O Mito Mercado – Ensaio III

O Mito MercadoAndei deixando um pouco minhas aspirações ao estudo mítico do deus “Todo Poderoso” Mercado, mas sabe como são as velhas paixões, invariavelmente, no silêncio das novas, nossas memórias percorrem aquelas imagens carregadas de valor simbólico ou afetivo. Confesso amigos, eu adoro ver o Mercado como uma divindade e entender nossa sociedade como um grupo desorientado de devotos se lamuriando pela ausência de sentido aparente nos desvarios do Baco de Davos.

Então, voltemos à brincadeira.

No mundo das idéias
Vou falar um pouco sobre a Grécia imperial de Péricles, mas perdoem-me pela historicidade excessiva, ela é necessária quando se procura mostrar uma vida regida à base de crenças religiosas. Mesmo que a crença atualmente se aplique a um deus cuja racionalidade alguns ainda esforçam-se para crer, mesmo que sejam esforços ridículos.

Péricles era um homem complexo e um estadista impressionante. A cultura na Grécia sob sua gestão era algo importantíssimo. O Estado considerava fundamental para a cidadania e a formação cultural das pessoas o fato de elas poderem assistir às representações teatrais. Só assim podemos explicar a imensa fama de que gozaram os poetas trágicos, mesmo nas camadas mais humildes da população. A presença de milhares de cidadãos nos debates da Assembléia do Conselho e dos tribunais populares era para todos uma verdadeira escola de oratória pública, de discussão dos grandes assuntos de interesse comum, de análise e de comparação.

Retórica e poder
Neste mesmo período desenvolveu-se todo um conjunto de idéias que, arraigando-se nas pessoas de forma a favorecer não somente a exploração da alma humana como também sua especialização da inteligência em sentido racionalista, acabou tendo aplicações na vida prática.

Comer é preciso, pensar é impreciso
Os intelectuais que difundiam esse novo tipo de cultura eram chamados sofistas, literalmente “grandes sábios”, e ofereciam seu saber na forma de lições pagas. Na sua maioria não eram representantes das classes mais abastadas, embora os que fossem também desejassem acumular riquezas ou mesmo vissem, no seu trabalho, uma necessidade de troca, de escambo, um valor a ser trocado por outro valor.

Retórica e poder
De modo geral eles proporcionavam aos jovens os meios para alcançarem o sucesso, indepentendemente das convicções éticas e da fidelidade às instituições. Algo como o germe das faculdades atuais, ou os intelectuais de contracheque do Manhattan Connection. Platão, o moralista da época, se incomodava com essa questão e escreveu seu diálogo “Górgias” baseado nas críticas que Sócrates teria sobre Górgias de Leotinos, um sofista da roda de Péricles, que constituía um círculo restrito de intelectuais esnobes que sorririam para você, iluminando-o a preços exorbitantes.

Sucesso a qualquer custo
O seu racionalismo exasperado, baseado numa dialética irreverente e zombeteira que os levava a dizer que tudo (e o contrário de tudo) podia ser demonstrado, fez com que tivessem um sucesso avassalador, principalmente entre os jovens que viam neles os “vencedores”, os porta-vozes de uma mentalidade até então revolucionária: a competência desvinculada da moral.

Com o tempo a palavra “sofisma” passou a ser sinônimo de raciocínio capcioso, impecável e até mesmo genial do ponto de vista lógico, mas fundamentalmente absurdo no que dizia respeito à substância. Sofistas tornaram-se símbolo de uma tendência, já bastante visível na sociedade ateniense, que só visava a sucesso, a dinheiro, a prazer e à carreira, deixando embotados os valores da pólis (cidade), da rés (coisa) pública. O cuidado à coisa pública era secundário se comparado à fama e ao sucesso pessoal. Isso não parece levemente atual?

Intelectuais, sábios, sacerdotes e mercadores
É claro que muitos reagirão dizendo que não se pode dividir a humanidade em “bons” e “maus”, que em ninguém está encarnado o Bem ou o Mal absoluto, que é impossível determinar o bem que possa advir de uma certa atitude “má” ou o mal que pode suceder a alguma atitude “boa” – a meu ver esse é o argumento básico dos relutantes, indecisos e covardes, mas é um ponto de vista a ser considerado com seriedade, sem dúvida. Esses homens em particular ignoravam nosso conceito de “bem” e “mal”, de forma que o processo de desvio do cerne da sociedade, naquele caso, dos deuses olímpicos e ctônios para o deus-dinheiro, como o próprio Aristófanes coloca muito bem em uma de suas comédias, é mais fácil de ser analisado, com a devida isenção e distância.

De qualquer forma eles acreditavam piamente que a natureza ou os deuses concediam kratos (“força”) e areté (“superioridade”) àqueles capazes de usá-la. Um conceito que agora nós compreendemos como Darwinismo econômico ou neoliberalismo selvagem. Era simplesmente natural para eles, imperativo até, vencer sempre e de qualquer maneira. Um comportamento para além do bem e do mal, para usar uma expressão de Nietzsche.

A esperança, uma calamidade
Hesíodo, poeta clássico que nos conta sobre o mito da Caixa de Pandora, dizia que a esperança ficava abaixo de todos os males que se escondiam dentro da tal caixa. Como todo poeta clássico, ele compreendia a dimensão simbólica do que escrevia. Entendia que um símbolo, para estar completo, precisa poder ser interpretado de várias, conflitantes e complementares visões possíveis. Não queria ele dizer que a esperança é o último dos males, o pior de todos? No seu ver a esperança era o que conduzia à apatia e ao torpor, na espera de que algo externo venha resolver o problema, qualquer que seja a gravidade e a natureza do problema, a esperança é sempre capaz de se expandir para abarcá-lo, sufocá-lo, reprimi-lo e, sempre, esperar.

