O CORPO COMO CRIAÇÃO, LINGUAGEM E LIBERDADE OU SOBRE PINA

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Em um pouco mais de duas horas um espectador atento fica mais do que deslumbrado com a beleza e a plasticidade do documentário de Wim Wenders sobre a coreógrafa Pina Bausch. Com uma direção impecável e um movimento de câmara que parece querer mimetizar os corpos em dança constante, o diretor fez uma obra prima que marcará o cinema documental para sempre. Filmado em 3D para melhor precisar os detalhes dos movimentos dos dançarinos e dançarinas da Companhia Tanztheater de Wuppertal e deixando bem claro uma posição estética: a tecnologia não pode substituir a arte, Wenders nos comove e nos politiza, sem tirar nem pôr. Porém, a arte de Pina Bausch não se limitava a apenas uma “forma de arte” (o que já era extraordinário o que fazia com os corpos em sua companhia), mas ensaiava sempre uma “disposição libertári a” de cada corpo e isto como se quisesse transmitir uma visão radical de mundo. Era como se Pina tivesse compreendido e coreografado três conterrâneos seus: Marx, Nietzsche e Reich. Pina/Marx: um corpo não é mercadoria.

Os corpos na genialidade da coreógrafa alemã não se limitam a mera exposição mercantil. Por isto sua arte trabalhava com jovens e idosos sem a discriminação imposta pela moda das celebridades idiotas do nosso mundo contemporâneo. Os corpos da arte de Pina não vem das academias contemporâneas de ginástica, mesmo que sejam esguios e fortes, são corpos com inteligência e leveza. Numa academia contemporânea se prepara os corpos para mostrá-los enquanto negócio, seja o “negócio amoroso”, seja o “negócio da celebridade exibida e estúpida”, tanto faz. Na lógica do mercado um corpo é um negócio. Na arte de Pina Bausch é uma potencialidade criativa e libertária. É um Marx num palco em movimento. Possivelmente a coreógrafa não t enha lido a obra O Capital (vol . I) do pensador alemão comunista, pouco importa isto agora. O que realmente conta é o que ela fez com os corpos ao mostrar como ninguém um corpo massacrado, oprimido, mas altivo e em movimentos mágicos a ponto de nos fazer esquecer o sitema opressor destes mesmos corpos lá fora.

Pina/Nietzsche: a coreógrafa herdou algo deste seu patricio que em muito aparece na sua maneira de dirigir e inventar movimentos corpóreos, a saber, o corpo é linguagem e criação. Isto é Nietzsche! Uma “arrebatamento dionisíaco” nos acomete ao vermos uma obra como “Café Müller”. A paixão incontida, amargurada, violenta e sempre retornada na sua cruel e deliciosa forma de ser, tornou-se uma marca inconfundível desta apresentação única no seu gênero. Os corpos na imaginação de Pina não são meros corpos, mas dinamites (parafraseando o citado Nietzsche). Como afirmou um estudioso brasileiro do pensador alemão: “Nietzsche er a um leitor interessado em anatomia e fisionomia cerebral” (Oswaldo Gaicoia. In: Nietzsche como Psicológo). Mas a anatomia em Nietzsche como em Pina esta a serviço da emancipação e não do confinamento mercantil. Pina/Reich: na leitura de José Ângelo Gaiarsa, Reich voi o que Freud não viu, a saber, que o inconsciente é inteiramente visível nas expressões não-verbais das pessoas, no jeito de pôr algo, no modo de gesticular, no tom da voz ou na expressão do rosto, e ainda que o inconsciente vai aparecendo ao longo das palavras.

Tudo isto pode ser visível mesmo quando não há palavras. Aqui está a forma de coreografar de Pina Bausch. Porém, vemos mais coisas de Reich no seu trabalho. É exatamente naqueles momentos em que perecebemos os corpos em estado de gozo, onde desferem com seus movimentos um golpe mortal nas diversas formas de repressão cotidiana vivida por todos os corpos num mundo cada vez mais moralista e pobre em criativi dad e. O gozo como momento libertário, pensaria Reich vendo a dança da vida de Pina Bausch.

Por fim, destacamos uma elemento no documentário de Wim Wenders marcante enquanto cinema: a relação entre dança e cenário. As locações filmadas foram fabulosas e em lugares atípicos. Nas praças, ruas, metrô, penhascos. Foi muito interessante ver alguns trabalhos de Pina Bausch sair do palco para lugares aparentemente sem vida e inóspitos ou desérticos. A transposição de lugares para a dança libertária da coreógrafa ampliou mais as possibilidades da dança enquanto arte e a vida ficou mais rica. Um filme soberbo sobre uma artista absoluta.

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