Obrigado, Alessandro

Autorretrato de Alessandro Lyra Braga.

Autorretrato de Alessandro Lyra Braga.

Em tempos de polarização, gostaria de fazer um relato pessoal, se alguém quiser ler.

(1) Minhas posições políticas – que nunca vão abandonar a importância da luta política – já foram colocadas, não tenho nada a acrescentar. Esse texto é sobre outra coisa.

(2) É notório que, para tema que demanda cabeça fria – o futuro do nosso país –, tanta emoção seja colocada na mesa de modo um tanto quanto desproporcional.

A raiva com que uns comemoram a prisão de um ex-presidente tão popular não indica sede de Justiça, e sim um desejo – e cá estamos no campo da psicologia – de vingança. Só o inconsciente poderia indicar do que tentam se vingar.

Por outro lado, os que genuinamente se favoreceram de anos de políticas sociais sofrem com um processo ilegal e que provavelmente vai afastar seu candidato. Essa dor também vai gerar raiva, ódio e até mesmo violência.

(3) Trata-se de um estado de projeção e introjeção, como escreveu Carl Jung: somos cegados pelo instinto e, assim, acreditamos todos veem as coisas do mesmo modo que nós – um desejo de totalidade.

“A ruína do mundo consiste exatamente no fato de acharmos que o outro tem a mesma psicologia que nós”, escreveu Jung, acrescentando: “Quando nos encontramos imersos em uma emoção, tomados pelo estado instintivo, não somos mais capazes de perceber o real estado do outro”.

Assim, a introjeção gera essa projeção que mina qualquer debate.

A raiva – que não pode ser confundida com indignação –, Jung vai mais longe, é o primeiro indicativo de que há algo errado não exatamente com o outro, mas com si mesmo. Como diferenciar a raiva da indignação? A indignação move; a raiva paralisa.

(4) Mas este texto não é sobre raiva nem sobre indignação; é sobre um amigo. Um amigo que eu perdi.

Ele se chamava Alessandro e era possivelmente a pessoa com quem eu mais gostava de conversar, embora fosse provavelmente a que menos concordasse comigo. Ele de direita; eu, de esquerda.

Quase nada batia entre nós. Hoje, com certa alegria e tristeza no coração, penso que ele estaria feliz. O Lula está para ser preso, enfim. Eu daria tudo para ver o Alessandro ver o Lula preso. Pelo menos ele estaria aqui, comigo, discutindo, brigando.

Estaríamos nos xingando. Não há sentimento melhor do que brigar com um amigo. Eu estaria com raiva, ele também, embora fosse mais calmo que eu. Vivos, estaríamos promovendo o milagre da amizade sincera.

(5) Hoje, Alessandro faz falta. Ele me ensinou, sem saber, a ser uma pessoa melhor. Hoje eu penso duas vezes antes de desvalorizar as amizades sinceras, mesmo que mantenha firmemente minhas posições e ações políticas.

Obrigado, Alessandro Lyra Braga. Eu espero que você esteja em algum lugar me lendo. Sinto sua falta.