Olhando para o horizonte

O mundo muda. A Igreja não muda. O eclesiocentrismo afeta todos os níveis da instituição católica, inclusive as comunidades eclesiais de base. Por isso, falta a mística de Jesus e os pentecostais e outras religiões oferecem uma mensagem que atrai mais. Precisamos de um novo projeto de construção do reino de Deus porque o projeto de ressuscitar a cristandade está condenado ao fracasso.

O clero não poderá nem constituir nem dirigir o novo projeto. Precisamos de um novo carisma, uma nova categoria de evangelizadores. Podemos provisoriamente dar-lhe o nome de missionários. O novo projeto terá que enfrentar claramente o modelo da sociedade atual. Será uma Igreja presente n o mundo como sal da terra e luz do mundo no meio dele e não da parte de fora. Os pobres de hoje são os negros da África vítima de um racismo mundial. Ali vai começar o novo projeto.

1.Aqui estou na periferia de João Pessoa, num bairro em que predominam famílias desfeitas, mães solteiras, desempregados, maconheiros, um grande centro de educação e de saúde do pastor batista; aqui praticamente todo o bairro freqüenta o centro batista, o que não quer dizer que todos sejam batistas. Há também a Igreja Universal e a Assembléia de Deus, assim como uma capela católica. Graças aos padres jesuítas que há alguns anos atrás tinham assumido a paróquia de Bayeux, temos aqui uma pequena comunidade católica.Pois os padres descentralizaram a paróquia e fundaram muitas pequenas comunidades.

No bairro moram migrantes que vieram do interior da Paraíba já há uns 20 ou 30 anos. Os jovens nasceram aqui mesmo, mas os velhos ainda têm ligações com o interior. A impressão que se tem, é que o bairro não é muito diferente de tantos bairros populares que se encontram praticamente em todas as cidades do Nordeste. As mulheres salvam a vida porque arranjam serviços na capital, ou subsistem com pequenos comércios feitos desde a janela da sua casinha.

Dentro deste contexto, a pergunta que se impõe, é a seguinte : Porque os pentecostais fazem tanto sucesso e porque as comunidades católicas não crescem, envelhecem e têm tanta dificuldade para se renovar ? Qual é o segredo ? Tenho a impressão de que por esta entrada vamos poder entender melhor o que acontece na Igreja católica como conjunto.

Faz 43 anos que estou participando das chamadas comunidades eclesiais de base. Foi primeiro no Chile nos anos 1962-1965 nas “poblaciones callampas” da zona Sul de Santiago, sobretudo na “población””La Légua” que era famosa porque tinha a reputação de ser a cova em que se refugiavam os delinqüentes da cidade. “La Légua” foi também famosa porque ali foram párocos alguns dos melhores sacerdotes de Chile : Rafael Maroto, Fernando Ariztia ( mais tarde bispo e presidente da conferencio episcopal), Mariano Puga e outros. Estes nomes gozam do maior prestígio em Santiago,embora todos tenham um pouco o rótulo de “esquerdistas”. Mesmo assim são sumamente respeitados por todos.

Depois disso conheci as comunidades do “Encontro de irmãos” no Recife, sobretudo em Ponte dos Carvalhos onde Geraldo Leite era vigário, um artista, poeta, de grande dinamismo, que deixou várias canções nos cancioneiros litúrgicos do Brasil inteiro. Morreu prematuramente de câncer aos 50 anos. Ao mesmo tempo eu acompanhava as comunidades rurais da “teologia da enxada”no interior de Pernambuco e da Paraíba. Depois da expulsão do Brasil em 1972, voltei para o Chile, desta vez no interior, em Talca. Era o regime militar e as comunidades eram constantemente vigiadas. Já não se atreviam a sair das atividades propriamente religiosas. No entanto, aí começou uma formação de dirigentes de comunidades que não tem correspondente na América do Sul, graças ao carisma do padre Enrique Correa, morto também prematuramente de câncer aos 60 anos.

De volta no Brasil em 1980, com um grupo de ex-alunos, fundamos algumas instituições de formação missionária todas orientadas para as comunidades populares com extensão em quase todos os Estados do Nordeste. Foram 25 anos dedicados sobretudo à formação de animadores em diversos níveis, e ao acompanhamento das comunidades por diversos métodos.

Com tudo isso não vou me comparar com especialistas como o padre José Marins e outros. No entanto, tive a oportunidade de observar muitas coisas. É verdade que o campo de observação era limitado. O Nordeste influiu muito, mas tive também bastante comunicação com as comunidades chilenas, e também com as comunidades indígenas de dom Leônidas Proaño bispo de Riobamba na província de Chimborazo no Equador, e também episodicamente, com comunidades da periferia de S.Paulo. Pude encontrar animadores e animadores totalmente dedicados ao povo dos pobres, pobres entre os pobres. Muitos já eram cristãos ativos antes de que participassem de uma comunidade, mas, sem dúvida, eles ou elas tiveram nas comunidades uma oportunidade de desabrochar mais ainda as qualidades que já tinham.

Muitas comunidades tinham um grande dinamismo. No entanto, havia algo um pouco estranho que para mim era um problema. Na grande maioria, os animadores eram e ainda são pessoas que vem do catolicismo tradicional, do velho fundo religiosos rural, com todas as virtudes vividas no meio da cultura rural durante tantas gerações. As comunidades recolheram os melhores elementos do catolicismo tradicional. Mas elas não fazem muitas conversões,nem conseguem atingir muito as pessoas que já se tinham distanciado da religião tradicional ou tinham apenas com ela contatos superficiais. Porque será ?

Além disso, neste recorrido todo, sempre fiquei com uma certa impressão de mal-estar. Mal-estar é uma palavra forte demais. Uma impressão de que alguma coisa faltava. Havia muitas pessoas vivendo numa verdadeira santidade, pessoas dedicadas, sacrificadas, capazes de um amor e um serviço ao próximo que com certeza já existiam virtualmente antes de que existissem as comunidades que estava virtualmente nelas, mas que encontraram nelas um oportunidade para produzir muitos frutos.

Tinha vergonha de procurar alguma falha nessas pessoas que com certeza valiam muito mais do que eu. Porém, apesar de tudo isso, eu ficava com uma vaga impressão de que faltava alguma coisa, uma coisa não muito aparente, como uma ausência. Falta alguma coisa, mas o que ? Não se tratava das pessoas, mas havia alguma coisa na própria instituição, no sistema, na organização, que me deixava e me deixa com preocupação, eu diria, com um sentimento de frustração. Claro está que não tenho direito de sentir nenhuma frustração, porém se tratava de algo inconsciente, sempre reprimido, mas que não queria desaparecer.

Por outro lado, há este fato tantas vezes observado. Se se pergunta a um crente porque virou crente, ele ou ela responde: “Porque agora descobri Jesus, conheço Jesus e leio a Bíblia”. Claro está que na Igreja católica ele conhecia o nome de Jesus, conhecia as devoções a Jesus, a Semana santa, o Natal, o Sagrado Coração, a Eucaristia e a hóstia sagrada. Mas para ele ou ela isso não era conhecer Jesus. Participar de todas essas realizações litúrgicas não era conhecer Jesus. Conhecer Jesus é ter contato pessoal constante com ele, viver com ele, com o se vive com um parente, um amigo, referir-se a ele a cada momento como se faz com os pais ou com amigos ou amigas. Aquilo não se aprende na instituição católica, nem na paróquia, nem na comunidade. Sempre se fala de Jesus, mas como alguém de que se adora, como um objeto sagrado dentro da Igreja. Jesus é como a realidade sagrada situada na frente e que se deve venerar. A relação com ele é principalmente de tipo litúrgico. Jesus é visto dentro da Igreja como o bem supremo que guarda a Igreja.

Aí comecei a pensar : não seria este o problema ? Para os católicos a Igreja, ou seja, a instituição Igreja sempre é primeira e envolve tudo. Os católicos conhecem Jesus, mas por intermédio da Igreja, por intermédio das celebrações, liturgias, catequeses da Igreja. Nunca diretamente com a impressão de contato direto como de uma amizade pessoal. Sabe-se que é amigo porque o catecismo diz que ele é. Jesus é objeto do ensino da Igreja. Jesus é objeto de catequese, de explicação. Não é pessoa viva com a qual se pratica uma convivência permanente. Não há experiência mística. Na comunidade não se aprendia essa mística de Jesus que os crentes descobrem tão rapidamente.

