O capitalismo como religião: considerações acerca do alcance deletério das suas manifestações idolátricas

No Brasil, na América Latina, assim como no mundo inteiro, o Capitalismo vem deixando marcas pavorosas de devastação, não apenas de parcelas consideráveis e crescentes das populações, mas também do Planeta e de toda a comunidade dos viventes. Tais marcas comportam múltiplos e complexos traços, de modo a afetarem todas as esferas da realidade social.

Não se trata apenas de destacar seus sinais de barbárie presentes no processo produtivo, mas também de perceber-se os vínculos orgânicos que mantém com outras esferas da mesma realidade, interferindo igualmente no âmbito das relações sociais também presentes na esfera política e na grade de valores dos humanos, de modo a ameaçar de morte toda a comunidade dos viventes.

Reconhecendo a íntima conexão dos fatores deletérios exercidos pelo Capitalismo, aqui nos restringimos, de maneira mais enfática, aos fatores incidentes no plano da religiosidade, imprimindo maior eficácia no seu potencial destrutivo, em especial por lidar com uma esfera que cuida de conferir ou tolher sentido à vida dos humanos e do Planeta. Tratamos de examinar que forças especiais aí incidem, de modo a impelirem os seres humanos, em escala mundial, a fazerem tais escolhas. Ousamos compartilhar alguns questionamentos a título de busca de pistas capazes de superar – ou ir superando – tais aporias ou impasses de grande monta.

Buscando situar e entender melhor o problema.

Como entender as profundas e crescentes desigualdades sociais, que se registram no Brasil e no mundo contemporâneo. No caso do Brasil, como explicar/justificar que um país tão rico (biodiversidade privilegiada, solo fecundo, subsolo rico, rede hidrográfica extraordinária, território banhado, em seu longo litoral, pelo Atlântico, a abrigar as mais cobiçadas riquezas…) albergue milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, enquanto uma ínfima minoria (transnacionais atuando nos mais diversas esferas da vida social – inclusive na área religiosa -, setor financista, novos latifundiários, etc. ) concentra cada vez mais riquezas, terras, bens… E os que já têm demais, não se conformam: em sua avidez extrema, não cessam de promover a retirada de direitos sociais, a venda do patrimônio nacional e ainda se pretendem patriotas… Desta feita, sempre atentos a uma confluência de fatores, já evocados em outras oportunidades, aqui centramos atenção apenas na dimensão religiosa como um dos fatores – não o menos importante! – desta barbárie em curso, no Brasil, na América Latina, no mundo. Elegemos como questão orientadora destas linhas, a seguinte: dinamicamente conectada a outros fatores (econômicos, políticos, culturais), que lugar se tem reservado à dimensão religiosa, em todo esse processo?

Estamos assumindo “Religião” como um sistema de crenças e práticas orientadas a uma determinada divindade, à qual se atribui todo o poder, e a quem se entrega o destino da criação, dos seres humanos e de toda a comunidade dos viventes, contando para tanto com mediadores especiais (lideranças religiosas), lugares de culto, ritos, valores tais como obediência incondicional, fidelidade extrema, submissão, deveres, como condição de concessão de benefícios. Mostra-se quase infindo o leque de expressões religiosas, espalhadas pelo mundo, alcançando em especial religiões tais como Judaísmo, Islamismo e Cristianismo, além de inúmeras religiões de matriz asiática, africana… Para além dessas religiões, é preciso reconhecer outras formas de religião, inclusive diversas delas não tidas como tais, mas agindo com uma eficácia ainda maior. É o caso do sistema capitalista aqui tomado como uma religião. Neste sistema é que nos vamos fixar.  Trataremos, a seguir, de trazer a lume algumas de suas manifestações, presentes no dia-a-dia de centenas de milhões de pessoas, mudo a fora.

O núcleo mais forte da religião do Capitalismo opera por meio do fetiche. O fetiche é uma espécie de espírito que anima as relações do sistema capitalista. Karl Marx segue sendo a figura que mais aprofundou, em suas pesquisas durante décadas, a complexidade e o alcance do fetiche. E o fez, não apenas nas obras atribuídas ao jovem Marx. Também em O Capital, Marx lhe dedica atenção especial, inclusive a partir do tópico IV do capítulo I de seu principal livro (“O caráter do fetiche na mercadoria e seu segredo”). Diversos autores e autoras também se dedicaram ao estudo de como funciona a religiosidade capitalista, dentre os quais destaco apenas dois: Hugo Assmann e Enique Dussel. Durante décadas, Dussel, por exemplo, vem se dedicando a este estudo, do qual resultou a publicação do seu livro “Las metáforas teológicas de Marx”, do qual se acha disponibilizada uma versão em PDF, acessando-se o “link”: (Cf.http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/otros/20120522093403/marx3.pdf)

O fetichismo construí a marca particular de como opera o Capitalismo. E em que consiste tal fetichismo? O fetiche constitui fundamentalmente em uma relação social de inversão do sujeito em objeto, e do objeto em sujeito. Trata-se de uma característica que as mercadorias adquirem neste sistema.

