O homem que pagou minha história

Vislumbrar o título de ser médico na atualidade é gratificante porém, não foi um trajeto fácil.  De altos e baixos que em alguns dias, deu vontade de desistir mas, a persistência brotava no amanhecer. Recordo um momento de grande aprendizado em uma manhã há alguns dias quando tive a oportunidade de estar sentado a beira da praia de Copacabana (por sinal um lugar estimulante), observando os vendedores ambulantes batalhando para conseguir o dinheiro através de seu suor. Vendiam desde cintos e óculos, a comidas e bebidas. A passagem dos mesmos me levou há algumas lembranças na memória. Quando adolescente,eu tive o prazer de passar por uma experiência parecida e que agora terei o prazer de trazer a tona para compartilhar com você querido leitor.

Eu tinha por volta de  treze anos de idade, quando decidi  que queria ganhar meu próprio dinheiro para ajudar em casa e comprar minhas coisas. Ideias típicas de menino adolescente. Meu pai, nessa época, para complementar a renda do lar, decidiu começar  a vender bebidas na praia. Comprou uma bicicleta, organizou uma caixa de isopor no bagageiro e, diariamente enchia a caixa com bebidas para vender. Observando as idas vindas, percebi que fazer o mesmo me daria a resposta da qual eu  precisava porém,a mim, restou vender as bebidas em uma caixa em que eu carregava no lombo mesmo. Geralmente a colocava no ombro esquerdo. Dobrava uma toalha por cima do couro que cobria a cabeça do úmero, clavícula e escápula e, que servia como amortiguador para não doer quando fosse colocada a alça da caixa. Ela geralmente era muito fina e machucava muito deixando uma grande lesão próxima ao acrômio. Sem contar que eu sempre tive uma proeminência óssea do ombro bem saliente, onde repousava a alça e, que  até hoje não achei explicação em nenhuma literatura mas, se apresentava incomodante quando era desperta. Carregar um botijão de gás, nem pensar e a alça da caixa fazia questão de cair nessa área de suplício.

O lugar onde escolhi para trabalhar era  a praia da Enseada em Guarujá. Para quem não a conhece, é uma praia extensa consideravelmente. Com, seis quilômetros de distância em areia. Andando com o objetivo de vendas, eu levava querido leitor, quase um horário útil para ir e regressar. Uma vez, já terminado o trajeto de ida e regresso,eu caí na tentação de decidir dar mais uma volta para tentar terminar as vendas. Para que a sábia  ideia? Por que não ficar apenas com o trajeto clássico? No dia seguinte, eu não conseguia ir trabalhar. Quer dizer, não fui. Me doía cada músculo do corpo como se estivesse sido infectado com o vírus da Dengue.

Um dia, uma dessas voltas me marcaria para sempre. Eu havia iniciado o trajeto clássico de ida como todos os dias porém, aquele,  parecia que não ia dar certo. Eu já havia percorrido a ida e estava no meio do caminho para a volta. Geralmente, eu levava comigo um instrumento de fabricação caseira feita por mim mesmo a partir da ideia da pandeirola. A construção saiu quando pedi para meu  pai serrar duas madeiras de uns vinte centímetros de comprimento por cinco de largura e no meio, entre as duas madeiras, eu havia colocado alguns pregos com tampinhas de garrafas de metal abertas e furadas ao meio. furadas ao meio, duas ou três tampinhas tinha um prego onde as mesmas deslizavam e soavam como  a pandeirola. Com essa construção, eu saia pela praia tocando aquele instrumento como se fosse samba. Isso chamava a atenção dos banhistas que sempre perguntavam o que era aquele invento. Eu os explicava e, em seguida, tocava para eles. Ao final, muitos acabavam comprando alguma bebida em agradecimento pela demonstração.

Certa vez,algo diferente passou. No dia em que eu já estava no término da caminhada, um homem sentado com  a família e com outros parentes, decide abordar-me e perguntar o que era o instrumento inventado. Como sempre, respondi e em seguida fui motivado a apresentar a sonoridade da pseudopandeirola. Ali, fiquei cerca de uns dois minutos apresentando o som e no final:

– O que você está vendendo ai moleque? Me pergunta o homem.

– Tio, eu tenho cervejas e refrigerantes. Lhe respondi.

– Quantas cervejas você tem aí?

– Para falar a verdade. Tenho todas. Eu não  consegui vender nenhuma ainda. E estou quase terminando meu dia. Disse-lhe mostrando a caixa ainda cheia.

– Quantas tem? Pergunta o homem.

– 1,2,3… 12 no total.

– Eu quero todas.

– O senhor falou todas? Pergunto espantado com a ordem do homem.

– Sim. Tenho uma caixa de isopor aqui e as vou deixar para ir desfrutando com a família. Respondeu-me.

Instantaneamente brotou-me um sentimento de alegria, uma vez que praticamente iria terminar as vendas naquele dia e retornar um pouco mais cedo para casa. Em seguida retorno com a frase:

– Muito obrigado moço. Não sabe como me ajudou.

– Eu vi que você é um moleque batalhador. Respondeu- me virando o olhar fixo para a contagem das latas que entravam em sua caixa. Posso te falar algo? Sabe por que hoje eu posso desfrutar com a minha família este momento aqui na praia? Por que um dia eu batalhei muito para ir ascendendo na vida. Foi de degrau em degrau até  chegar aqui. Hoje eu posso sentar aqui na beira da praia e contar histórias. Se você fizer igual, poderá chegar onde estou hoje. Você tem potencial. Já está trabalhando, tem jogo de cintura e criatividade. Te aguardo dentro de alguns anos.

– “Missão dada, missão cumprida tio”. Lhe respondi prontamente

Nunca mais tive contato com o homem. Aquele conselho seguiu por muitos anos até a atualidade. Particularmente gostaria de encontrá-lo para agradecer a sábias palavras e dizer-lhe que deu certo. Ou até mesmo em outra oportunidade,em Copacabana ou outra praia poder fazer o mesmo com outro vendedor. Quem sabe eu “pago” e aposto na história de outro como  aquele homem que apostou e conseguiu mudar a minha.

Brasileiro, Casado. Médico formado pela Escola Latinoamericana de Medicina (ELAM), Havana, Cuba. Atua como médico residente de Medicina de Familia e Comunidade na Secretaria de Saúde de Sinop (MT). É professor de medicina na Universidade Federal de Mato Grosso, locutor de Saúde com quadro semanal, palestrante e músico.

Seções: Opinião.

Gratidão Julio por compartilhar sua história de vida.
Cada dia admiro mais esse médico que faz a diferença por onde passa.
O nome disso é amor, amor, amor à vida, a Deus e ao próximo.
Felicidades meu amigo .

  • A sua história me lembra da minha. Tive um senhor amigo, do qual me tornei seu empregado numa banca de jornais, que um dia me disse: “esta é a universidade da vida. Aqui todas as pessoas são iguais. Não importa se é um deputado ou uma dona de casa ou quem for. A pessoa é atendida na sua vez.” A sua escrita tem a fluência da vida. A propósito: já criou o seu blog?

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