O país do paypertudo

Certos detalhes, por mais insignificantes ou superficiais que pareçam, podem ser reveladores.

Por ser rubro-negro doente, cheguei em casa, ontem (04/10/09), pronto para assistir ao jogo entre São Paulo e Grêmio, no estádio Olímpico, em Porto Alegre, já que a partida poderia ter efeitos diretos sobre a parte de cima da tabela do Brasileirão.

Como suspeitava, na Globo estava sendo transmitida a partida entre Botafogo e Cerro Porteño. Mudei então para o Sportv, agradecendo aos céus por ter o privilégio de ter uma TV a cabo que pode me proporcionar variedade, qualidade e tudo mais que é sempre ressaltado nos comerciais dessas operadoras. Mas, para minha surpresa, o jogo que estava sendo transmitido era o mesmo.

Passei para a Band, onde tinha certeza que encontraria a partida sendo transmitida, mas, para meu desgosto, somente um aviso sobressaía à tela escura dizendo mais ou menos o seguinte: “Este evento não pôde ser transmitido para sua região, por razões contratuais”.

Deixando a raiva de lado, pus-me a refletir sobre o que havia ocorrido, e entendi que tal acontecimento não podia ser tratado como um fenômeno isolado.

O sistema capitalista tem muitas qualidades, e proporciona, sempre que conjugado com os preceitos democráticos, experiências – sejam elas concretas (bens materiais) ou abstratas (da ordem simbólica) – de grande valor para o homem. No entanto, o fenômeno do consumismo tem se intensificado de maneira exacerbada, provocando efeitos nocivos à sociedade.

A ideia de que temos que comprar e gastar cada vez mais até se sustentaria (exceto, talvez, pela questão ambiental), caso vivêssemos num mundo mais igualitário, realmente democrático. Mas, como se sabe, por mais que a democracia, pelo menos no Brasil, tenha lá seu grau de institucionalização, as desigualdades no país seguem configurando verdadeiros abismos sociais.

E, nesse cenário de disparidades, somos todos, tanto pobres como de classe média, obrigados ou, no mínimo, levados (já que também somos “filhos de Deus” e temos nossos caprichos; queremos fazer parte e nos integrar; ter status, o que passa pela aquisição de bens, etc.) a continuar consumindo e a pagar por cada vez mais coisas.

Não temos um sistema de saúde pública decente, por isso, somos forçados a pagar por planos de saúde privados. Mas as seguradoras, cientes de que sempre há alguém disponível para pagar um pouco mais para obter privilégios, criam planos que cobrem todos os serviços médicos (carência zero) e outros, apenas alguns deles.

Concessões públicas favorecem o oligopólio na TV

É a mesma lógica do que ocorre na organização dos assentos por classes nos aviões, por exemplo. Há áreas privilegiadas, como a primeira classe ou a classe executiva, e a classe econômica, mais barata, porém mais apertada e com menor oferta e qualidade de serviços. Fico me perguntando se, caso fosse tudo igual, o serviço não seria melhor para todos…

Já a televisão – para voltarmos ao assunto inicial – também se insere nessa ordem regida pelo paradigma consumista..Controlada por grandes empresas de comunicação que formam um verdadeiro oligopólio por meio do sistema de concessões públicas (!), a TV aberta no Brasil é bastante limitada. Se não estamos afim de assistir a um telejornal ou programa de auditório formatado para mentes de aproximadamente 12 anos de idade, somos levados a comprar um pacote de TV a cabo, novamente estando sujeitos às opções que outro oligopólio nos dá. Só para citar as possibilidades mais tradicionais, há no mercado a NET (Globopar), TVA (Grupo Abril + Telefônica), SKY (Globopar + DIRECTV Group). Trata-se, na prática, de um monopólio, com as organizações Globo por trás de todas essas operadoras. Mas, como não somos de ferro, assinamos um ou outro pacote assim mesmo.

Contudo – e aí, já entra a questão desejante do ser humano, sujeito que sempre quer mais, precisando satisfazer seu gozo quase que incessantemente – vamos aos poucos enjoando dos canais disponíveis, até porque a programação não é lá das melhores. Enlatados americanos, entre filmes e seriados, e canais que seguem o padrão Globo de qualidade parecem cansar nossa vista rapidamente, tanto, que, antes de percebermos, já estamos alugando filmes todo fim de semana.

Payperview é estratégia de mercado

Mas haveria de ter uma vantagem concreta de assinar uma TV a cabo: os canais de esporte! A cobertura de canais especializados sobre o desporto mundial e brasileiro supera em muito a abordagem da Grande Mídia, sem dúvida alguma. No entanto, eis que surge um fenômeno chamada “payperview”. Do inglês “pague por cada vez que assistir”, a ideia desses pacotes, mais uma vez obedecendo à lógica do consumo, é que nós, que já pagamos por um serviço devido à incapacidade da TV aberta de suprir-nos de informação adequadamente, paguemos para assistir aos jogos de futebol que já não são transmitidos nem nos canais da TV por assinatura.

Tenho a impressão de que, antigamente, certos jogos (claro que os de maior expressão, como um São Paulo e Grêmio na reta final do campeonato brasileiro) não eram transmitidos apenas para as localidades onde ocorriam – reza a lenda que isso forçaria o torcedor a ir ao estádio. Mas, agora, parece que as empresas de TV por assinatura estão compactuando com o modelo do “payperview” (talvez por envolver diretamente os mesmos grupos de comunicação), aplicado pela Première Club, por exemplo. A tal ponto, que uma TV aberta, como a Band, não pode transmitir o campeonato BRASILEIRO para um cidadão que mora no Rio de Janeiro, ficando este obrigado a assistir a um mesmo jogo na Globo e no Sportv. É ou não é um um desperdício de informação?! Não estou afirmando que a Band tenha deixado de transmitir o jogo entre São Paulo e Grêmio em função de exigências do Premiére Club, mas não acredito que seja mera coincidência o fato desses pacotes de assinatura estarem se proliferando e, em paralelo, as transmissões sendo cada vez mais cerceadas. O modelo do “payperview” representa, acima de tudo, uma estratégia de mercado.

Respondendo à pergunta, sim, com certeza se trata de desperdício, mas também de descaso com os cidadãos brasileiros que, embora vivam num país em desenvolvimento, tendo que enfrentar dificuldades como a falta de empregos decentes, salários baixos e serviços básicos, como educação e saúde precários, são obrigados a pagar caro, em muitos casos, mais do que um americano em Nova York, que paga, por exemplo, menos pelo metrô do que um trabalhador carioca. Por, sinal, pagamos, em dólares, mais caro pelo Big Mac do que os americanos, de acordo com a revista britânica “The Economist”.

Trata-se também dos efeitos óbvios de um sistema de concessão pública que favorece grandes empresas de comunicação (não por acaso, o ministro das comunicações, Hélio Costa, tem laços estreitos com a TV Globo), e que representa um contraponto claro a qualquer tentativa de democratização da televisão e outros espaços de comunicação, como o próprio rádio (em que o sistema é outro, por meio de licença da Anatel, mas segue mais ou menos a mesma lógica excludente; vide a repressão às rádios comunitárias).

Enfim, por essas e outras, é que o Brasil será sempre o país do futuro, pois os avanços macroeconômicos do país, tão aclamados pela mídia nacional e mundial, não são sentidos pela maior parte de seus cidadãos, que seguem vivendo à sombra, comendo os restos e sob os caprichos das classes mais abastadas. É aquela velha história: o bolo cresce, mas não é repartido.