Por meio de suas estratégias capciosas, a religião do Capital transforma pessoas em coisas, e coisas em pessoas, das mais diferentes maneiras. Neste processo, tem lugar privilegiado a promoção e entronização do deus Mamon, representando ouro, dinheiro, riqueza. Mamon se vai tornando, pelas estratégias do Capitalismo, “o” tesouro da vida, a merecer todas as atenções, todos os cultos, todos os sacrifícios, inclusive o sacrifício de inocentes, de crianças, adolescentes, jovens, adultos, homens e mulheres. A vida se converte em uma incessante busca por riquezas, a qualquer preço. Riqueza por meio da qual todos os falsos planos de felicidade e de realização se tornam válidos e fascinantes. Aí entram em jogo seus agentes operadores, seus “sacerdotes”, seus acólitos, orientados pelo “Mercado”, uma figura do próprio deus Mamon. Seu “modus opearandi” revela-se sedutor para amplas parcelas de seus “fiéis”. Um desses “modus operandi” se dá por meio da propaganda e da publicidade, verdadeiros entes mágicos que, uma vez acionados, produzem um fascínio irresistível em amplas parcelas da população. Publicidade e propaganda a serviço de suas vendas e de seus produtos, nas mais diversas áreas da vida humana: produtos econômicos, produtos religiosos, produtos de beleza – uma beleza padronizada conforme a gula de lucros fáceis -, produtos de ordem política. Tal é a relevância da propaganda e das publicidade para os ministros da Religião Capitalista, que chegam a alcançar o patamar de uma refinada ciência, especializada em “vender” não importa o quê, como se tratasse de um produto imprescindível, extremamente concorrido alvo da voracidade consumista. Neste sentido, publicidade e propaganda nos remetem a uma poesia medieval, por meio da qual os Goliardos -espécie de “hippies” da época – satirizavam o fascínio provocado pelo dinheiro nos seguintes termos:

“O dinheiro reina, soberano, sobre a terra/ É admirado por reis e pelos grandes/ A ordem episcopal, venal, lhe rende homenagem/ O dinheiro é o juiz dos grandes concílios/ O dinheiro faz a guerra, e quando quer, obtém a paz/ O dinheiro é que faz os processos, para que sua conclusão dele dependa/ O dinheiro compra e vende tudo, dá e toma de volta o que deu/ (…) Graças ao dinheiro, o idiota se torna incontestável falante/ O dinheiro compra médicos, adquire amigos prestimosos/ (…) torna barato o que é caro, e suave o que é amargo.” (ap. Wolff, 1995:62).

 

Nas trilhas de uma sociedade alternativa a este modelo hegemônico

 Diante de tal realidade desumanizante, que passos somos historicamente chamados a empreender, em busca de um horizonte alternativo? Conscientes da complexidade de tal desafio, sentimo-nos chamados a ousar trilhas alternativas, em vista da construção processual de uma nova sociedade. Os questionamentos que compartilhamos, em seguida, têm o propósito de nos ajudar, nesta direção.

– Como lidar com as convicções de ordem religiosa, que, pelos seus frutos, vêm produzindo uma consciência invertida, a serviço do deus Mamon, em nossas sociedades?

– Como enfrentar criticamente a profusão de manifestações idolátricas que o espírito capitalista propaga, também na atualidade?

– Se é verdade que a Religião ao longo da história, tem cumprido um papel eminentemente de dominação, não será igualmente verdadeiro entender e trabalhar a Religião, numa perspectiva libertadora?

– Entre as tentativas bem-sucedidas do exercício da dimensão libertadora da Religião destaca-se o Cristianismo de Libertação, tal como bem corresponde à tradição de Jesus, ao movimento de Jesus. Como enfrentar os mecanismos idolátricos do deus Mamon, travestidos de um cristianismo sem Jesus de Nazaré?

– Considerando-se o enraizamento popular da fé religiosa de multidões latino-americanas e de outros continentes, é possível ou razoável pretender-se combater a religião capitalista, prescindindo-se de suas vítimas?

-A este respeito, convém lembrar uma afirmação emblemática feita por Michael Löwy, como uma conclusão verossímil num de seus textos acerca da Teologia da Libertação em seu relacionamento com a filosofia da Práxis, de que “Em numerosos países da América Latina, a revolução será feita com a participação dos cristãos, ou não se fará.”.

– Lida esta afirmação, correspondente ao contexto dos anos 80, e considerando-se o atual cenário brasileiro latino-americano, pode parecer estranha. Por outro lado, o estranhamento se desfaz à medida que somos capazes de reavaliar a caminhada de nossas principais organizações de bases (inclusive no terreno da “Igreja na Base”), no que toca ao processo organizativo e formativo, não levado devidamente a termo, nas últimas décadas…

João Pessoa, 20 de junho de 2019.

 

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