2. Isto que sucede ao nível das comunidades de base, a ausência de uma verdadeira mística de Jesus, não estaria caracterizando a Igreja católica em todos os seus níveis? Não posso negar que, em todos os níveis, há místicos que vivem dessa maneira. Mas são exceções e não marcam o estilo da Igreja católica. Não haveria inconscientemente mesmo nas comunidades de base a repetição do mesmo estilo, da mesma expressão, do mesmo esquema mental que há em todas as instituições católicas tradicionais ? Em toas as formas de culto a Jesus, o católico segue o que ensina a Igreja. Não é espontâneo. Faz o que a Igreja manda fazer. A Igreja é primeira na consciência ou no sub-consciente.Outra coisa seria procurar saber porque é assim. Mas esta é uma pergunta ulterior.

A suspeita é a seguinte. Os católicos têm por objeto religioso central a Igreja. O seu interesse é a Igreja. Todas as atividades tendem a reforçar essa presença da Igreja. O proselitismo católico procura expandir a Igreja, aumentar os números de fiéis da Igreja, dar mais vida à Igreja, sempre a Igreja. De acordo com a doutrina cem vezes repetida, o papel da Igreja é anunciar e mostrar Jesus Cristo. Na realidade, o que acontece é o contrário. A Igreja oculta Jesus Cristo. Ela sempre chama a atenção para si mesma. A pregação, os sacramentos, as obras, tudo tende a exaltar a Igreja. Tudo sucede como se a Igreja tivesse montado uma imensa máquina de propaganda da de si mesma.

Escutem a conversa dos padres : sempre a Igreja, poucas vezes Jesus.

Tomemos a missa. O que é mais visível é o padre. Ele é quem chama a atenção. A missa destaca a pessoa do celebrante e mostra um povo reunido na submissão ao celebrante que é dotado de um poder milagroso. Ele traz o corpo e o sangue de Jesus e este milagre serve em primeiro lugar a destacar o seu poder. A impressão que fica nos fiéis é mais o poder do padre do que o diálogo ou o sentimento de presença de Jesus. Claro que o padre diz que é preciso crer na presença de Jesus e todos fazem um esforço não por espontaneidade, mas porque o padre diz que é preciso fazer assim.

Intelectualmente, todos sabem que a missa é o memorial da paixão e da ressurreição de Jesus. Mas, sensivelmente o que se vive é mais um memorial da Igreja e do padre em quem se concentra o poder da Igreja. Jesus está presente a nível nocional, não a nível vital. Vitalmente o que está presente é essa instituição poderosa que é a Igreja que faz o maior milagre que se possa imaginar: tornar Deus presente numa hóstia. É o que a celebração evoca.Confesso que cada vez que celebro a eucaristia, me vem esse pensamento que não consigo extirpar. Procuro na medida do possível chamar a atenção para Jesus, mas o contexto é tão forte que não se consegue. Não é problema de palavras e sim de todo um conjunto de sinais. Como fazer para evitar que se contemple a glória da instituição eclesiástica e do sacerdote que a encarna ?

A auto-contemplação tão enraizada na Igreja aparece nas comunidades. As comunidades olham demais para si mesmas, se tomam como objeto de contemplação e como objetivo. Na consciência ou seja, na teoria, Jesus está no centro da comunidade, mas no inconsciente que se manifesta por todos os sinais exteriores, o centro é a própria comunidade e o próprio Jesus está aí como um objeto sagrado que confere valor à comunidade. Isto é caricatural, mas se trata de mostrar uma tendência. O valor vivido como valor último é a comunidade. Quando convidam uma pessoa, convidam para a comunidade, não convidam para viver com Jesus.

Vamos supor que se organize na comunidade uma adoração do Santíssimo. Teoricamente seria um tempo dedicado totalmente a Jesus. No entanto as pessoas vêm porque se trata de um ato comunitário. Querem mostrar que são muito apegadas à comunidade. Durante o tempo da adoração tudo será programado para que todos estejam contentes. Depois se dirá : Foi uma boa celebração, foi um bonito ato comunitário. Está ótimo, mas mostra que o que é primário é a satisfação da comunidade. Durante a adoração todos vão pensar em Jesus e elaborar sentimentos para com ele. A comunidade planejou assim e é preciso fazer como a comunidade planejou. Jesus está aí, mas subordinado à comunidade, como objeto escolhido e mostrado pela comunidade. No inconsciente o que e vive mais intensamente é a pertença à comunidade e a vontade de dar mais força à comunidade.

Por isso, quem não pertence à comunidade, não se sente atraído por essa atividade. Ora, esta situação se multiplica sem limites e por isso todos enxergam tudo isso como os exercícios que devem fazer dentro da comunidade, por pertencerem à comunidade. Nem edifica, nem escandaliza. Simplesmente : é aquilo que eles devem fazer porque pertencem à comunidade. Desta maneira também, os leigos contemplam a vida religiosa. Os religiosos fazem coisas estranhas porque é a regra, é o sinal de identidade. Eles têm todo o direito de manifestar os seus sinais de identidade, assim como muitos outros grupos na sociedade contemporânea que é multicultural. Assim como fazem as comunidades religiosas, assim fazem também as comunidades leigas.

Quis partir das comunidades de base porque o seu ideal e a sua ideologia sempre foram exatamente o contrário. Há certos dinamismos inconscientes que são mais fortes do que as intenções ou as teologias. Se consideramos agora a paróquia, a evidência dispara. A paróquia tem em si mesma a sua própria finalidade. Inculca-se aos paroquianos que um bom cristão é um bom paroquiano e que a dedicação à paróquia é o que Deus quer. Há muitas atividades na paróquia. Ela precisa de muitos colaboradores. Há muita atividade, muito dinamismo.A paróquia tende a aumentar o seu poder, a sua visibilidade, o seu prestígio social.

Comecei minha vida sacerdotal numa paróquia de cidade, exatamente em Bruxelas. Naquele tempo havia muitos sacerdotes. A paróquia tinha 15.000 habitantes. Uns 4.000 assistiam à missa cada domingo porque havia 6 missas. Éramos 4 sacerdotes e eu era o mais jovem, o último na graduação.Havia naturalmente muitas atividades na paróquia. Creio que a paróquia não era nem melhor, nem pior do que as outras e nós, os padres, nem melhores, nem piores do que os outros. Todos eram muito bem disciplinados e representavam exatamente o modelo que tinha sido inculcado no seminário.Nada de especial, nem de original, simplesmente o modelo romano perfeitamente aplicado.

Nas reuniões do clero, o assunto era sempre a paróquia, a organização das atividades, os melhoramentos necessários. Era: como tornar a paróquia mais atraente e mais eficiente? Como aplicar as pequenas reformas que eram permitidas ? O assunto era sempre a Igreja, e afinal de contas, o poder da Igreja mediante a nossa paróquia. Estávamos representando localmente a Igreja, esta imensa fortaleza que Deus tinha colocado no mundo para distribuir a salvação e governar a sociedade, ainda que houvesse muitos incrédulos que já não aceitavam essa submissão. Ainda havia um número suficiente de fiéis, para acalmar as apreensões ou os temores. Ainda éramos uma força social impressionante.

Não me lembro que jamais tenhamos falado de Jesus Cristo entre nós, a não ser como objeto que usávamos para organizar o culto, a pregação e assim por diante. Em princípio estávamos alí para servir a Jesus e na prática era Jesus n quem nos servia a nós porque nos dava a justificação do nosso trabalho. Jesus existia para a paróquia para que fosse próspera e não a paróquia para Jesus apesar de que sempre se dizia o contrário.

Agüentei 8 anos. Repito : eram todos, assim como quase todos os padres da diocese, pessoas excelentes, dedicadas, atenciosas, bem educadas. Realmente o trabalho dos fundadores dos seminários do século XVII e a obra espiritual de Vincent de Paul, J.J. Olier, João Eudes e outros no século XVII tinha sido muito eficiente ( com as congregações fundadas por eles, Lazaristas, Sulpicianos, Eudistas).

