‘O Globo’ e os vários pesos da morte

A edição de “O Globo” de hoje saiu com atraso. Segundo o serviço de atendimento ao cliente do jornal, a causa teria sido a cobertura de uma manifestação feita na madrugada desta quinta-feira, no Túnel Acústico, Zona Sul do Rio. Era uma homenagem a Rafael Mascarenhas, filho da atriz Cissa Guimarães. O jovem de 18 anos foi atropelado e morto naquele local. Dezenas compareceram. Uma grande foto do evento aparece na primeira página do diário carioca.

Este mês, completaram-se os 20 anos do massacre de Acari e o 17º aniversário da matança na Candelária. No total, foram mortos 19 jovens e crianças. Todos pobres e pretos. Até hoje, ninguém foi responsabilizado. Em 23 de julho diversos movimentos sociais realizaram uma “Caminhada em Defesa da Vida”. Cerca de duas mil pessoas protestaram. No dia seguinte, uma notícia sobre a manifestação ficou longe da capa de “O Globo”. Foi publicada na página 28. A edição não sofreu maiores atrasos.

O jovem Rafael não merecia morrer. São ridículas as afirmações que o condenam por estar andando de skate às duas da manhã. O responsável por sua morte deve ser julgado com todo rigor. Os policiais que quiseram vender sua impunidade também. Quem tentou comprá-la, idem. Mas, o tratamento dado ao caso pela imprensa mostra que a morte tem pesos diferentes na sociedade desigual em que vivemos.

Sérgio Domingues
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