O fundamentalismo que nos habita

A história da humanidade é repleta de casos de homens e mulheres que foram mortos simplesmente por dizer o que pensam – de Sócrates a Marie Gouze (Olympe de Gouges), passando por Giordano Bruno.

Ao expor suas ideias, essas pessoas desafiaram as verdades e convenções então existentes, ameaçando desconstruir o universo simbólico que sustentava as relações políticas, econômicas e sociais na época em que viveram, o que poderia abalar as estruturas de poder vigentes.

Hoje, graças à consolidação da democracia na maior parte do mundo, qualquer indivíduo é livre para expressar seus pensamentos sem o ônus de ser preso ou executado por conta disso.

É o direito à liberdade de expressão que permite, por exemplo, que todos exponham suas ideias – por mais alucinadas que sejam – no facebook, desde que não sejam interpretadas pelas autoridades como ofensivas, preconceituosas ou como apologia a práticas criminosas, por exemplo.

É nessa rede social, da qual participa um a cada sete habitantes deste planeta, que muitas das notícias pautadas pelos grandes meios de comunicação são atualmente debatidas. Nem sempre, é claro, num tom razoável ou dentro dos limites mínimos do que pode ser entendido como uma discussão civilizada.

Um simples comentário discordante ou crítico em um “post” é capaz de provocar a fúria de seu autor ou de outros usuários que, por não concordarem com a visão dissonante, partem para o ataque sem a menor cerimônia. Afinal, gritar com o outro pelo computador é mole.

Esses casos, a meu ver, são menos graves, pois, a partir do momento em que se “perde a linha” e, consequentemente, a razão, fica claro que o debatedor já não tem argumentos válidos para sustentar sua tese. Ou, no mínimo, não sabe descer pra brincar no play.

Preocupantes mesmo são aqueles posts muito bem escritos, com argumentos até razoáveis, mas que apelam, nas entrelinhas, para maniqueísmos e fundamentalismos extremamente sedutores que inviabilizam qualquer discussão para além dos limites disciplinares que seu autor estabelece.

Textos com esse perfil são pensados e estruturados para serem à prova de críticas: quem discordar não pode ser um sujeito do bem; tem de ser alguém mal intencionado, um sonhador, rebelde sem causa ou, em último caso, burro mesmo.

Isso tem ficado evidente nas últimas semanas, por conta de dois acontecimentos que ainda repercutem na rede: o caso dos justiceiros do bairro do Flamengo, na Zona Sul do Rio, que prenderam um suposto assaltante a um poste com cadeado de bicicleta, depois de o espancarem e o deixarem nu; e a operação da PM do Rio de Janeiro que deixou seis mortos no morro do Juramento.

Compreensivelmente irritada e cansada com a violência que assola a cidade há décadas e com a incapacidade do Estado para conter a criminalidade, boa parte dos cariocas – principalmente aqueles de classe média e alta – comemorou ambas as ações.

Muitos, no entanto, não concordam com o que foi feito com o menor no Flamengo e tampouco com o ocorrido no Juramento, por entenderem que, nas duas situações, houve um abuso por parte dos justiceiros e da polícia, que, ao buscarem fazer justiça (a PM subiu o a favela para vingar a morte de duas policiais pelo tráfico), acabaram desrespeitando a lei.

Embora haja seres descontrolados e que não sabem divergir educadamente em ambos os lados da discussão, chama atenção o perfil quase que eclesiástico (no sentido pejorativo da palavra) dos argumentos apresentados pela ala do bandido-bom-é-bandido-morto.

Logo de cara, esses autores qualificam qualquer um que se mostre contrário à justiçagem à moda Lei de Talião e à polícia violenta e fora da lei, como um “esquerdista” ou “defensor de bandidos”; isso quando não os chama de comunistas, maconheiros, homossexuais e por aí vai.

Neste ponto, eu pergunto: é preciso ser de esquerda para não apoiar o desrespeito aos direitos humanos, princípios fundamentais de qualquer democracia que se preze? Se assim for, pela lógica, deve-se inferir que os “direitistas” são fascistas, correto?

Quanto à acusação de que se estaria defendendo bandidos, considero esse um bom exemplo de argumento apelativo. Afinal, quem pode resistir à ideia de que um lado está a favor do “cidadão de bem” e o outro, dos deliquentes?

Blinda-se aí qualquer possibilidade de discussão séria, da mesma forma que um religioso fanático o faz ao argumentar que está ao lado de Deus e que quem não estiver com ele está jogando no time do mal.

Sorte a nossa não estarmos mais na Idade Média.