Éramos bons administradores da paróquia. Esta tinha por missão conservar no rebanho e conduzir até a salvação os habitantes da paróquia. Já não era capaz de fazer com que todos ficassem fiéis; porém, havia um número suficiente de fiéis para ocupar o tempo dos padres.

Realmente o problema não era a pessoa dos padres, mas a estrutura. Essa paróquia nunca conseguiu atrair ou converter um não-crente. Ela podia conservar. Era feita para conservar. Assim mesmo, a cada geração perdia alguns elementos que já não podia mais controlar.

Faltava a mística. Faltava Jesus, embora o seu nome fosse citado sem parar, mas era um Jesus administrativo, objeto de culto, não um Jesus vivo. Era um Jesus que recebia homenagens, mas não era uma pessoa humana amiga.

Claro que havia exceções. Havia paróquias com certos ambientes mais místicos. Havia lugares em que a leitura dos evangelhos alimentava uma vida interior viva. Eram exceções.Não era o modelo comum e não era o modelo transmitido no seminário.

Vamos subindo na hierarquia. Aqui nos encontramos com a Cúria diocesana, e com a Cúria romana. Podemos imaginar que as características da Cúria diocesana se acham na Cúria romana aumentadas, desenvolvidas. Na Cúria diocesana trabalham algumas dezenas ou algumas centenas de funcionários. Na Cúria romana são milhares.

Essas Cúrias são inevitavelmente burocracias e não podem salvar-se de todos os vícios de todas as burocracias. As boas intenções não mudam as situações porque, se há pessoas que conseguem escapar, elas são recuperadas pelo ambiente.

Em primeiro lugar, toda burocracia tem em si mesma a sua finalidade. A sua finalidade é subsistir. A burocracia quer dizer emprego. Quem está na burocracia pretende em primeiro lugar viver, ou seja, conservar o emprego. Você entra na Cúria e logo percebe. Todas são pessoas amáveis, gentis, agradáveis, mas todas resguardadas, temerosas. Elas sabem que devem dar satisfação ao patrão. Por isso precisam agradar a todos, e por isso, não ter pensamento próprio ou conservar preciosamente escondido o seu pensamento próprio. Este se manifesta nas conversas entre empregados uma vez que o patrão está ausente, para desabafar. O ambiente é muito diferente do ambiente em que se acham as pessoas que estão na ativa, no meio do povo, engajadas em relações vivas.

Os funcionários da Cúria devem ser sempre moderados, não estar comprometidos com movimentos muito visíveis, a não ser que sejam da própria diocese. Não muito feministas, não muito negros, não muito políticos, pessoas bem comportadas. Não podem ser inovadores na pastoral, nem podem adiantar-se na frente do bispo ou do Papa. São servidores e adquirem a mentalidade de servidores. Eles usam muito a palavra evangelização porque ainda é a palavra que está na moda. Mas não estão muito metidos além do discurso.Conhecem muito bem os movimentos eclesiásticos. A Igreja é o seu mundo e justamente a Igreja é vista como um mundo particular, bem organizado, estável, conhecido e honrado na sociedade.

Qualquer burocracia precisa fazer méritos e por isso multiplicar atividades burocráticas : escrever relatórios, inventar novos regulamentos, organizar reuniões, semanas de estudo, congressos, todas atividades totalmente ineficientes, mas que servem para legitimar a existência da burocracia e por conseguinte dos empregos.

Em terceiro lugar toda burocracia tende a crescer, alguns dizem em 10% ao ano., Os burocratas sempre descobrem novas atividades, devem mostrar que estão esgotados pelo excesso de trabalho e que não dão conta. Sempre acham que precisa criar novos serviços e criar mais empregos. O que vale para qualquer burocracia, não vale também para a Igreja ? O número de empregados não aumenta sempre no Vaticano ? Não aparecem sempre novos órgãos, novas atividades, novos serviços ? Qual é a sua eficácia para a evangelização? Nunca se fazem avaliações sobre a eficácia de uma burocracia. Ela faz avaliações de tudo, mas nunca de si mesma.

No último meio-século a burocracia eclesiástica aumentou de maneira gigantesca. O clero passa uma boa parte do seu tempo em reuniões, ou para fazer relatórios ou projetos. Como dizia o humorista, a tarefa principal de uma reunião é marcar a reunião seguinte e inventar uma agenda. Na prática sempre se repetem as mesmas coisas indefinidamente porque as decisões tomadas pelas reuniões ficam no papel.

A burocracia substitui a mística e o discurso sobre a evangelização substitui a evangelização real. O clero tornou-se cada vez mais burocrático. A burocracia é a atividade que se acrescentou à administração dos sacramentos.

Por sinal, o modelo tradicional do clero formado pela Escola francesa do século XVII fazia do padre um ente dedicado ao culto. O padre devia ser uma pessoa consagrada, separada do mundo, dedicada de corpo e alma aos ritos sagrados. Era como o sacerdote de Jerusalém homem dedicado ao serviço de Deus nos sacramentos, distribuindo a graça de Deus ao povo.

Esta figura estava adaptada a um povo fiel organizado, disciplinado, unânime, o que se realizou de fato desde o século XVII e subsistiu mais ou menos até o final do século XIX e fragmentariamente até a segunda guerra mundial em certas regiões rurais. A religião era o centro da cultura e o sacerdote a pessoa central da sociedade, assim com o a igreja era o centro do povoado. Ora, hoje em dia esse povo não existe mais e a pessoa sagrada se encontra com um grupo diminuído de fiéis. A procura dos sacramentos supõe a fé, mas á fé é exatamente o que falta. A burocracia chegou em boa hora para ocupar o tempo deixado livre pela diminuição dos sacramentos.

3. Os novos tempos exigem que se passe do eclesiocentrismo ao cristocentrismo, da administração à mística de Jesus. Ora, quem vai fazer essa passagem ? Este é o problema dos ministérios. Seria o clero ? Mas o clero está a serviço dos sacramentos. E permanecerá a serviço dos sacramentos.

A prioridade não pode ser os sacramentos porque os sacramentos supõem a fé e a fé supõe a evangelização. A prioridade é o anúncio do evangelho, inclusive nas terras que já foram cristãs e não o são mais. Ora uma evangelização supõe um ministério de evangelizadores, um carisma especial, uma orientação de vida especial. Pode-se examinar o clero se chegará a conclusão de que o clero não tem estrutura para assumir essa tarefa.

Não se muda toda a psicologia de pessoas humanas. Quem foi formado para administrar sacramentos e cuidar da paróquia, não tem nem a mentalidade, nem o gosto, nem o jeito de mudar de atividade e de se tornar missionário. Alguns poucos poderiam fazer isso e o fazem de fato em certos casos, mas são exceções e não é possível que a exceção venha a ser a regra. Como classe o clero não pode ser o agente da nova evangelização. Não se muda um modelo construído durante séculos. Uma mudança do clero é impensável. Também uma mudança do seminário é impensável. É preciso buscar outra coisa. Por sinal o clero fará todo o possível para impedir que haja mudança.

Desde o final do século XIX aparecem muitos sinais. Aparecem manifestações de um mal-estar nos sacerdotes mais inquietos, mais sensíveis aos sinais dos tempos, mais conscientes dos desafios. Foram fundadas várias associações sacerdotais. Não resolveram o problema, porque não conseguiram mudar a classe clerical. Não conseguiram mudar a estrutura. Alguns achavam que uma forte espiritualidade poderia resolver o problema, mas uma espiritualidade sem mudança de estrutura na pode mudar nada.

Desde o final do século XIX apareceram também muitas vocações leigas e de movimentos leigos assumindo uma função missionária de fato. Logo mais, apareceu a Ação católica e os diversos movimentos seguintes. Muitos viveram heroicamente. Foram precursores, mas de modo geral não foram compreendidos.

