O Preço de uma Extradição

 Linchamento nos Estados Unidos

Aspectos ideológicos, éticos e humanitários sobre o caso Battisti são essenciais. Entretanto, há um front que não deveria ser descuidado, mas, curiosamente, ninguém escreveu sobre ele. Qual é o preço, em dinheiro, que está custando a Itália o processo de extradição de Battisti?

O governo italiano alugou um dos advogados mais caros, e gastou muito em viagens e diárias. Diplomatas, políticos, magistrados, empresários, e toda a elite italiana vieram ao Brasil quase sem pausa para bater nas portas do STF, ou de gabinetes de parlamentares ruralistas, neonazistas e vinculados á ditadura.

O embaixador italiano fez horas extras para policiar sessões de julgamento, reuniões de notáveis, etc.. Itália deve ter pagado também atenção médica aos que se acorrentaram, fizeram jejum, etc., e mais dinheiro ainda para compensar aos lojistas de Milão que boicotaram produtos brasileiros. Some a isso as despesas com eletricidade e tinta, pois os “releases” dos justiceiros ocupavam toneladas de folhas. Todos estes gastos são computáveis, mas temos a tentação de pensar também nas despesas “não contabilizadas”, para usar uma expressão que é de cunho brasileiro.

A Fúria Gratuita

Grande parte da fúria contra Battisti foi exteriorizada de maneira gratuita, sem custar dinheiro ao governo da Itália. Foi a fúria da classe média lumpen movida pelo ódio, a frustração, a crueldade, o medo, o preconceito, etc. Mas esta forma de linchamento gratuito tem seus limites, como vamos mostrar agora.

Os que lincham vítimas já rendidas e indefesas se compensam com o mesmo prazer que o espetáculo do sofrimento alheio lhes oferece. Por exemplo, na Argentina, sobreviventes da tortura observaram que a polícia e o exército usavam maior crueldade com os mais fracos, como crianças, mulheres, velhos e doentes.

Se observarmos os linchadores brancos nos Estados Unidos, veremos uma mistura de sorrisos doentios, com olhos e feições deformadas, animados por uma alegria que tem um toque delirante. As fotos para as quais pousavam os próprios linchadores exibem homens, mostrando a suas crianças os negros balançando no extremo de cordas; senhoras puritanas olhando com desprezo e deleite; jovens brincando e jogando pedras nos quase cadáveres.

Linchamento real e tortura exigem um alto grau de decomposição emocional e intelectual, mas, fundamentalmente, covardia. Ninguém viu nunca um linchador agindo sozinho, nem um torturador que não estivesse protegido por seus cúmplices. É um fato bem conhecido, que depois da derrota da Alemanha e Itália, a massa que adorava Hitler e Mussolini, jurava por toda sua família não ter sido nunca fascistas, não ter assistido nem mesmo a uma passeata.

Além disso, a brutalidade do linchamento e a tortura favorecem a catarse de pessoas que, por preconceitos e carências diversas, não conseguem realização plena. Há relatos sobre torturadores que atingem um orgasmo vibrante no instante em que sua vítima está mais atormentada. 

Mas o linchamento físico requer certa capacidade: sujar-se com sangue, ouvir os gritos das vítimas. Embora muitos gostem de saber que elas sofrem, nem todos têm estrutura psíquica para assistir. Conhecem-se casos de torturadores que desmaiaram durante uma sessão de tormentos. Também há um limite social. Em outras épocas, membros de classe média e até da classe alta assistiam aos linchamentos, e aplaudiam os lumpen que os executavam. Mas, atualmente, a classe média não quer parecer-se aos marginais, mesmo nos casos em que tenham os mesmos inimigos. Por isso, preferem os linchamentos virtuais: escrevem xingamentos e palavrões nos comentários dos jornais e mandam cartas de ódio, quase sempre de maneira anônima.

Os linchadores comuns, que não pertencem a instituições envolvidas com a destruição real da vítima, se cansam facilmente. Além de medo, tem preguiça. Por exemplo, algumas petições contra Battisti juntaram, em mais de oito meses, umas poucas centenas de assinaturas. O linchador não tem espírito de cooperação, não é capaz de sacrificar-se para falar com todo o mundo e coletar todas as firmas possíveis. Só externa seu ódio se isso for muito fácil.

