O jovem SUS e sua história

SUS e sua História. Aquino, Julio César Marques.dez 2018

O bebê com o nome de Sistema Único de Saúde nasceu no ano de 1988, em meio a uma família complexa que já havia tido outros filhos, mas com um fracasso em sua forma de criação. A criança foi gerada em um momento turbulento na vida dos pais, e dos conhecidos que a rodeavam. Não havia  recursos para criá-la. Não sabiam nem por onde começar. Quais seriam as estratégias? Uma vez que já estava fecundada, torcer para vir com saúde era o mais importante. O resto ia se encaixando.

Enfim, nascera o pequeno“SUS”, como carinhosamente fora apelidado. Um predestinado a passar apuros por problemas em sua saúde física. Não que ele fosse doente e de fato, mostrou-se desde o nascimento, hígido e preparado para as adversidades que a vida poderia lhe impor.

Com somente dois anos deidade,seus pais decidem registrá-lo para que fosse reconhecido como lhe era de direito. Com a lei 8080 de 19 de setembro de 1990,deram a possibilidade  do pequeno  ganhar a liberdade de ir,vir, falar quando e como quisesse, podendo ser escutado democraticamente. Um ano depois, devido ao espírito altruísta, porém de ceder e não receber nada em troca, começa uma rede de apoio para ajudar no seu processo de  crescimento. Decidem que sua guarda seria dividida por três cuidadores. Foi criada a comissão tripartite formada por três tios seus, a União, O Estado e o Município que apareceram  para não lhe deixar faltar nada. Outra ideia  que foi colocada em pratica seria a da criação do programa  de agentes comunitários de saúde  que lhe iria amparar as necessidades do jovem menino de 8 anos de idade. Estes integrantes lhe iriam auxiliar no lhe fosse necessário em sua atenção básica e dar suporte para a redução da conhecida e temida doença chamada mortalidade infantil que afetavam crianças de sua idade e menores que ele. Posteriormente, o fortalecimento desse grande apoio lhe permitiu o desenvolvimento intelectual do chamado programa de saúde da família.

Na idade escolar, o garoto conta com formações que lhe foram capacitando para as dificuldades que estariam por vir. Através de conselhos e ações que puderam mostrar-lhe por amor ou pelador, conhecimentos úteis que lhe ajudariam a lutar contra os obstáculos impostos pela vida. Como todo jovem, teve que receber Normas Operacionais Básicas que o foram ensinando que nada é tão bem feito sozinho, do que estando acompanhado.Anos mais tarde, com seus aprendizados em um nível escolar avançado, conclui como é importante a distribuição das tarefas para não cansar-se e perder o interesse pelas labutas diárias. Como estudante dedicado, apaixonou-se pelos conhecimentos aprendidos nas aulas de Normas Operacionais de Assistência à Saúde. Aprendeu a partilhar, a crescer em equipe e percebeu que na vida, é preciso sempre estender a mão.Porém, isso iria lhe custar caro pois, para  um quedá, existirá outro que pode tomar.

Ainda na sua adolescência,o SUS depara-se com  uma série de dificuldades e traições de amigos do qual ele confiava. Parcialmente fragilizado, debilitava-se diante de um novo agravante. Aos seus dezessete para dezoito anos e já sem pais, foi amparado pelos seus tios que vendo as dificuldades que o jovem ainda deveria trilhar e,que realmente não seria um adulto completamente saudável, decidem organizar algumas ações que pudessem ensinar-lhe a lidar com as adversidades diárias eque o fizesse possivelmente imune. Optam por fazer uns pactos para não deixá-lo desamparado em caso de adoecimento. A primeira e principal decisão foi o Pacto pela Vida onde visava melhorias de sua situação de saúde. Posteriormente,definem um pacto que pudesse defendê-lo e garantir a estabilidade econômica para o caso de necessidade. Outra decisão interna é a criação do Pacto da Gestão,que dava responsabilidades a quem pudesse cuidar de suas debilidades nos momentos de invalidez. Além disso, decidem criar redes de apoio para ajudar na manutenção, cuidado em uma necessidade maior. Essas atitudes criaram um ambiente de “respiro” para o jovem que aprendia com as dificuldades diárias.

Na vida, os problemas sempre existirão. Eles fazem parte de nosso crescimento. É necessário estar preparado . No caso do adulto jovem SUS, as perseguições,humilhações e os ataques patológicos continuavam rotineiros. De todos os lados vinham palavras pronunciadas de que ele não daria certo. Que seu futuro seria obscuro e, que tudo que fosse feito não surtiria resultado. Mesmo diante de tanto negativismo, o que lhe acalentava era o prazer de ter uma família além  da sua que,  apesar de semi-ausente, lhe amparava e apoiava nas decisões. O que o fazia prosseguir firmemente. Desistir, jamais fez parte de seus planos.

Hoje, ainda há quem diga que o adulto Sistema Único de Saúde não irá muito longe. O certo é que já se passaram 30 anos e, ele continua vivendo e acreditando em suas intuições. Com seu bom coração pôde ajudar em uma cobertura vacinal abrangente, a pessoas pararem de fumar com o controle do tabagismo, a outros que padecem de HIV/AIDS,na assistência farmacêutica dos que o necessitam e com isso colabora com a saúde de 60 % do total de todos os que o conhece e carecem.  Infelizmente, com  seu crescimento e adultez, seus tios, ou melhor seu tio União decidiu reduzir seus gastos nos próximos 20 anos,estabelecendo um teto para controlar tudo o que fosse necessário ser usado , o que reduziu suas necessidades diárias. Com a criação da  Emenda Constitucional 95 (EC-95/2016), o teto de gastos passou a vigorar mesmo em situação de necessidade, o  que deu poder aos que não o tinham bem quisto a analisarem a real possibilidade de sobrevivência. Deduzo que não conseguirão. O fato é que o SUS não deixará de existir.Mesmo diante de tantas impossibilidades sempre haverá um grupo de admiradores que o ajudarão a prosseguir respirando e ser o gigante que sempre foi e será. Por que seus pais o trouxe ao mundo pelo povo e para o povo.                                                                                        

Referências:

  1. Sabedoria Política;Linha do tempo do SUS. Disponível em: https://www.sabedoriapolitica.com.br/ci%C3%AAncia-politica/politicas-publicas/saude/linha-do-tempo-do-sus/.
  2. Paim,Jairnilson Silva. Sistema Único de Saúde (SUS) aos 30 anos. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2018, v. 23, n. 6 [Acessado 16 Dezembro 2018] , pp.1723-1728. Disponível em:<https://doi.org/10.1590/1413-81232018236.09172018>. ISSN 1678-4561. https://doi.org/10.1590/1413-81232018236.09172018.
  3. Brasil.Ministério da Saúde. Pactos pela Vida, em Defesa do SUS e de Gestão. Secretaria Executiva, Departamento de Apoio à Descentralização. Coordenação-Geral de Apoio à Gestão Descentralizada.– Brasília,2006.

Brasileiro, Casado. Médico formado pela Escola Latinoamericana de Medicina (ELAM), Havana, Cuba. Atua como médico residente de Medicina de Familia e Comunidade na Secretaria de Saúde de Sinop (MT). É professor de medicina na Universidade Federal de Mato Grosso, locutor de Saúde com quadro semanal, palestrante e músico.

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