Sucedeu que esses leigos não foram realmente aceitos, reconhecidos, e não ser lhes concedeu a autonomia indispensável. A JOC não convenceu a classe operária porque foi obrigada a permanecer dentro dos quadros da paróquia. Houve jocistas heróicos vivendo uma situação desesperada, solicitados pela vocação missionária e ao mesmo tempo impedidos pelo clero. Era preciso ser um santo ou uma santa naquela época para ser de Ação católica. Sucede que a Ação católica foi restringida ao papel de participação dos leigos na missão dos sacerdotes foi uma barreira intransponível. Não houve reconhecimento da necessidade de ministério de leigos com a suficiente autonomia. São Paulo teve autonomia para realizar a sua tarefa missionária. Porém não foi reconhecido como apostolado o trabalho desses leigos.

No entanto, a história mostra que a evangelização sempre foi feita por ministérios diferentes do clero. Algum novo ministério está em gestação neste momento embora a sua fisionomia ainda não apareça com suficiente clareza.Daremos a esse ministério o nome de missionário ou missionária.

O carisma de missionário existiu nos primeiros tempos. Nas cartas de Paulo, profeta ( 1 Cor 14). Os profetas desapareceram entre o 2o e o 3o século, não se sabe bem nem como, nem quando, nem porque.

Mais tarde, em cada virada importante da história da Igreja apareceu uma nova classe de evangelizadores. Na alta idade média tanto no Oriente como no Ocidente a evangelização foi assumida pelos monges porque o clero era totalmente ineficiente. A partir do século XIII, entraram os Mendicantes que assumiram a totalidade da evangelização. Há a esse respeito um texto famoso de s. Tomás afirmando que somente os Mendicantes assumem a evangelização e que se não estivessem, o clero nada faria para evangelizar ( Contra impugnantes Dei cultum et religionem, p. 407-408, 418).

Da mesma maneira hoje em dia a Igreja precisa de um novo carisma com reconhecimento oficial. É um carisma ao lado do carisma de governar que é o do clero. Assim como houve os apóstolos e depois os profetas, precisamos dos missionários que possam agir com autonomia, sem serem condenados a levar os novos cristãos para a paróquia e a estrutura tradicional, o que é tarefa impossível.

A partir de Trento, o clero, ou seja o carisma de governo foi eliminando todos os demais carismas. Na legislação atual os Concílios são assembléias de bispos No entanto até nos Concílios medievais os abades, ou seja, os monges, e diversas categorias de sacerdotes eram membros oficiais juntamente com os bispos. E muitos leigos participavam. Quanto aos 7 primeiros Concílios ecumênicos, eles foram convocados pelo Imperador que tinha uma voz importante.

Quando houver um nov Concílio, muitos leigos terão que ser convocados, não como leigos, mas como missionários, ou seja, como dotados de um carisma especial.É verdade que no Vaticano II houve um resto de presença de não bispos, como alguns superiores maiores e alguns ou algumas observadores. Mas é algo tão pequeno, tão insignificante. Por outro lado os religiosos deixaram de ser evangelizadores. Pela vontade romana, transformaram-se rapidamente em membros do clero ou auxiliares do clero no caso das mulheres, e foram integrados na missão de governar.

Não se pode dizer que isto seja impossível em virtude da estrutura da Igreja que missionários ou missionárias possam agir com legítima autonomia. O exemplo da prelatura pessoal mostra que é perfeitamente possível a existência de uma rede missionária ao lado das dioceses e das igrejas governadas tradicionalmente pelo clero. As reticências que houve quando foi estabelecida a prelatura pessoal referiam-se sobretudo ao sujeito que recebeu esse privilégio, muito menos do que a instituição em si.

A grande diferença entre o clero e os missionários é que o discurso do clero é discurso sobre a Igreja, e o discurso dos missionários é um discurso sobre Jesus Cristo. O discurso do clero é administrativo e o discurso do missionário é místico. A preocupação do clero é a Igreja, a preocupação do missionário é Jesus. Um discurso sobre a Igreja somente convence os que já estão convencidos e não interessa os outros. A Igreja pode impressionar pelo seu poder, mas não interessa. Somente Jesus interessa.

Ora, a preparação de um missionário é totalmente diferente.A sua preocupação também. O seu comportamento também. O seu relacionamento com as pessoas também. Um membro do clero nunca se esquece de que é “autoridade”. Mons. Expedito Medeiros o inesquecível vigário de São Paulo de Potengi (RN) durante 53 anos contava como foi enviado para a paróquia pelo seu bispo dom Marcolino. O bispo lhe disse “: Expedito, lembre-se: você é autoridade!” . Mons. Expedito ria a gargalhadas. Muitos outros não dão risadas, mas levam a coisa muito a serio. O missionário não é “autoridade”, mas o humilde peregrino que vem pedir hospedagem.

4. O anúncio do evangelho precisa de um projeto que torne o reino de Deus mais concreto, mais próximo. Não basta dizer que vem o reino de Deus. Desse jeito a fórmula não quer dizer nada. A vinda do reino de Deus deve ser entendida como algo mais concreto para poder interessar, algo que esteja relacionado com a vida da humanidade numa época determinada. O reino de Deus toma diversas figuras na história. Qual será a figura para os nossos contemporâneos ?

Nos tempos de s. Paulo, todos esperavam a volta iminente de Jesus. Era preciso estar preparados para acolher essa nova e última visita que seria a conclusão de toda a história da humanidade. Esta espera de uma parusia iminente permaneceu durante séculos, e, depois deixou de ser a consciência comum dos discípulos. Em certos momentos da história esta crença na vinda iminente de Jesus reapareceu, particularmente em certos momentos de desastres totais como a grande peste do século XIV, mas nunca mais essa vinda iminente voltou a ser o tema principal.

Quando ficou evidente que Jesus não voltaria tão cedo, foi preciso definir um projeto para o tempo intermediário. Durante os séculos da perseguição, o projeto era formar comunidades que fossem ilhas de santidade no meio de um povo de corrupção que era o Império romano. Era tornar o reino de Cristo presente pela superioridade moral dos cristãos. Estes eram vítimas de uma crítica permanente e de uma perseguição sempre ameaçante. Era preciso resistir e viver na santidade de Cristo como ser no meio do mundo o fermento que faz o valor do mundo. Ser o sal , ser a luz que ilumina o mundo a partir da pequenez, da humildade, como testemunho da força de Deus, destruindo a corrupção da idolatria e dos vícios,mostrando um exemplo de pessoas livres num povo livre. Os cristãos tinham um alto sentimento de superioridade humana porque se sentiam mais livres. Os outros podiam ter raiva, inveja, ódio, mas era justamente porque não podiam desfazer-se da impressão de que de fato os cristãos eram superiores. Era preciso persegui-los justamente porque eram superiores e a presença deles era uma acusação permanente. Esse ódio era frágil e podia passar para o amor em pouco tempo se as circunstâncias eram favoráveis. Foi o que aconteceu com Constantino. O ódio virou amor, pelo menos em muitas pessoas.

No entanto, com a conversão do Império à Igreja, ou a conversão da Igreja ao Império, não se conseguiu formular um projeto válido que pudesse convencer os cristãos. Houve o projeto do Império cristão realizado na cristandade bizantina, mas esta aliança entre a Igreja e o Império não convenceu apesar de triunfar politicamente. No Ocidente o Império caiu e a tentativa de Carlos Magno não conseguiu ressuscitá-lo, nem os Imperadores germânicos. No Oriente o sistema durou em Constantinopla até a ruína do Império pela conquista pelos Turcos. Prolongou-se na Rússia até hoje, mas sem convencer.

Na época do Império cristão nasceu como tronco principal da Igreja o monaquismo e até o hoje o cristianismo oriental está centrado na vida monástica. Nos mosteiros está a presença do reino de Deus em forma de iluminação. Ali está a imagem do reino de Deus, mais do que o próprio reino. O Oriente vive da contemplação das imagens. Foi um projeto que deu certo até hoje no Oriente pode ainda continuar. Não sabemos até que ponto pode levar o evangelho aos outros povos. Isto depende deles. Desde o Brasil não podemos influir nos projetos das Igrejas orientais. Por outro lado, esta tradição oriental conservou uma mística que é e pode ser muito útil para uma Igreja ocidental burocratizada. O contato com as Igrejas do Oriente somente pode enriquecer os cristãos do Ocidente com todas as suas reservas de misticismo. Basta pensar por exemplo na influência do Peregrino russo.