É claro, então, que é mais difícil ser um linchador “de luxo”. Não há dúvida de que os algozes de Battisti querem conseguir vários objetivos: punir alguém diferente, alguém que desafia sua condição de esbirros dos poderosos, mas também forjar um golpe político, atingir os movimentos sociais, semear o terror, etc. Eles possuem ódios políticos, de classe e religiosos. Não há dúvida que a maioria, quando atira contra Battisti, não está fingindo: eles gostam disso. Mas, será que esse gosto é suficiente para justificar tanto escândalo? Pois, afinal, eles estão criando uma crise nacional e internacional de tal tamanho que algum dia poderia atingir-los. Deveriam pensar que os fascistas alemães, gregos e argentinos também se achavam intocáveis.

Será que o simples ódio justifica desprezar as leis que antes acatavam?

Aliás, se partimos do axioma (indiscutível) da covardia e sordidez destas figuras, o que move os açougueiros de Battisti a manter uma fúria tão militante, que não está isenta de riscos? Deve haver alguma variável oculta, como na mecânica quântica. Mas, qual será?

Assuntos tão delicados, que mexem com vários países, são tratados com muito sigilo, e os rastos são cuidadosamente apagados. Mas, há tênues boatos que aparecem em diversos locais, há indícios dados por eventos anteriores. Vejamos.

Negócios do Governo Italiano

Celestine Bohlen, uma liberal de centro-direita, escreveu no número de 10/12/95 do New York Times, uma matéria intitulada: Bribery As a Way Of Life In Italy (“O suborno como uma forma de vida na Itália”) em que relata a tradição de propinas pagas e recebidas por agentes públicos e a verdadeira indústria do suborno que alimenta várias instituições. Mais recente é a notícia da BBC (18/02/2009), segundo a qual David Mills, um advogado empresarial britânico, recebeu 600 mil dólares americanos por ajudar a lavar alguns bens de Berlusconi, com o objetivo de sonegar impostos.

Estes comentários parecem ingênuos, porque, afinal, a mega corrupção epidêmica de todos os setores políticos da Itália não é mistério para ninguém. Afinal, a Democracia Cristã, vitoriosa durante 50 anos, foi vencida pela própria corrupção. Além deste argumento, poderia dar-se este outro: ainda que em menor grau, em outros países de Europa também há subornos, como o provam dúzias de casos. Onde está a novidade?

Eu acho que o ponto crucial é perguntar-se: até que limites pode chegar a corrupção? A atividade de subornar possui freios de alguma natureza? Na maioria dos países acontece isso. Quase nenhum governo daria um suborno a alguém se isso produzisse um escândalo de grandes proporções, que pudesse comprometer suas próprias metas políticas. Vejamos, porém, este interessante caso:

Se a idade é um documento de sabedoria (coisa que os mais velhos tentam impor sem muito sucesso), ninguém pode ganhar de The Times, fundado há 211 anos. Há um fato recente, descoberto por Times e confirmado por muitas fontes, que (por que será?) a mídia brasileira não tem divulgado como merecia.

Tom Coghlan, repórter de The Times, escreveu que as forças militares italianas que operam em Afeganistão conseguiram manter pacificado o distrito de Sarobi, na parte oriental de Kabul, por um método nada comum entre militares: o serviço de inteligência militar (o SISMI) fez pagamentos periódicos de centenas de milhares de dólares aos comandantes  do Talibã na região, para que não atacassem tropas italianas. Realmente, preservar a paz é uma boa decisão, mesmo que seja com dinheiro, pois contribui a esvaziar uma guerra idiota. Mas, se isso foi feito por pacifismo, por que Itália permaneceu na guerra tanto tempo?

Ainda tem um agravante. Se o SISMI, como foi denunciado, subornou o Talibã, poderia ter pensado no risco produzido não apenas para a aventura imperialista (vista por Itália apenas como um negócio), mas para a vida de pessoas que estavam fora desse acerto.

Com efeito, o próprio Times de 15/10/2009 informa que 10 soldados franceses morreram e 21 foram feridos numa tocaia nessa região, tornando-se a maior baixa conjunta desde o começo da guerra. Por que? Os franceses não sabiam do acerto, e depois que os italianos abandonaram aquele distrito, um pequeno pelotão francês que tinha sido escalado para substituir-los pensava que a zona era totalmente pacífica.  Eles não sabiam que eram pacíficos com os italianos e enquanto estes pagassem!

A denúncia foi confirmada também por fontes de NATO, e produziu queixas diplomáticas da França. Nem seus próprios cúmplices na aventura de genocídio, os militares italianos foram capaz de tratar com um mínimo de honestidade.

