O Mito Mercado – Ensaio II

O Mito Mercado“Madeeeeeira!”
Sempre que chove em São Paulo calculo dois dias para que chova no Rio. Se quero pegar uma piscina ou praia, sunga de imediato. Em dois dias já saio de casa com guarda-chuva. A taxa de erro desse cálculo experimental do tempo é de 10 a, no máximo, 20 por cento. Como diriam Nelson Rodrigues e meu pai: “É batata!”.

O mesmo se aplica aos “elogios” dos instrumentos institucionais do “todo poderoso” Mercado: FMI, Banco Mundial, BID, revistinhas especializadas e mesmo alguns governos estrangeiros como o dos Estados Unidos. O tempo médio que um país abaixo da linha do Equador – à exceção da Austrália – leva para desenvolver esses dois produtos finais: aniquilamento econômico-financeiro ou guerra civil – que em geral costumam andar juntos, como Fobos (Medo) e Deimos (Pavor) andam juntos de Ares (Guerra) – depois de ter recebido um elogio dos órgãos internacionais sob tutela do “todo poderoso”, é de cinco anos. Quem duvide que pesquise! “É batata!”.

Quanto maior o Gigante…
Um exemplo prático. Leio na reportagem “Sobre a Cegueira” de Antonio Luiz M. C. da Costa na Carta Capital dessa semana que a revista The Economist (edição de 19 de setembro de 2007) publicou a seguinte pérola da opinião “embasada” de Mercado: “O Quênia pode dar um exemplo para a África do Sul e o resto do continente” (…) “Pode não ser tão sexy quanto a África do Sul, mas como ilha de estabilidade e prosperidade na África Oriental, a qualidade de sua democracia faz diferença.”

Como eu disse: a média cronológica que leva um país à débâcle financeira e civil depois de um elogio desse porte é de cinco anos. Essa média depende, é claro, da estrutura política e financeira que o país possua para sustentar as políticas vampirizantes do Mercado. Uma criança cai mais cedo numa hemorragia que um adulto bem alimentado. Uma “ilha de prosperidade” (para os investidores sanguessugas internacionais) fatalmente cairá mais cedo que um país como a Argentina, o Brasil ou até a vitrine internacional das ideologias e modismos do Mercado, os Estados Unidos.

No caso do Quênia, elogiado em 19 de novembro pelo FMI em suas “reformas liberais” e “política fiscal ortodoxa”, sendo agraciado com mais um empréstimo (a juros incalculáveis) desse altíssimo benemérito do desenvolvimento internacional, a guerra civil levou dez dias para acontecer.

Em linha corrida não temos o impacto correto. Em tabela fica tudo mais interessante:

19 Novembro 2007
FMI elogia “reformas liberais” e “política fiscal ortodoxa” no Quênia. Lamenta o atraso no pagamento da dívida (correm juros) e decide aumentar os empréstimos (se o Quênia não paga significa, para o FMI, que a soma é tão baixa que eles simplesmente esquecem)

19 Dezembro 2007
The Economist: “O Quênia pode dar um exemplo para a África do Sul e o resto do continente” (…) “Pode não ser tão sexy quanto a África do Sul, mas como ilha de estabilidade e prosperidade na África Oriental, a qualidade de sua democracia faz diferença.”

29 Dezembro 2007
Estouro da Guerra Civil no Quênia.
Saldo até 16 de janeiro de 2008:

  • 500 vidas perdidas
  • 250.000 refugiados
  • 1.000.000.000 de dólares em prejuízos.
  • (correm juros)

Enquanto isso, na Montanha Mágica…
Está sendo difícil sustentar o discurso competitivo-agressivo do Mercado em Davos. Como sempre, aquilo que os órgãos difusores do discurso neoliberal pregam é o extremo oposto do que fazem, isso é natural no sistema de desinformação política desde que o mundo é mundo – os evangelistas “não ortodoxos” como Tiago, Maria Madalena e Judas que o digam (ou dissessem, antes de terem suas versões da vida do cristo incineradas pela visão ortodoxa e poder político da Santa Igreja ascendente no império de Constantino).

