O ‘negócio do Henrique’, o delator ‘matável’ do Aécio

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Saiu o áudio de Temer com o dono da J&F, uma evidência, parte de um jogo complexo, com cada vez mais mais nomes, procedimentos.

Joesley Batista se reuniu dez dias antes do golpe com o indireto, se reuniu depois, no dia 7 de março, parecem amigos, parceiros de negócios, no segundo um teatro a pedido do Ministério Público (mas quem pode dizer?).

“Tamo junto, o que o senhor precisar de mim”, abriu Joesley. Falava com Geddel, Padilha, Henrique Meirelles, mas e o Cunha? “O Eduardo resolveu me fustigar”, disse Temer. Fustigar, do dicionário: açoitar, bater com vara. Jornais mudaram “resolveu” por “tentou”: está claro o verbo, resolveu, ou seja, foi lá e fez. Várias vezes, pelo que dá a entender. Cunha perdeu coincidentemente seu advogado um dia depois da denúncia.

Joesley, sobre Cunha: “Dentro do possível, fiz o máximo que deu ali, zerei tudo, o que tinha de alguma pendência daqui pra li, zerou, e ele foi firme em cima, já tava lá, cobrou e tal”. Geddel “que sempre andava ali, perdi o contato porque ele virou investigado”. E garantiu, novamente Joesley: “Tô de bem com o Eduardo”. Temer agora investigado, acusado de comprar silêncio de Cunha. Todos comentavam, mas muitos não sabiam como acontecia.

Sobre as investigações, o chefão global da carne informou: “Dei conta de um lado, do juiz, dá uma segurada. De outro lado, o juiz substituto, tô segurando os dois, consegui um delator dentro da força-tarefa, que também está me dando informação”. Disse que estava tentando trocar um procurador que estava atrás – trata-se de José Anselmo, coordenador da força-tarefa da Operação Greenfield. E tinha outro mas mãos, vazando informações: Ângelo Goulart Villela, preso hoje.

Fala sobre uma “confusão” financeira que foi parar nos telejornais, como se saiu? “Ainda bem que tenho boa relação com a imprensa. Um dia, dois, parou”, disse Joesley. É bom ter amigos na mídia, só não disse quem. Uma boa pergunta: por que o vazamento para o jornal impresso da Globo? A operação contra Aécio Neves teve de ser apressada depois do vazamento. Ninguém será responsabilizado? Não, claro.

O que Joesley queria de fato, o mesmo que todo empresário do moderno capitalismo de Estado: “alinhamento” com Henrique Meirelles – e com Geddel, Padilha, outros – para influenciar operações no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), na CVM (Comissão de Valores Mobiliários). São lugares onde pode ampliar seu oligopólio, onde não parariam a concentração de capital. Nenhuma novidade, negócios como sempre ocorreram.

O grande nome é o homem do “mercado”, o “negócio do Henrique”, dito pelo próprio Joesley de modo transparente. Joesley queria ele próprio indicar nomes, usando Temer. “Então, pronto, é esse alinhamento que eu queria ter”, disse Joesley. Temer, o indireto, foi direto: “Pode fazer isso”. Gravado, não há defesa possível. A relação com o BNDES um pouco mais difícil, disse – que tempos, era melhor com Luciano Coutinho e Lula.

Qual a resposta para a crise política? “Casa que falta pão não tem união. Não tem remédio melhor do que as coisas bem financeiramente. Todo mundo acalma”, opina Joesley. Rigorosamente correto, foi assim nos tempos de Lula, ele agindo livremente, ganhou 10 bilhões em três anos com Luciano Coutinho e sua estratégia dos “campeões nacionais”, uma bandalheira no mercado “livre”.

Outro gravado: o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), responsável pela operação de silenciamento de Cunha, do operador Lúcio Funaro, os dois presos. Cuidava das famílias também, o nosso dinheiro em ação. Mas não pra sempre, não dá pra comprar silêncio eternamente. “Um mês vai, dois meses, três meses, seis meses, mas vai chegando uma hora que você vai indo, você vai indo…”, diz Joesley.

