisou que o programa de Soares era, como se diz atualmente em Brasília, letra morta: “Todo mundo me traz um projeto diferente para a Polícia Civil, Luiz Eduardo. O que não faltam são projetos. Vamos deixar os projetos e fazer o que podemos fazer. Carlos Alberto, anota aí: procura umas delegacias que estejam precisando de uma reforma. Vamos pintar e melhorar uma duas ou três. E veja se não estão precisando de uns computadores”.

Dali para a frente, foram catorze meses de briga. Siqueira acabou demitido por Garotinho em conversa telefônica. Soares, em entrevista a um telejornal, como acontecia com seus secretários na prefeitura de Campos. Fora do governo, Siqueira e Soares se reconciliaram. E, conversando, descobriram que ambos cumpriam, sem saber, ordens contraditórias do governador, quando se engalfinhavam na sua frente. É esse o secretário que a partir de agora fará a unificação da polícia civil e militar no Rio de Janeiro, como manda o Sistema Único de Segurança Pública.

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