No Ocidente sobre as ruínas do Império e nas terras virgens da Germânia nasceu um o projeto novo : construir um mundo novo, uma sociedade cristã. Tudo estava em ruínas. Tudo estava para se fazer: agricultura, transporte, artesanato, trabalho dos metais, construções, artes, arquitetura, pintura, escultura, música, literatura, política, paz social, religião .

Era o projeto de fazer tudo isso no quadro de uma sociedade totalmente cristã. Foi um soma de trabalho incrível. Gerações e gerações dedicaram-se a construir igrejas e catedrais, cidades, instituições, artes, escolas, ciências enfim todas as bases de atual civilização ocidental. Tudo com técnicas muito elementares que foram melhorando pouco a pouco mas que exigiram um trabalho incrível. Esse povo tinha um projeto na mente e no coração. Trabalhou sem medir os esforços. Construiu um mundo que tinha todos os sinais cristãos. Tinha construído o reino de Deus na terra. Nos portões das catedrais estava Cristo rei governando esse mundo cristão. Esse povo tinha um otimismo, um entusiasmo extraordinário. Era realmente criador de um mundo. Este esforço atingiu o seu momento culminante no século XIII. Depois disso tudo continuou ainda com muitos problemas, já com sinais de decadência. Dentro da sociedade cristã houve pouco a pouco um movimento de autonomia dos leigos: autonomia na política, na economia, nas artes, na ciência, inclusive na religião com o cisma protestante.

Diante das contestações de novas expressões políticas, sociais, culturais, a Igreja católica não quis reformar-se, Não quis abrir espaço, quis manter o controle sobre o desenvolvimento da civilização ocidental, o que provocou os cismas, e a oposição crescente da modernidade. A partir do Concílio de Trento a Igreja católica endureceu o seu projeto, quis prolonga-lo e foi obrigada a dedicar-se a uma defensiva cada vez mais apertada. A Igreja apareceu cada vez mais ameaçada. Mas foi somente depois da primeira mundial que o projeto de cristandade fracassou definitivamente e foi abandonado pelas sociedades européias e americanas. Afinal a imensa estratégia defensiva não conseguiu salvar a cristandade Não é preciso repetir aqui o que já foi dito centenas de vezes em publicações excelentes.

5. Agora o que ? Vamos fazer uma nova tentativa para refazer a cristandade, com algumas adaptações ? Vamos fazer de novo uma Europa cristã e fazer da Europa a condutora da humanidade ? Puros sonhos, mas que estão ainda na cabeça de muitos católicos, sobretudo dos movimentos fundamentalistas. Deixemos de sonhar !

O fato é que estamos sem projeto. Este é o desafio mais urgente. Vaticano II não ofereceu um verdadeiro projeto. Gaudium et Spes não é um projeto. É uma adaptação, uma tentativa de adaptar os católicos aos desafios da sociedade contemporânea, sem cortar com o projeto anterior. Na América latina em Medellín havia um projeto, um começo de projeto. Ele foi condenado e rejeitado, finalmente abandonado.Permanece na teimosia dos velhos e nas pequenas minorias abraámicas, como dizia dom Helder. Foi uma pena. Na realidade foi um desastre. Na América latina predomina a confiança na reconstrução de uma cristandade, pelo menos em forma implícita porque não há mais projeto. A pastoral consiste em continuar, continuar, prolongar.Tudo isso será em vão.

Muitos falam em espiritualidade. O nosso século está buscando uma nova espiritualidade, dizem muitos. É isso mesmo, mas a palavra projeto exprime melhor a necessidade atual. Espiritualidade evoca uma vida mental, interior, vivida dentro do recinto da Igreja, um conjunto de idéias, sentimentos, atitudes, gestos religiosos, uma certa organização do religioso.Não basta. É preciso agir, e, para isso, ter um projeto. A espiritualidade está dentro do projeto.

O projeto é o que a Igreja pretende fazer no mundo atual. Não basta dizer que vai evangelizar, porque essa é s sua tarefa em todos os tempos. Sucede que somente se evangeliza dentro de um projeto concreto. Trata-se de aterrissar, de entrar no mundo de hoje tal com o é, perguntar-se: o que fazemos aqui ? O que significa evangelizar neste mundo em que estamos ? As novas gerações sentem a ausência de um projeto. Não precisa ter na mente um projeto pormenorizado capaz de prever as atividades de todos. Trata-se de um projeto global, como uma tarefa para séculos, assim como houve um projeto nas origens, e como houve um projeto na idade média. Voltar ao passado, prolongar uma cristandade que morre não constitui um projeto válido embora muitos jovens se deixem iludir pelos movimentos fundamentalistas que pretendem refazer o passado.

Precisamos buscar o lugar da Igreja nesta sociedade atual, que entra totalmente nas tecnologias e no sistema econômico mundial, mas onde os conjuntos culturais antigos lutam para sobreviver e buscam uma saída. Pois o problema do cristianismo aflige também as grandes religiões mundiais, e, com mais força ainda as religiões de conjuntos menores. Não se trata de construir uma fortaleza dentro de um Império pagão. Também não se trata de buscar um mundo espiritual no deserto abandonando o resto do mundo ao pecado. Não se trata de construir um mundo sobre um vazio de mundo como depois da destruição do Império romano. As circunstâncias são diferentes.

6. A idéia básica de um novo projeto é a Carta a Diognetes. Esse programa não foi realizado naquele tempo porque circunstância não era favorável. Hoje em dia os cristãos não podem dirigir o mundo, mas podem estar presentes em todas as partes da sociedade humana Podem ser o sal da terra, a luz do mundo. Mas, para isso precisa estar no mundo. Precisa sair da fortaleza e entrar no mundo. Pois na atualidade o evangelho não está no mundo. Está nas ilhas protegidas das instituições católicas, bem guardado.

Multiplicando instituições católicas não se chegará a nada. Será possível aumentar o poder social ou político da Igreja, mas com a condição de ser um poder ao lado de outros poderes, sem nenhuma possibilidade de evangelizar os outros. O lugar dos cristãos é no meio dos outros, no meio de todos os grupos, movimentos, experiências que surgissem no mundo de hoje para fazer outra sociedade, outro mundo. Os cristãos podem ser os mais sinceros, os mais fiéis, os mais perseverantes, os mais dedicados aos outros, os melhores portadores da esperança, da fé e do amor que animam essas mulheres e esses homens. Aprender a estar com todos e ali o sal cumpre o seu papel de sal. Os cristãos podem ser os que nunca se deixam comprar, nunca entram num sistema de mentira e de corrupção.Par isso é preciso estar dentro.

Será a visibilidade da Igreja. Não será a visibilidade dos monumentos das instituições dos meios de comunicação, mas a visibilidade dos membros em todos os setores da vida social pelas qualidades superiores e pela disponibilidade para o serviço.

Haverá dois níveis na Igreja como sempre houve. Há um nível de pessoas muito mais radicalmente comprometidas com o evangelho, como foram outrora os monges, e os religiosos ou as religiosas. No futuro serão sobretudo leigos, assim como o mostra a evolução atual dentro da Igreja. Isto não exclui missões especiais de religiosos ou religiosas, mas eles e elas serão muito menos numerosos do que outrora.

Haverá outro nível que é feito de uma grande multidão de pessoas que estão caminhando para o evangelho, mas ainda não estão com disposição para entrar com um compromisso total. Será necessário definir melhor essa condição e abrir espaço para todos aqueles que não podem ou não querem submeter-se a todo o conjunto da tradição cristã. Será a grande maioria. Estarão influenciados, estarão colaborando mas de modo limitado.

Trata-se de uma novidade. No tempo da cristandade era tudo ou nada. Doravante haverá muitos que estarão entre o tudo e a nada e não podem ser pressionados, mas é preciso respeitar a liberdade, a lentidão, os ritmos de todos..

O lugar da Igreja é no meio do mundo. Na cristandade o mundo inteiro era cristão e estar no meio do mundo era simplesmente estar presente. Doravante a Igreja não está na maior parte do mundo (política, economia, cultura, etc.) A presença da Igreja manifestava-se pelos edifícios: catedrais, matrizes, capelas no meio da cidade, o maior e mais alto edifício da cidade. Este tipo de presença já não significa nada.

