O reino da liberdade e as fazendas-modelo

“A praça é do povo!
Como o céu é do condor.
É o antro onde a liberdade
cria águias em seu calor”.
(Castro Alves)

 

Está no noticiário:

Forças de segurança da Síria atacaram ativistas pró-democracia ontem, deixando mais de 30 mortos.

 

Os protestos pela saída do ditador Bashar Assad já duram sete meses. O governo tem reagido com truculência. A ONU estima que os conflitos deixaram 3.000 vítimas até agora.

 

Ativistas afirmam que as forças de segurança perseguiram os manifestantes ontem (6ª, 28), atirando com metralhadoras. As linhas telefônicas e a internet foram suspensas.

 

Os pontos de maior conflito foram Homs e Hama, na região central do país. São áreas de forte oposição ao regime.

 

A Síria restringe a entrada de jornalistas no país, o que impede a averiguação independente das informações.

Ao contrário de Muammar Gaddafi, o  açougueiro de Damasco não é defendido nem mesmo pelo mais tacanho dos esquerdistas autoritários.

 

O que, entretanto, não tem implicado um posicionamento firme e manifestações de repúdio a este tirano indiscutivelmente cruel e repulsivo.

 

É chocante e lamentavel: a esquerda parece ter perdido a capacidade de indignar-se contra a bestialidade dos déspotas.

 

Quando há justificada revolta contra eles, fica com um pé na frente e outro atrás, temendo que seja instigada pelo imperialismo, para colher qualquer vantagem econômica ou política.

 

Exatamente como fez quando da revolução húngara de 1956 e da  Primavera de Praga em 1968.

 

Das duas grandes bandeiras da humanidade através dos tempos — a justiça social e a liberdade –, estamos, obtusamente, abdicando da segunda.

 

Com isto, deixaremos de encarnar as esperanças numa sociedade que possibilite a realização plena do ser humano, em termos materiais e espirituais.

 

O maravilhoso objetivo final de Karl Marx — a instauração do “reino da liberdade, para além da necessidade” — é trocado, na prática, por outro bem mais prosaico, a instalação de fazendas-modelo, nas quais os animais sejam bem tratados enquanto se mantiverem submissos à vontade dos amos.

 

Então, quando as manifestações anticapitalistas deixam de ser necessariamente manifestações comunistas ou anarquistas, como está acontecendo na Europa, não temos do que nos queixar. Somos nós mesmo que estamos atraindo descrédito para nossas causas, pois as amesquinhamos em nome de um pretenso realismo político.

 

É hora de, escutando a voz das ruas, voltarmos a trilhar os caminhos de Marx e Proudhon.

 

Ou desempenharemos papel secundário neste momento em que as vítimas do capitalismo começam a despertar de sua letargia, depois de quatro décadas de conformismo.

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