O fazer e o fazer de conta

fotoHá uma ação que é transformadora, ou, melhor dizendo, há ações que são transformadoras. Elas incluem, obviamente, ao mesmo tempo o sujeito da ação, e as circunstâncias.

E há também o fazer de conta. A proclamação da mudança, a crítica ao estatuído, que não vão acompanhadas de qualquer ação construtiva.

Não nego que a denúncia e a crítica possam ter a sua razão, ou suas razões. Mas não concebo uma prática social que possa se esgotar na mera denúncia ou na mera crítica.

Dito isto, vamos ao que interessa. A política não começou a existir no momento em que cada um de nós passou a se interessar por ela. Existia desde há muito tempo atrás, sem dúvida. Pois bem, assim sendo, um pouco de historicidade e de contextualização, fariam com que muito militantismo pseudo-revolucionário ou pseudo-esquerdista se mostrassem como o que são de verdade: práticas vazias e inconsequentes.

O que estou querendo dizer com isto? Algo muito elementar e claro. As mudanças sociais no sentido da promoção da pessoa humana (mais justiça, mais igualdade, maiores oportunidades para os excluídos) , tem sido e continuam de fato sendo ações de longo prazo. As construções coletivas são demoradas.

O revolucionarismo berrante, ao contrário, quer tudo agora. Não conhece a co-operação com quem quer que seja. É auto-centrado. Começa e termina em si mesmo. Se satisfaz na destruição de propriedades e instituições. Naõ se detém na morte ou na prisão de inocentes. Até a contrário, as procura. Elas dão mais dramaticidade à sua ação destrutiva.

Venho de um país, de uma história pessoal e familiar, coletiva, que fazem parte do que sou agora. Não me ponho como exemplo de nada. Mas não menosprezo a estrada até aqui percorrida.

Nos meus anos de academia, trabalhei no sentido de uma formação integral dos estudantes. Que não se esgotasse no acadêmico ou no intelectual, no profissional. Que fossem pessoas inteiras, autônomas, conscientes.

Deixada uma certa forma de agir na academia, fui somar com ações comunitárias no âmbito da saúde mental. Abriu-se um outro panorama: o da ação na base da sociedade. O aprendizado resiliente com os setores sociais mais periféricos.

Então quando hoje escrevo, quando ajo nos âmbitos da Terapia Comunitária Integrativa e da literatura e da poesia, o faço a partir de uma inserção em redes sociais pelo agir construtivo.

Me defino como cristão, embora nas redes de que participo, a crença costuma ficar no âmbito íntimo, frequentemente. Ou, então, co-existem em um âmbito de pluralismo religioso. Não me defino como partidista ou sectário. Trato de praticar um humanismo simples e concreto, não institucionalizado.

Tudo isto para dizer, a quem possa estar a ler estas anotações, que não há tempo para se cuspir na democracia, ou para espalhar boatos e calúnias contra quem quer que seja, irresponsavelmente.

Uma revolução, uma sociedade justa, são resultado de árduo trabalho coletivo, diverso, plural.

O resto, é vazio e nada. Ou, pior ainda: ações inconsequentes cuja derivação pode ser um retrocesso a situações ditatoriais que ninguém pode querer de volta.