Mas o divertido agora é ver, na mais nova crise (inerente ao processo de dilapidação dos países menos maduros politicamente – aqueles que acreditam no discurso dos “órgãos oficiais” e revistas “especializadas” do “todo poderoso Deus-Mercado” – pelos países e conglomerados financeiros mais experientes) a busca de soluções no discurso inverso do apregoado até então. Ao invés de incentivar a competição agressiva, suicida e desenfreada de todos contra todos, Klaus Schwab, presidente do Fórum Econômico Mundial, mudou o discurso e agora diz que a palavra de ordem do encontro será “cooperação para enfrentar os desafios”. Mudança de estratégia ou simples desespero diante das respostas catastróficas que o discurso da incerteza que gera lucro tem trazido diariamente?

Só sei que nada sei
Os temas do pomposo World Economic Forum em Davos – região da Suiça em que Thomas Mann situa o sanatório(!) onde se passa seu romance A Montanha Mágica – estão sendo atacados por um dos maiores pilares do discurso neoliberal: a incerteza. A tão propagada incerteza benéfica que é característica indispensável a um ambiente competitivo em que “naturalmente” se sobressaem os “melhores”, a mesma incerteza primordial, “mãe primeva” do desenvolvimento da espécie humana, sem a qual os filósofos do capitalismo (à época em que o capitalismo ainda produzia filósofos) juravam que viveríamos ainda sob tetos pedregosos de cavernas, acomodados e relaxados.

Mundumbigo
É natural que as teorias filosóficas sobre a “natureza” do homem sigam a lógica da célebre frase de Freud (“Quando Pedro me fala de Maria sei muito mais de Pedro que de Maria”), tracem todo o perfil psicológico do autor da tese desde a infância à morte antes de chegarem a esboçar um pálido perfil de alguma natureza que se possa denominar “humana”. O mundo para a grande maioria dos filósofos clássicos, principalmente os contratualistas e economistas escoceses e ingleses, não passa de um reflexo multiplicado ad infinitum dos seus umbigos. Resta-nos perguntar: Qual é o mundo que esses caras criaram? O mundo em que a incerteza é a própria mola da “evolução” humana, a “mola propulsora da história”, se quisermos usar uma frase do próprio contexto.

Erguendo paredes na lama
Qual a razão, além da acima abordada, para toda essa difusão da incerteza como inerente à natureza humana? Pensemos num universo totalmente incerto em que todas as instituições estão falidas: justiça, família, casamento, governo, órgãos administrativos, comunidades, amizade, trabalho… Se o leitor fosse um produtor, produzisse alguma mercadoria de valor, seria mais fácil ou mais difícil, neste contexto, impregnar essa mercadoria de um discurso que a torne indispensável à própria vida humana? Se não existem redes sociais atuantes que dotem o indivíduo de uma coesão e de uma coerência interna dentro de um sistema cultural, se também inexistem mecanismos governamentais confiáveis ou mesmo qualquer pessoa confiável, até uma camisa pode ser meu “melhor amigo”, meu centro de sentido e identidade.

Mas lembre-se, leitor, de que você vive de produzir (no caso camisas) e, bem, uma vez tendo a camisa, aquele cara, imerso num universo caótico, tem pelo menos uma certeza: ele não precisa de outra camisa como aquela. O valor dela deve ser então modificado através de um discurso que, agora, deprecie a qualidade, utilidade ou a beleza daquela mesma camisa enquanto valoriza a nova coleção do tecido ou do corte “X”, por exemplo. Na lógica do produtor ninguém pode ter a certeza de que não precisa de mais camisas. Certezas são problemáticas! Certezas, segundo os gramáticos do discurso do “todo poderoso”, geram acomodação e quem se acomoda produz menos (capital).