AÉCIO NEVES, PRESIDENTE DO PSDB

Em outro áudio com Joesley, Aécio Neves, ao propor quem receberia R$ 2 milhões por ele: “Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação”. Era presidente do PSDB até hoje, afastado e afundando o partido na lama da política, nenhuma novidade vinda do partido que leiloou o Brasil não faz muito tempo.

A família do presidente do PSDB, afastado às pressas: executava a operação um primo, Fred, ou Frederico Pacheco de Medeiros. Sua irmã, Andrea, o cérebro por trás dos negócios, incluindo censura contínua em Minas, agora presa. Aécio livre, mas não pode deixar o país, e agora sem cargo no Senado.

Outro senador, Zezé Perrella (PMDB-MG), amigo e sócio de Aécio no crime, outro investigado. Altair Alves, braço direito de cunha, outro do PMDB, esse do Rio, também alvo. O PMDB poderia ser fechado, fariam um favor à democracia. É mais máfia que entidade política.

A defesa de Aécio, já em tom de desespero: confirmou o pedido, disse se tratar “apenas” de “empréstimo pessoal” e que houve “descontextualização” da fala do tucano na gravação. E quem está calado? Gilmar Mendes. Ele é tudo, menos bobo.

PARAM AS REFORMAS, A ÚNICA BOA NOVA

A boa notícia da noite, momentânea, é apenas essa: reformas contra os trabalhadores não podem avançar, palavra dos próprios relatores. Os ministros, todos, serão lembrados como golpistas.

Dilma e Lula, ainda santificados por parte da militância petista, embora se ouça nas ruas: PT cada vez mais derrotado nas urnas, Lula uma incógnita. Mais à direita, sentimento semelhante, com PSDB jogado na lama. Partidos posicionados contra esse estado das coisas não conseguem fazer frente, não tem nome nem mídia. Os oligopólios da comunicação, enriquecidos por governos de esquerda, vão vender João Dória como a novidade, mas não vai ser fácil para um tucano.

Um detalhe: os procuradores deveriam investigar a lista de convidados do casamento de Joesley: Mantega, Alckmin, Marta Suplicy, Paulinho da Força, Gabriel Chalita, Temer. Uma festa e tanto. Talvez já estejam fazendo isso. O ex do BNDES, Carlos Lessa, já havia sugerido há algum tempo: começar investigando todo mundo com casa em Miami. Corretíssimo, um bom começo.

Qual a saída? Ninguém sabe. Mas os três partidos que dominaram o Brasil por mais de 30 anos com os dias contados, vão enfrentar a fúria das urnas.

E AGORA? QUATRO HIPÓTESES

Primeiro, a renúncia. Temer não é louco, perde privilégios, mas é uma hipótese. Rodrigo Maia, outro investigado, assume e promove eleição indireta. Ou o presidente do Senado, investigado. Ou a presidente do STF, essa ficha limpa. O problema: não existe regra clara. Voto secreto de uma maioria de congressistas, com perfis de candidatos também definidos pelos congressistas. Eleições diretas só por meio de emenda à Constituição, essa já proposta por Miro Teixeira.

Segundo, a ação no tribunal eleitoral, o TSE. O julgamento é de Dilma e Temer, mas ainda há muitas sessões, e as partes podem recorrer, o MP também. A casa pediu a cassação, Temer disse a Joesley que não acredita nessa hipótese, mas isso antes da delação.

Terceiro, o impedimento, já pedido por dois deputados. Esse conhecemos, já tivemos um ano passado, com apoio da mídia, do vice, da elite econômica.

Quarto, ação penal, por envolver crime no atual mandato. Uma das estratégias da nossa República para defender os seus: o procurador pode pedir, mas precisa da aprovação de dois terços da Câmara, depois seguiria para o STF, que precisa acolher a denúncia. Longo caminho, mas possível.

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