O desafio é estar presente no meio dos homens e as mulheres, no mundo feito de seres humanos e das suas relações. Não adianta uma presença monumental, se ninguém lhe presta atenção.

Este projeto supõe várias condições prévias. Em primeiro lugar é preciso reconhecer e afirmar claramente com uma consciência forte que o mundo atual não é cristão e que a sociedade atual não é cristã. Os objetivos da sociedade atual não são cristãos e simplesmente não são humanos. Não se trata somente de defeitos na prática, mas de um vício radical na concepção da finalidade da sociedade. A sociedade atual tem como prioridade a economia, isto é, o dinheiro. Este está solto e age como máquina opressora que se subordina todos os seres humanos. É preciso proclamar isto claramente. Ainda que isso desagrade aos Estados Unidos ou a governos latino-americanos.

Em segundo lugar é preciso ter muita consciência de que os cristãos por si sós não terão capacidade nem vocação para construir um mundo novo. Não poderá ser um mundo cristão, uma cristandade como antes. É preciso abandonar este sonho que ainda está presente sobretudo no clero, e muitos leigos acreditam no poder do clero para realizar uma obra impossível e obsoleta.

Por conseguinte é preciso unir-se com, todos os homens e mulheres de boa vontade que também querem construir um mundo diferente. O comportamento da cristandade era exatamente o oposto: era agir de modo homogêneo, todos iguais, todos realizando o mesmo plano conduzido por uma forte autoridade. Trabalhar em conjunto com outros é diferente. Não há autoridade universal, não há plano de conjunto pensado por uma autoridade central, não há homogeneidade. Há diálogo e formação de alianças, colaborações, ações comuns.

7. Por um lado, o lugar dos cristãos é o mundo. Por outro lado, eles precisam se encontrar para formar o núcleo da futura comunidade humana. O caminho de Jesus leva ao reino de Deus que é uma imensa comunidade.A Igreja é comunidade e mostra o modelo da comunidade mundial nas suas inúmeras comunidades dispersas pelo mundo.

A comunidade reúne-se em torno de Jesus Cristo. A memória de Jesus tem dois aspetos: o evangelho, e a eucaristia.. A propósito desta memória, algumas modificações são necessárias. A leitura da Bíblia deve partir da vida, das circunstâncias e das perguntas que nascem da vida. A partir daí o cristão, ou, melhor dito, a comunidade cristã busca na Bíblia a resposta que ilumina o caminho. Na cristandade fazia-se a leitura contínua porque a história era uniforme e nada de novo podia acontecer. Não havia necessidade de resposta urgente. A leitura valia para a vida toda. No momento necessário voltaria a memória dos textos iluminadores. No futuro, haverá sempre urgências, sempre novidades, sempre dúvidas e necessidade de respostas. O cristão que está no mundo não tem interesse na leitura continua da Bíblia: quer saber o que ela diz aqui agora.

Quanto a eucaristia, há um fenômeno bastante generalizado: o número de pessoas que assistem ou participam da missa está diminuindo de modo surpreendente. Há muitas explicações que já foram dadas. Quase todas acusam circunstâncias exteriores. Explicam que há muitas circunstâncias que afastam o povo da missa. A culpa está nas pessoas que não aparecem mais. Dificilmente os sociólogos procuram na própria celebração da eucaristia a explicação.

No entanto a forma como se celebra a eucaristia é um fato cultural, produto de circunstâncias históricas e pode variar muito, assim como variou no passado. O Concílio Vaticano II introduziu algumas tímidas reformas, que não respondiam aos problemas de fundo. A liturgia da missa perdeu todo significado. As comunidades fazem dela uma reunião, outros fazem um show. Nada disso resolve porque o problema é de fundo e o povo cristão precisa da eucaristia com o seu significado verdadeiro e não como festa, reunião de irmãos ou reunião de oração ou de louvor.

Um problema de fundo é o sacrifício. Toda a liturgia atual está organizada em função da idéia de sacrifício. É verdade é que se trata de uma antiga tradição. Nessa tradição a idéia de sacrifício era co-natural, era parte da cultura comum a todos. Não vamos entrar aqui em discussões teológicas. Vamos supor que a atribuição do conceito de sacrifício à eucaristia faz sentido. No entanto, o tema do sacrifício não esgota todo o conteúdo de revelação da eucaristia. Na cultura atual era muito melhor destacar na celebração outros aspetos. O conceito de sacrifício é inassimilável hoje em dia. Que Deus possa querer que se lhe ofereça sacrifícios é incompreensível.Ir à missa para oferecer um sacrifício a Deus é algo incompreensível. Não se entende como Deus que é amor gratuito, pode exigir sacrifícios ou receber sacrifícios com agrado.A gratuidade é um atributo básico do amor. Aliás, na prática as pessoas que vão à missa, têm outras motivações, mas estas motivações afastam da eucaristia em lugar de aproximar.

Podemos enxergar a eucaristia como o dom que Deus faz à humanidade. O dom da vida, o dom do alimento, o dom do seu Filho, o dom do Espírito, o dom da aliança, do acordo, do laço entre a comunidade e ele e dentro da comunidade.

Porque Jesus se dá em forma de comida e de bebida ? Na Bíblia comida e bebida estão em função da viagem. A páscoa do Êxodo é a comida antes da viagem. O caso de Elias também, também a comida oferecida por Abraão aos três enviados de Deus em Mambré.A eucaristia é o alimento para a missão, está em vista da caminhada no meio do mundo. Ela acompanha o envio, a vocação. Ela mostra que a Igreja existe para caminhar. Esta perspectiva é muito mais compreensível. Poderia servir para a elaboração de outra forma de celebração.

Futuramente quem for para a eucaristia, irá para se preparar para a missão em comunhão com os outros que têm o mesmo compromisso. Não irá por obrigação. Não irá para manifestar a sua submissão a Deus como na cristandade onde a missa era como um dever cívico ( os reis iam à missa todos os dias como Felipe II como dever político já que a prosperidade do reino dependia de Deus).

Ter um projeto é condição inelutável do século XXI. Alguns acham que não é necessário. Quando a cristandade entrou em decadência na mente do povo cristão, o clero propôs aos católicos o desafio da salvação da alma. “Salva atua alma”, dizia o discurso missionário.Diz-se que s.. Francisco Xavier não conseguia dormir pensando nas milhões de almas que se perdiam. Era preciso salvar almas, o maior número de almas. Por isso era preciso batizar com a maior urgência, batizar o maior número possível para que se escapassem do inferno. De fato o tema da salvação da alma foi eficaz durante séculos e ofereceu uma nova legitimidade à Igreja. A Igreja oferecia os meios de salvação. Os protestantes também insistiam na salvação da alma, mas os católicos sempre respondiam que somente a Igreja católica tinha todos os meios de salvação das almas.

A salvação da alma não é um projeto suficiente. Não expressa o que está nos evangelhos. Jesus quer um mundo novo agora aqui. Convoca os discípulos para dar saúde aos homens feridos e abandonados no caminho, para estabelecer uma fraternidade, elimina as estruturas de injustiça e de dominação que havia n o seu povo, para realizar na terra o sonho da promessa feita a Abraão. O projeto de Jesus envolve a humanidade interna como unidade múltipla e viva. O projeto de Jesus começa a realizar-se já, não somente nos mosteiros, mas na cidade dos homens e mulheres. A luta contra o pecado e o diabo começa já. Por isso, precisamos de um projeto coletivo, diferente dos anteriores que passaram, como os seus tempos históricos. Para olhar para o futuro precisamos de um projeto. Sem isso continuaremos sonhando em refazer o passado.

O projeto não virá da parte de cima da Igreja. Os que governam são demais preocupados pelos problemas imediatos e pela sua situação tendem a defender o que está estabelecido. Todo governo tende a ser conservador, e, no campo da religião, isto vale mais ainda. Basta evocar o que acontece atualmente em todas as religiões do mundo e ver qual é o comportamento das hierarquias.