A patologia social do “líder”
Num universo social onde as possibilidades se vendem como ilimitadas, onde a idéia do homem como fluxo de crenças, comportamentos e idéias descartáveis, compráveis, alugáveis e intercambiáveis se torna cada vez mais naturalizada, o homem se sente atordoado, completamente pasmo, perplexo e perdido no hall interminável das informações, produtos, idéias grátis, à venda, a prazo, a risco. É nesse tipo de sociedade estranha que podemos enxergar alguns fenômenos interessantes, como a fixação midiática sobre a figura do “líder”. Um homem atordoado por anos facilmente delega a qualquer indivíduo com uma reluzente casca de seriedade ou sabedoria, todas as responsabilidades sobre sua vida, uma sociedade atordoada faz o mesmo, fácil.

Liderança e delegação de responsabilidades
Não estou aqui para discutir a necessidade ou não de líderes em nossa sociedade. Toda sociedade tem suas figuras emblemáticas, históricas, lendárias ou míticas, heróis, pais fundadores de Estados, costumes, civilizações, empresas, idéias. Eles são indiscutivelmente necessários, mas, além de tudo, eles – os grandes líderes – ocorrem naturalmente. São homens de seus tempos e, simultaneamente, são representações de “saltos quânticos” necessários às sociedades de seus tempos. Mas revertendo o estudo histórico, líderes, pelo menos os grandes líderes – para o bem ou para o mal – tiveram seus méritos até que chegassem ao poder. Nossa sociedade parece tão absurdamente perdida, fragmentada, fractada e desolada em busca do tal “líder” que mal pode esperar para delegar todas as suas responsabilidades a qualquer sujeito que se encaixe no padrão de “grande pai” ou “grande mãe” e passe a mão na cabeça de seus assustados e condescendentes cidadãos em meio a expressões de tranquilização geral. A meu ver esse tipo de sociedade conduz a fenômenos como os fascismos sociais, políticos e ideológicos.

Tenho observado com certa apreensão a quantidade de filmes “blockbuster” com o nazismo como tema ou pano de fundo. Para encerrar um espectro e convidar o leitor a fazer uma pesquisa rápida, levantei os filmes mais badalados com o tema de 2000 a 2008, só para vermos a quantidade de filmes que tratam desse tema.

2000 – O Julgamento de Nuremberg

2001 – X

2002 – X

2003 – Um Passaporte Húngaro
O Tango de Rashevski

2004 – A Queda! As últimas horas e Hitler

2005 – Uma mulher contra Hitler

2006 – A Espiã
Contrato Arriscado

2007 – Leningrado
Os Falsários
Katyn
Desejo e Reparação

2008 – Contratados para matar
O Leitor
Defiance
Max Magnus: o Homem da Guerra
Uma canção de amor
O menino do pijama listrado

Imaturidade necessária
O aparato neoliberal econômico e social necessita de um sujeito ideal médio tanto quanto de um sujeito ideal superlativo. O sujeito ideal superlativo, o tal “líder”, está com todas as características que vemos como ideais e valores em voga na atualidade, a moda empresarial do sujeito “pró-ativo”, “competitivo”, “agressivo” e todos os demais valores com os quais já estamos familiarizados a ponto de engasgar. E o sujeito ideal médio? O sujeito ideal médio é o sujeito eternamente consumidor, porque eternamente carente. Quanto maiores as dimensões das carências do sujeito médio, maior a gama de produtos, idéias, modas ele estará interessado a suprir pelo consumo. A sociedade neoliberal necessita do sujeito carente. Mas mais do que isso, a sociedade neoliberal contemporânea necessita do sujeito imaturo, emocionalmente, psicologicamente, moralmente, socialmente imaturo. Somente este sujeito tenso, comprimido e atomizado, de fraca formação de caráter, é capaz de consumir eternamente, porque somente ele pode ser convencido, periodicamente, de que não é ajustado, desejado, amado, hábil, apto, capaz.

Arquitetura da destruição
Nessa sociedade doentia cuja flexibilidade moral acaba sendo, enfim, o último e grande valor a ser cultuado, o grande deus vira o grande Capital, seus avatares os empresários e banqueiros, sua lógica a financeira, seu discurso uma construção qualquer baseada nas pífias tentativas de elaborar alguma coerência e coesão entre os ditames flexíveis dos interesses dos capitalistas selvagens.

O triunfo da vontade
Não me surpreenderia encontrar daqui a alguns anos, dada morosidade dos justos, algum grande banqueiro ou especulador internacional assumindo claramente o controle de alguns Estados, privatizando todos os seus direitos, seccionando classes de cidadãos pela sua renda e instrumentalizando, para isso, o discurso fácil e rasteiro da meritocracia.

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O Mito Mercado – Ensaio II

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Renato Kress(*) Renato Kress (@renatokress) é antropólogo, sociólogo, cientista político e escritor. Coordenador geral e fundador da Revista Consciência.Net. Lançou em 2000, aos 18 anos, o livro Consciência, sobre impactos do neoliberalismo nos países de terceiro mundo, livro este que começara a escrever dois anos antes e que deu origem ao nome desta Revista. Contato por email, clique aqui. Para outros textos do autor, clique aqui.

Renato Kress é carioca. Sociólogo com habilitação em ciência política e antropologia (PUC-Rio). Treinador de empresas. Diretor do Instituto Atena. Coordenador de conteúdo da revista eletrônica www.consciencia.net. Escritor e contista.

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