O Milagre econômico do Caos
O valor da difusão da incerteza, do que chamo de discurso contemporâneo do caos como pedra fundamental do discurso do “todo poderoso” é justamente ter a possibilidade de oferecer – mediante milhões de prestações, juros, carnês, cheques, promissórias digitais etc – uma dose instantânea de cosmos, ou seja, de ordem, de sentido na vida.

Substituindo, no parágrafo anterior, a palavra “camisa” por qualquer outra mercadoria ou serviço e lembrando das campanhas publicitárias dos bancos, carros etc, perceberemos como qualquer um deles procura dar a seus compradores uma determinada “identidade” anexada ao produto. Como os publicitários dizem: eles não vendem produtos, eles vendem conceitos, idéias, sentimentos… A nós, como consumidores, é simples, fácil e lícito comprá-las – a essas identidades, atitudes e promessas de felicidade enlatada – justamente porque o discurso do caos nos metralha de incertezas crescentes.

Ironia suprema
O “todo poderoso” Deus-Mercado é composto por pessoas, seres humanos. Ainda que tenha a pretensão de desenvolver leis infalíveis, como as demonstradas no início do texto, vendidas e difundidas como “fórmulas mágicas” para o crescimento de um país, o Mercado é composto por indivíduos (ainda que esses indivíduos se arroguem o título de demiurgos infalíveis, oniscientes e onipotentes como boa parte dos economistas) e, como tais, eles dificilmente seriam poupados da “maravilhosa mola propulsora da humanidade”, a incerteza. Estranhamente agora, nossa grande amiga incerteza se nos apresenta como um problema, não como uma solução estrutural para o desenvolvimento humano…

World Economic Caos
A reunião anual dos gramáticos do Mercado – os “vencedores entre os vencedores” para usar a gramática própria do neoliberalismo popularizado – tem quatro pontos de discussão, todos alicerçados em incertezas geradas e fomentadas pelo próprio Mercado e, sobre as quais, o “todo poderoso” já não tem mais o controle que gostaria:

1. Risco financeiro sistêmico:
Parece que os Bancos Centrais e as grandes agências de análise e investimento começaram a perceber que, ao contrário do capital gerado pelo trabalho e pela produção, existe um limite para o capital gerado pela especulação. Há um problema de liquidez no mercado, que causa um grande mal-estar aos economistas ortodoxos: simplesmente não há, no mundo, dinheiro suficiente para que os megainvestidores efetivamente “saquem” das suas continhas na Suíça e, caso eles decidam efetivamente “sacar”, os Bancos Centrais teriam que imprimir muitas e muitas notas, o que desvalorizaria a moeda usada para os saques. O problema é que toda a vez que ocorre uma “crise” – como a “crise” imobiliária dos Estados Unidos ou sua crise bancária, sua crise institucional, sua crise de estabilidade, por exemplo – os investidores “sacam” e investem em outros lugares mais “estáveis” (dentro da possibilidade de estabilidade oferecida pela lógica e regras do Mercado, ou seja, uma estabilidade de curtíssimo prazo, ineficiente para gerar qualquer forma de desenvolvimento do país que recebe esses “investimentos”).

De qualquer forma as economias e o capital da maior parte das megaempresas mundiais é composto por capital especulativo (instável, volátil) e não por capital oriundo da produção e do trabalho (estável, fixo), e é claro que, numa situação de crise econômica como a que os Estados Unidos estão enfrentando há anos – e mascarando com guerras no Afeganistão, Iraque etc – aqueles grandes investidores que desejam lucro fácil e rápido vão retirar seu capital, vender suas ações mesmo que abaixo do preço a que as adquiriram, com medo de perderem ainda mais.

Consuma e acredite!
O risco existe. Os empresários, especuladores profissionais e banqueiros sabem disso, mas esperam que seus concorrentes desistam primeiro. “Faz parte do jogo”, dizem. Os “perdedores”? A população em geral, afastada do recanto e do glamour à la Disney de Davos ainda não pode ser considerada humana o suficiente para que eles se preocupem com ela. “Consumam” – nossas idéias – “e acreditem” – em nossas palavras -, isso é tudo com que precisamos nos preocupar no momento.