8. Para os cristãos, o privilégio dos pobres é tão evidente que podemos presumir que o novo projeto será imaginado, pensado e vivido no meio dos pobres. O que inclui a participação de pessoas de todas as categorias sociais ou culturais.

Um projeto não pode aparecer um dia já acabado, completo. Será uma marcha lenta de progressiva que pode durar gerações. A demora não importa. O que importa é saber aonde vamos. Muitos têm a impressão de que não sabemos aonde vamos.

Qual poderá ser o papel da hierarquia ? Vamos pedir que seja tolerante, paciente, humilde. Vamos pedir que seja aberta às iniciativas, às experiências, aos grupos que nascem sobretudo no mundo dos pobres. Não se lhes pode exigir que as novas experiências sejam perfeitas, completas, que ofereçam uma resposta total a todos os desafios. Um projeto vai aparecer na convergência de milhares de experimentos e de grupos novos. O que necessitam, é a liberdade suficiente, o encorajamento, o apoio, porque os pobres se sentem fracos e desamparados quando não contam com a compreensão dos padres, dos bispos ou do Papa.

Teremos que pedir que não se repita o que aconteceu na América latina depois de Medellín. Com imensa tristeza, não podemos não nos esquecer da maneira como foram tratadas pessoas como dom Helder Câmara, dom Leônidas Proaño, dom Samuel Ruiz, dom Oscar Romero, dom Enrique Angelelli, e também cardeais como o cardeal P.Evaristo Arns ou Aloísio Lorscheider. Quantos sacerdotes, religiosos, religiosa, quantos leigos ! Quanta dor!. Tanta incompreensão, intolerância, repressão ! O que se pede à hierarquia, é que nunca mais se repita o que aqui sucedeu. Foi destruída uma grande experiência que podia iniciar um caminho novo dentro da América latina. Tenham paciência ! Não condenem, não desanimem os movimentos dos pobres ! Procurem conhecer, compreender, aceitar mesmo quando não compreendem. Tantos sofrimentos inúteis ! Quantas energias perdidas ! Não pensem que deve gerar o projeto, impor uma orientação. Escutem a voz tímida e fraca dos pobres !

Afinal, qual é o papel da autoridade na sociedade ? Em primeiro lugar, a autoridade tem por missão defender os pobres contra o egoísmo dos ricos.Há comunidades pobres e ricas. Há paróquias pobres e ricas. Há dioceses pobres e ricas. Há realmente solidariedade ? As dioceses ricas ajudam realmente as dioceses pobres do mundo ou mandam apenas algumas esmolas ? As paróquias ricas ajudam realmente as paróquias pobres ? Há movimentos riquíssimos na Igreja no Brasil atualmente. Há comunidades muito pobres.Qual é a ajuda, a colaboração, a solidariedade ? Espontaneamente pouco está sendo feito. Porque a hierarquia não cobra um imposto dos movimentos ricos para ajudar os movimentos pobres de tal sorte que haja igualdade e realmente fraternidade entre todos os católicos ?

O papel da autoridade é justamente convencer os ricos que devem ajudar os pobres para se chegar a uma certa igualdade. Não é isso que faz Paulo em 1 Cor 8-9 ? Não inculcou aos ricos a necessidade de estabelecer uma igualdade com os pobres ? Paulo não denuncia as eucaristias falsificadas nas quais os ricos fazem ostentação das suas riquezas ao lado dos pobres que têm uma comida miserável ? Este é o papel básico da autoridade na Igreja. Isto vale em todas as instituições humanas, mas, é claro, primeiro na Igreja.

9. Chegamos assim ao assunto mais delicado de todos : o poder. Durante 15 séculos o clero exerceu o poder supremo na sociedade de cristandade. Era a primeira ordem na sociedade e todas as demais autoridades eram submissas ao clero. Na prática houve muitas rebeliões das outras autoridades, mas em princípio o clero estava encima de todas, desde o poder do Papa que é o generalíssimo dos exércitos cristãos nas Cruzadas da cristandade, até o poder do vigário de quem tudo depende no município.Esta história marcou e ainda marca profundamente o clero. A primeira coisa que um jovem aprende inconscientemente no dia em que entra no seminário é que ele se torna poder. A doutrina procurará ensinar-lhe que esse poder é o poder de Jesus Cristo, mas isso é teoria, palavra, enquanto a autoridade entra pela pele no corpo de quem está aí. Morei 10 anos num seminário como aluno e 10 anos como professor. Senti em carne própria esse fenômeno. É algo inconsciente e a maioria não percebe. Quem presta bem atenção não pode não perceber.

O diretor espiritual está encarregado de fornecer uma forte dose de argumentos espirituais: espírito de serviço, a disponibilidade, o amor aos leigos e aos pobres, a imitação de Jesus e os exemplos de tantos Santos. Tudo isso é escutado com muita atenção pelos alunos porque é isso que os motiva e aumenta a sua auto-estima. Mas tudo isso é fenômeno de consciência. Uma vez que se entra na prática, tudo é diferente. O que está sempre aí é o fantasma do poder. O que o diretor espiritual devia fazer era justamente mostrar ali a presença do diabo que se oculta. O mesmo diabo que apresentou a Jesus as tentações do poder, está presente no meio do clero procurando oferecer-lhe a mesma coisa : o poder. Jesus resistiu à tentação . O clero sempre resiste ? Se estivesse mais consciente do perigo resistiria mais.

O poder do clero não se exerce como os outros poderes. Não é brutal como o poder militar. Não é insensível como o poder da burocracia. É um poder de sedução, de pressão., de sugestão, um poder que se exerce mais pela presença, por sinais discretos,acompanhados de boas palavras encorajadoras.

O clero perdeu quase ( quase!) todo o poder na sociedade civil. Em compensação aumentou muito o seu poder dentro da Igreja, nesse mundo fechado que é a Igreja depois da Separação entre Igreja e Estado.

O poder do clero está baseado em primeiro lugar nos sacramentos. Os sacramentos agem ex opere operato . Sem os sacramentos não há salvação e somente o sacerdote pode administrar os sacramentos. Por esse meio, ele pode dizer quem irá para o céu e quem irá para o inferno. Ele detém as chaves. Isto é um poder terrível. Em segundo lugar o pode do clero está fundado na sua ciência. Ele sabe o caminho para chegar ao céu. Sabe tudo o que é preciso crer. Ela sabe todas as regras da moral. Ele sabe todos os preceitos do direito canônico. Os leigos não sabem e devem aprender da boca dele.

Claro está que nenhum sacerdote vai reconhecer o seu comportamento nesse retrato. No entanto, o esquema está no seu inconsciente. Alguns chegam a ter consciência e procuram salvar-se dessa formação. Eu mesmo confesso que não consegui completamente e não perdi esse inconsciente inculcado pelos muros dos seminários. Ainda atuo como a pessoa que sabe e pode ensinar aos outros.

O que é que o clero sabe ? Sabe todo um sistema simbólico. Mas não sabe como se vive o evangelho no concreto de uma vida vivida na sociedade que existe. Disto ele não faz a menor idéia e precisa aprender tudo. Que adianta recitar dogmas, preceitos, regras de disciplina se não se sabe como viver tudo isso no concreto? O cristianismo não é uma técnica que se pode aprender numa escola. Cada pessoa precisa inventar a sua vida no meio de um caos de situações e circunstâncias.

O poder do clero está inscrito no código de direito canônico. Este deriva do direito romano neste sentido de que define os poderes n a Igreja (99% dos cânones). Há outras concepções do direito, concepções que prevaleceram em todas as sociedades não-imperiais, não ditatoriais : o direito define as liberdades e os direitos.

Precisamos de um novo direito se queremos entrar num novo projeto de Igreja no mundo atual. Precisamos de um direito que protege os fracos e limita os fortes, protege os leigos e limita os poderes do clero.

A estrutura atual do direito canônico infantiliza os leigos. Forma pessoas submissas, sem pensamento próprio, tímidas, sem combatividade, sem iniciativa, sem preparação para o diálogo ou a deliberação, com o resultado de que não provocam conversões. Há exceções, porque há sempre algumas pessoas que conseguem dominar o sistema. Mas a maioria entra no sistema e dentro do sistema é muito difícil chegar ao um amadurecimento espiritual. Muitos esperam que o clero lhes diga o que devem fazer. Um laicato desse jeito não poderá ser o fermento na massa ou o sal da terra.