Fofocas Avulsas

Em outubro de 2009 viajei ao Nordeste a proferir algumas palestras sobre as irregularidades do julgamento de Battisti, tanto na Itália como no Brasil. Por falta de atenção, caí numa discussão com um promotor aparentemente muito prestigioso na região. Era um homem articulado, inteligente, com estilo forçadamente simpático e, fazendo uma grande diferença com qualquer outro linchador que eu tivesse conhecido, tinha lido os autos do processo.

Num momento da discussão, me disse, com ar triunfal, que estava escrevendo um livro que provava a culpabilidade de Battisti. Perguntei como podia provar a culpa se, como promotor, sabia que incriminar alguém precisava de objetos materiais, perícias ou, pelo menos, testemunhos sólidos. Fazendo-se de misterioso, me disse que ele viajava com freqüência a Itália e, nesses dias, estava preparando outra viagem.

Manifestei minha perplexidade, porque a justiça de Milão não atendeu nunca os pedidos da defesa de Battisti de entregar cópias de perícias ou dados concretos dos “testemunhos” (que nos autos aparecem apenas citados por um nome e, às vezes, sem nome nenhum). Por que, se a Itália tinha todas essas provas, só facilitava para ele? Ficou um pouco embaraçado, mas se livrou com grande agilidade. Não podia dizer, é claro, que a justiça italiana ocultava acesso à defesa, e tampouco que essas provas não existiam e o que davam para ele eram provas inventadas.

Encontrou rápido uma solução. Disse que, quando ia a Itália, falava com os familiares das supostas vítimas de Battisti e com antigos companheiros deles. Além disso, visitava os locais dos crimes. (Pensei, mais não disse, que depois de 30 anos, muitos ventos devem ter levado longe o sangue a pólvora que havia nos cenários dos crimes)

Ele se dava a todo esse trabalho a troco de que? Parece difícil que um livro demonstrando algo que a maioria não acredita (embora muitos simulem acreditar) tenha uma venda tão grande como para compensar tamanhos esforços. Uma coisa é escrever pequenas mensagens de ódio na imprensa, outra é comprar e ler um livro completo. Os que acusam sem provas nunca se interessam pelas justificações, como foi claramente dito por uma parte do STF, no sentido de que ser culpado ou inocente não era assunto do Brasil.

Posteriormente, comentando com amigos da cidade, surgiu a conjectura que todos pensavam: aquele alto representante do Ministério Público estaria numa das folhas das partes interessadas (SISMI, Ministério da Justiça, Relações Exteriores, o próprio Quirinal?)

Suspeitas deste tipo se acentuaram algumas semanas depois, quando conheci um jornalista italiano bastante objetivo. Ele queria também a extradição de Battisti, mas não era nada pessoal; apenas negócios, como dizem na Máfia. Num certo momento, a conversa derivou para uma pessoa conhecida:

-Fulano tem um ódio totalmente exagerado por Battisti.

O jornalista sorriu e percebi que estava lutando entre um silêncio prudente ou a vaidade de mostrar como ele era um homem bem relacionado:

-Sim, claro, Fulano é amigo dos fascistas. Mas ele também tem outros motivos. (E fez aquele movimento dos dedos que se usa em todos os países.)

Quando perguntei como tinha sido feito, qual era o valor, etc., o cara me olhou com expressão sarcástica e disse que os bons jornalistas encontram os furos mais escondidos. Umas horas depois, uma pessoa pública muito conhecida me confessou que tinha ouvido a mesma versão, mas não encontrou provas.

Quanto Vale Battisti?

Como relatei em um artigo anterior (O Clube dos Sequestradores) a gangue de seqüestradores e assassinos, chamada DSSA, dirigida por um ex-policial fascista, tinha recebido uma proposta do SISMI de 2 milhões de euros para capturar Battisti e outros dois refugiados. Isso foi há uns 5 anos, quando a cotação de Battisti devia ser mais baixa. Supondo que, na época, os três custassem o mesmo, daria 666.666 euros por cada vítima.

Hoje, que o assunto agita Europa e América, essas autoridades poderiam oferecer às diversas pessoas “solidárias” uma quantidade major. Qual será o orçamento da extradição? 2, 3, 5 milhões de euros? Mas, não vamos a especular. Por enquanto, só contei coisas concretas e não quero entrar na fantasia.

Carlos Alberto Lungarzo é matemático, nascido na Argentina, e mora no Brasil desde sua graduação. É professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), São Paulo, e milita em Anistia Internacional desde há muito tempo, nas seções mexicana, argentina, brasileira e (depois do fim desta) americana. Tem escritos vários livros e artigos sobre lógica, estatística e computação quântica, mas seu interesse tem sido sempre os direitos humanos.

Seções: Opinião.