O que mais falta?

Será que depois da mais nova pegadinha promovida pela Câmara dos Deputados, que, em histórica votação (secreta, claro), rejeitou a cassação do mandato do deputado federal Natan Donadon – condenado a 13 anos de prisão pelos crimes de peculato e formação de quadrilha –, governantes, jornalistas e conservadores e reacionários de plantão continuarão a se perguntar por que os cidadãos estão indo para as ruas protestar?

E seguirão criticando o que entendem ser uma falta de foco em função da pluralidade de temas abordados pelas correntes reivindicações, mal comparando-as com movimentos como o das Diretas Já?

Se são diversas as demandas em pauta, isso ocorre porque são inúmeros os absurdos a que somos obrigados a assistir e com os quais convivemos diariamente (que o digam as camadas menos favorecidas da população).

Volto a bater nesta tecla: os movimentos de rua que eclodiram no Brasil em junho são resultado de um acúmulo de fatores associados ao descaso com que as autoridades tratam os brasileiros, o que acaba derivando em condições de vida que, se não são péssimas, estão muito aquém do esperado para um país rico em recursos naturais e humanos e cujos cidadãos suportam em suas costas uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo.

Também sobram críticas para a violência dos protestos. Mas, na boa, sem contar o fato de que tem sido a própria polícia militar a responsável pelo início ou agravamento de boa parte dos confrontos com os manifestantes nas ruas, não considero eventuais depredações do patrimônio público e/ou privado um ato de puro vandalismo no atual contexto. Qualificá-los como tal é uma solução absolutamente reducionista – se não for mal intencionada.

Para além de atos criminosos isolados (oportunistas estão em todo lugar, não tem jeito), a violência vista no decorrer dos protestos não deixa de ser uma forma de externar a insatisfação com o desrespeito com que somos tratados pelos políticos no Brasil, os quais, num sentido figurado, mas quase literal, violentam os cidadãos diariamente. Na verdade, é a falta de profissionalismo e seriedade de muitos desses bandidos fardados a grande razão por trás de tanta revolta.

E quem disse que se revoltar não é positivo ou necessário? Importantes mudanças sociais foram conseguidas por meio de grandes revoluções operadas ao longo da história, muitas das quais ao custo de muito sangue – vide o caso da Revolução Francesa.  É difícil pensar em outra forma de fazer com que a classe política nos ouça e faça o que é paga para fazer ao invés de trabalhar única e exclusivamente para manter-se no poder e seguir enriquecendo às nossas custas.

Afinal, os engravatados de bigode acaju lá de Brasília e das centenas de gaiolas de ouro Brasil afora são seres intocáveis: dificilmente vão presos (e, quando vão, têm seu mandato mantido, pelo visto), tampouco sentem seu bolso doer se são obrigados a devolver dinheiro público utilizado indevidamente e, não raro, fazem questão de nos lembram de que estão se lixando para a opinião publica.

No mais, somos ainda obrigados a ouvir pérolas como a do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que, genialmente, justificou seu deslocamento diário de helicóptero para o trabalho, entre o Leblon e Laranjeiras (um trecho de poucos quilômetros) pelo fato de o trânsito carioca ser muito violento. Ou vemos ainda o governador do Ceará, Cid Gomes, gastar milhões de reais com shows de grandes estrelas para inaugurar hospitais que não funcionam e com buffets repletos de caviar e outros alimentos importados para receber autoridades.

Dinheiro público gasto em aventuras sexuais de políticos em motéis; transposição do Rio São Francisco e ferrovia Norte Sul inacabados; superfaturamentos; licitações fraudadas; novos terminais de papelão para a Copa e Olimpíadas; estádios elefante branco que custam bilhões; supersalários parlamentares aumentados (por eles mesmos) anualmente; escolas e hospitais ao Deus dará; impostos abusivos e serviços públicos de baixa qualidade, etc., etc., etc.

Por muito menos tem país em guerra. E estão reclamando porque a Toulon do Leblon teve sua vitrine quebrada e o trânsito está ruim?  Give me a break…

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