Sucede que ultimamente apareceram movimentos e grupos totalmente desequilibrados, psicologicamente desequilibrados e completamente fora da cultura. Surgem com o beneplácito das autoridades. A CNBB teve o bom juízo de afastar o TFP. Porém, há hoje em dia novos grupos que são tão loucos como o TFP. Esta é a conseqüência de uma falta de amadurecimento e de uma falta de diálogo, discussão e deliberação entre os leigos católicos..

O sistema esteriliza. A presença dos católicos na vida social, cultural ou política é muito discreta. Onde estão os Alceu Amoroso Lima de hoje ? Mas isto é um fenômeno mundial, não é o próprio do Brasil e de certo modo o Brasil ainda está numa situação melhor do que muitos outros países, por exemplo, os países europeus.

Tratando-se do poder, o leitor neste momento espera que algo se diga da expressão mais radical do poder na Igreja católica. Mas não é preciso. Tudo já foi dito por tantos autores. Desde o Vaticano II tudo já foi dito, mas nada vai muda até que se manifeste outro rosto da Igreja construído desde as bases.

10. Voltemos ao projeto. Para entrar num novo projeto, será necessário assumir uma atitude muito mais clara contra o sistema global que se está implantando em todos os países do mundo. As autoridades políticas entregaram a conduta do mundo às grandes entidades financeiras e industriais que de fato conseguem organizar a sociedade de tal modo que tudo concorra para a acumulação do capital de modo indefinido. A meta é crescer mais para fazer mais dinheiro, para fazer mais dinheiro para fazer mais dinheiro sem fim.Com a promessa de que no final dessa história todos os seres humanos terão uma vida feliz.

As autoridades políticas abdicaram. O que aconteceu recentemente na Europa é muito significativo. Ainda bem que houve uma revolta dos povos na França e na Holanda para lembrar que existem também os homens e as mulheres e não somente o dinheiro. Todos os governos tinham capitulado diante do poder financeiro. Assim mesmo, esse protesto pode ser abafado pelos poderes financeiros dominantes.

Felizmente há no mundo inteiro uma voz que se levanta do meio dos povos dominados, um grito de protesto e de libertação.O Fórum Social Mundial é um pequeno sinal. Qual será a atitude dos cristãos ? Pode ser que o clero diga que a Igreja está agindo por meio da doutrina social da Igreja. Porém, esta doutrina está elaborada de tal maneira que todos podem se identificar com ela. Está tão balanceada que serve para todos e não define uma atitude. A doutrina social estará sempre cheia de compromissos com os poderes estabelecidos.Para agir, é preciso saber qual é o adversário, qual é a meta e quais são os meios para vencer. Isto não deve ser dito pelo clero ou pelos podres da Igreja, mas pelo próprio povo cristão.

Os cristãos precisam elaborar uma atitude a partir dos movimentos da base. Eles devem e podem constituir uma força importante para a superação deste modelo que nos domina e para a formação de outra sociedade.Porém, é preciso que os cristãos vejam claramente aonde vamos e o que devemos fazer. Não olhem para o passado. Não tenham saudades do passado. Não tenham a ilusão de que o passado voltará e que as forças conjugadas do Opus Dei, dos Legionários de Cristo e outros movimentos serão suficientes para ressuscitar uma cristandade moribunda. Sem lucidez e coragem, os cristãos ficarão fora da história, privando-a dos recursos dos quais são depositários. Irão buscar o reino de Deus lá onde não está e não o descobrirão lá onde está.

Para entrar no concreto: onde está agora o ponto mais sensível, o desafio maior ? Onde está a maior pobreza, a maior opressão, a maior exclusão ? Na África. O resto do mundo deixa a África apodrecer e morrer. Estão tirando dela o petróleo e as matérias primas como os metais. O resto, ou seja, os africanos, está abandonado. Os grandes fizeram tudo para impedir a União africana de todos os países negros : “divide e impera”. Isto provocou inúmeras guerras e ainda subsistem muitos focos de guerra. Há um gigantesco racismo a nível mundial. Ninguém quer ver, ninguém quer olhar, ninguém se sente comprometido, questionado.

Em 2005 os G8 tomaram como objeto das suas considerações em Edinburgh na Escócia o tema da África. Aí tivemos a mais escandalosa expressão da hipocrisia do mundo dos ricos. Resolveram dar algumas esmolas aos africanos. Estas esmolas com certeza vão cair nos cofres dos usurpadores num banco situado num paraíso fiscal. Esse dinheiro acabará voltando ao seu país de origem e nada mudará na África.

O que se chama ajuda , ajuda finalmente as pessoas que já são privilegiadas. A ajuda dificilmente chega aos que realmente precisam dela. Há cortinas de funcionários que se encarregam de filtrar as ajudas. Se não há programas globais, continentais de agricultura, de criação de indústrias, de educação, de saúde, não haverá salvação. As empresas privadas nunca irão ajudar os camponeses a melhorar a agricultura. Nunca irão fundar as industrias necessárias, nunca irão criar os sistemas de transporte. Nunca irão permitir que os africanos possam exercer um controle sobre as empresas que exploram os minerais. Somente grandes projetos continentais poderão realizar essas tarefas que são a longo prazo. Sem falar do reflorestamento do Sahel, da utilização das águas disponíveis e um sem fim de necessidades. Tudo isso interessa somente os africanos. Os outros não teriam nenhum interesse no desenvolvimento da África. Seria uma ajuda desinteressada . Os cristãos poderiam com a ajuda de muitos outros de boa vontade convencer a opinião pública de tal modo que os povos ricos promovam planos de desenvolvimento continental ? Dinheiro não falta. Mas quem tem dinheiro só quer fazer mais dinheiro, e não vai gratuitamente sacrificar uma parte das suas ambições. Quem poderá convencer ou forçar os poderosos ? Quantos milhões de manifestantes serão necessários ?

Os africanos são os cristãos mais fiéis. Também são os mais submissos que aceitam sistemas religiosos tão alheios à sua própria cultura. As Igrejas africanas são fator de libertação no seu país ? Qual é o papel da Igreja no continente? A situação de dependência em relação à Europa ainda é muito forte. As Igrejas ainda são mendigas que pedem a sua subsistência à ajuda européia, porque se lhes impõe um modo de ser que exige recursos materiais que não têm. Tanta dependência! E os cristãos da Europa estão com boa consciência. Acham que ajudam realmente, mas alimentam um sistema religioso tão dominador que as Igrejas africanas não podem criar nenhum modelo eclesial adaptado ao seu modo de ser.

E o Brasil ? Tantos laços étnicos ! O maior país católico do mundo envia alguns missionários para África. Quantos ? O Brasil não pode ser em Roma o advogado da África ? Não pode falar um nome da cultura negra, africana ? Não pode inclusive experimentar expressões, liturgias, formas comunitárias que também poderiam ser úteis aos africanos ? Não poderia reforçar uma Igreja mais africana ? Não poderia colocar África na ordem do dia? Aí estão os mais abandonados, os mais necessitados. Os pobres estão na África em primeiro lugar. Os pobres do Brasil poderão ajudar os pobres da África ? Não têm dinheiro. Mas têm a força do Deus.

Tudo isso é sonho. Desde o século XIV o sistema católico esforçou-se para impedir os sonhos, e para impor uma estrutura imutável. A maioria dos batizados já não aceita essa estrutura e os que estão fora não se sentem em nada atraídos por ela. Diante disso nós continuamos tranqüilamente tratando do imediato. Olhamos as coisas de hoje e não levantamos os olhos para o futuro. Não olhamos a longo prazo. Não nos interessam as sementes do futuro. Estamos absorvidos pelas coisas que estão muito perto de nós. Que os jovens olhem para frente. Não se sintam obrigados a manter um passado imóvel. Procurem os caminhos novos que o Espírito mostra.

Fonte: Teologia Nordeste
http://teologianordeste.net/publicacoes/jose-comblin/180-olhando-para-o-horizonte.html

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