2. Segurança alimentar:
Nem todo transgênico está conseguindo ser testado nos países-laboratórios do terceiro mundo. Não é todo o país que tem a irresponsabilidade de doar terras imensas para o plantio de soja transgênica, como o Brasil faz no Mato Grosso, para que a nossa população sirva de cobaia para os possíveis efeitos de um alimento geneticamente modificado. Afinal, é preciso testar em humanos (ou quase humanos, segundo o conceito de Davos para os viajantes da “terceira classe” da nave Terra boiando no espaço) antes de levarmos para os estadunidenses, alemães, franceses, japoneses e cia.

A questão é que os laboratórios responsáveis pelos transgênicos e pelos clones entenderam, entre eles, que já testaram o suficiente e que o lucro deles será maior quando produzirem em escala planetária suas sementes frígidas (sementes de apenas uma safra, onde os alimentos produzidos serão todos idênticos e não serão capazes de se reproduzir, forçando o agricultor a recorrer sempre ao laboratório que registrará as patentes da laranja, do morango, do coco, açaí, babosa etc). O que se denomina “segurança alimentar” engloba na realidade a segurança biológica com a saúde dos realmente “humanos” – acima da linha do equador – e a segurança política contra o monopólio de laboratórios sobre as patentes de determinados “produtos” biológicos.

3. Vulnerabilidade na cadeia de abastecimento:
Com tantas guerras no mundo, pirataria na costa africana, xenofobismo, tensão e desconfiança generalizada criada pelo próprio caos sistêmico que alimenta a lógica neoliberal, nem sempre fica muito fácil atravessar oceanos, vales, montanhas, países e culturas para receber, com um clique, um celular da China, uma obra de arte finlandesa, uma camisa da Palestina.

A degradação real e não videotizada das condições do trabalho, moradia, habitação, saúde e existência no mundo inteiro dificulta a irrealidade virtual da tão alardeada “Aldeia Global”.

4. Energia:
Os estrategistas econômicos e políticos do “todo poderoso” já sabem qual a energia é renovável e tem o potencial até maior que o do Petróleo, mas verificaram que as empresas de energia (antigas empresas petrolíferas) precisam de tempo para se adaptar às novas condições da energia rural, da biomassa, caso contrário perderiam seu monopólio estratégico. Um dos maiores problemas da biomassa é que a energia gerada por ela é oriunda do sol e, portanto, depende da incidência diária de sol e de um bom terreno para se semear plantas que, através da fotossíntese, armazenem grande quantidade de energia. O Brasil é, no mundo inteiro, o país com a melhor dobradinha incidência de raios solares + terrenos vastos e férteis, o que vem se tornando um problema para a nossa segurança nacional e soberania.

Esse é o único embargo real à energia renovável e limpa (comparada com o petróleo), mas não temos razões para nos preocupar, afinal, o presidente Lula já liberou extensas porções de terras nacionais para empresas norte-americanas explorarem sem prestarem contas à população brasileira. Então, como sempre, “consumam” – nossas idéias – “e acreditem” – em nossas palavras -, isso é tudo com que precisamos nos preocupar no momento.

Leia também

O Mito Mercado – Ensaio I
O Mito Mercado – Ensaio III

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Renato Kress(*) Renato Kress (@renatokress) é antropólogo, sociólogo, cientista político e escritor. Coordenador geral e fundador da Revista Consciência.Net. Lançou em 2000, aos 18 anos, o livro Consciência, sobre impactos do neoliberalismo nos países de terceiro mundo, livro este que começara a escrever dois anos antes e que deu origem ao nome desta Revista. Contato por email, clique aqui. Para outros textos do autor, clique aqui.

Renato Kress é carioca. Sociólogo com habilitação em ciência política e antropologia (PUC-Rio). Treinador de empresas. Diretor do Instituto Atena. Coordenador de conteúdo da revista eletrônica www.consciencia.net. Escritor e contista.

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