O movimento da libertação interior

Gostaria de partilhar algumas considerações sobre o que se me figura possa ser o movimento da libertação interior. Num tempo em que tudo parece existir fora da pessoa, talvez possa parecer anacrônico alguém se voltar para a libertação interior. Parece que nos dias de hoje tudo ocorre no campo do macro, do estado, das instituições, das classes sociais, da macropolitica, da chamada grande imprensa. E quando alguém se volta para o que seja o mundo interno, parece que poderia estar querendo fugir da realidade. Ao contrário, nestas breves anotações, o que gostaria de partilhar, é um grande alivio de estar cada vez mais do lado de cá, cada vez mais do lado de um presente que se figura cada vez mais pleno, na medida em que posso ir dando alguns passos em direção à realidade, ao que aqui está, a uma esfera de ação ao alcance da pessoa, do que cada um de nós é capaz de tocar, de sentir, de cheirar, de ver, de ouvir.

Quem possa ter acompanhado os meus escritos, talvez já esteja familiarizado com o que estou querendo dizer aqui. Refiro-me ao mundo das coisas como são, do aqui e agora como um espaço a ser habitado, da realidade em que cada um de nós está inserido, da qual fazemos parte de maneiras diferenciadas. O rico terreno do presente. Dias atrás, uma frase de Julio Cortázar me tocou: refere-se à literatura como forma de destruição da falsa objetividade criada pelo intelectualismo. Esta frase me tocou, e, como se fosse uma sequência articulada, enseguida comecei a ler um livro de José Saramago, El hombre duplicado, que foi me trazendo imperceptivelmente a esse espaço no qual acho que cada um de nós e capaz de ser quem é, este mesmo instante em que digito estas linhas e tu as lês. Pensei, a partir do estado de consciência em que a leitura de Saramago ia me levando, como este escritor, a sua forma de ir incluindo o leitor na trama da narrativa, fez por mim muito, talvez mais do que tanta literatura sobre a libertação interior.

O mundo da literatura, tal como Saramago o constrói, nos traz de volta ara o mundo que cada um de nós vive. E aqui me permito ver uma coincidência com o mundo da verdade, quando Jesus diz: a verdade vos libertará. Não está falando de alguma crença, está se referindo à experiência, este mundo do qual cada um de nós é o titular e o soberano. Quando podemos viver na verdade, respiramos fundo, somos isso, não há distância entre eu e o que ocorre, eu sou o que ocorre, eu sou esse fluir do que está aqui e agora. O que se opõe à verdade são as crenças, as falsas ideias sobre o mundo e sobre nós mesmos> Isto pode ser lido no livro de Miguel Angel Ruiz, Los cuatro acuerdos. Na medida em que somos capazes de estarmos na realidade, de nos vermos como parte indissociável dela, o outro mundo, ou os ouros mundos, ficam menos importantes. Eu posso, eu posso ser nesta realidade da qual sou parte. Isso é o que se me aparece ao entendimento neste momento, como o movimento da libertação interior.