O alcance revolucionário das ações moleculares

Ontem como hoje, ações espetaculares, de pirotecnia e de efeito bombástico seguem exercendo um deslumbramento extraordinário aos olhos de nosso mundo, movido pelas aparências, pela mórbida exibição de poder, de riqueza, de privilégios, de prestígio, mantidos a todo o custo, em especial pela razão da força. O noticiário midiático e nas redes sociais se acha repleto destas manifestações: da insana truculência de chefes de Estado (a exemplo dos presidentes dos Estados Unidos e da Coréia do Norte à desmedida ousadia de figuras do mundo empresarial (transnacionais, grandes bancos, grandes empreiteiras, empresas de mineração, hidro-agronegócio… a lista é grande…). Pior é que não estão sozinhos, em sua necrófila investida. Infelizmente, conseguem contaminar – em especial por meio dos grandes meios de comunicação social – amplas parcelas da população, principalmente dos vastos segmentos sociais extremamente vulneráveis em sua capacidade de leitura crítica e autocrítica do mundo, da história. Não raro, estamos a nos defrontar com pessoas e grupos, socialmente excluídos, a expressarem simpatia pelos atos de força dos “grandes” deste mundo, sem se darem conta de que deles são paradoxalmente as principais vítimas: “O Brasil só tem jeito com um regime de força!” “Trump tem mesmo é que destruir a Coréia do Norte…” Tais declarações nos devem fazer refletir bastante sobre essas manifestações, de modo a que, antes de lançarmos contra essa gente nossos impropérios acusadores, busquemos examinar que condições permitiram que tais pessoas e grupos cheguem a tal situação, e que parcela de responsabilidade também nos cabe na produção desses descaminhos… É justamente este o propósito destas linhas, buscando acentuar, com mais ênfase, a força revolucionária das micro-ações do nosso dia-a-dia, inclusive fazendo apelo a gestos ilustrativos observáveis em figuras de referência (de ontem e de hoje), mas sobretudo em testemunhos de pessoas e grupos anônimos, espalhados por este Nordeste, por este Brasil, pela América Latina, pelo mundo…

O potencial das grandes ações vem de sua força seminal…

Ao longo de sua trajetória histórica milenar, admiravelmente multiforme, a humanidade, para além de tantos descaminhos, também cultivou um belo tesouro de sabedoria, do qual nos dão testemunhos valiosos exemplos vindos de várias culturas. Da cultura hebraica, por exemplo, podemos recolher narrativas edificantes, como as que nos são legadas por relatos bíblicos, a exemplo das parábolas do Evangelho: a da gratuidade da vida (“Observem as flores do campo!”, cf. Mt 6,25-34); a da alegria compartilhada (“Onde estiver seu tesouro, aí estará também seu coração.”, cf. Mt 6, 21); a que exorta contra a insanidade da acumulação de riquezas (“Na mesma noite, morreu…!, cf. Lc 12, 16ss), entre outras. Nas narrativas dos evangelhos sinóticos, é tocante a atitude de Jesus de Nazaré, com relação à sua predileção pelos “de baixo”: “Eu Te louvo, ó Pai…, porque escondeste estas coisas dos sábios e dos entendidos, e as revelaste aos pequeninos”, cf. Mt 11,25). Igualmente emblemática, aquela afirmação de Paulo: “O que é considerado bobagem aos olhos deste mundo, Deus fez para confundir os sábios”, cf. 1 Cor 1,27ss).

Uma breve revisitação pelas páginas da História, alusivas a algumas figuras de referência, de ontem e de hoje, nos ajuda a reforçar a convicção de que a busca de uma vida em plenitude, pelas estradas do processo de humanização, não passa pela aposta na força dos poderosos e dos ricos deste mundo. Passa pela confiança e adesão aos pequenos projetos, às “correntezas subterrâneas, às ações moleculares, portadoras de grande alcance transformador, a seu tempo. Quando mais se apresentava desesperadora a situação de traição por hierarcas eclesiásticos, eis que surge uma figura como Francisco de Assis, a quem foi confiada a missão de ajudar a reformar aquela Igreja prestes a ruir. Salta aos olhos a simplicidade de um Gandhi e seus seguidores, na busca de libertar-se do império britânico – não pela força das armas, mas pela não-violência ativa… Outro Francisco – o Bispo de Roma -, por sua vez, desafiado a contribuir com o enfrentamento dos graves impasses da humanidade, hoje, não aposta na força dos grandes. Antes, faz apelo aos “de baixo”, aos movimentos populares, a cujos delegados convoca para um encontro, inicialmente em Roma, depois mais dois, um deles na Bolívia… Assim agindo, o Bispo de Roma testemunha o espírito do Evangelho, bem presente numa canção muito apreciada, elaborada por um agricultor sergipano, Jorge de Lima: “Eu acredito que o mundo será melhor, quando o menor que padece, acreditar no menor”.

Do fecundo protagonismo de pessoas e grupos vivendo e servindo, na alegria do anonimato…

Com a menção apenas do refrão da letra da canção acima exemplificada, já estamos adentrando o imenso e silencioso trabalho de pessoas e comunidades, espalhadas pelo mundo: “Gente simples, vivendo em lugares pouco conhecidos, e fazendo coisas maravilhosas”… Pessoas, comunidades, grupos, ora trabalhando em mutirão, ora no silêncio fecundo (“O deserto é fértil”, dizia Dom Helder Câmara), a testemunharem verdadeiras ações revolucionárias, a partir de suas iniciativas, numa enorme diversidade temática e de modos de fazer, todas marcadas pelo mesmo alvo: o de servir ao Público!

Público, sim! É desolador constatarmos a grave desfiguração e desgaste sofridos pelas palavras, pelos conceitos. Um destes é precisamente o conceito de “Público”, cuja etimologia nos remete a popular, a povo. Infelizmente, “Público” acabou como sinônimo de estatal, governamental, num reducionismo de efeitos perniciosos, à medida que o que deveria ser público, isto é, do povo, acabou virando patrimônio de poucos. O fato de determinado patrimônio aparecer como pertencente ao Estado (União, unidades federativas, municípios) não só não significa necessariamente a serviço do povo, como também pode ser privatizável e até virar contra os interesses do próprio povo. Exemplos há, à saciedade. Por outro lado, fomos nos acostumando mal com o distintivo “Estado” ou “Governo”, de modo a passar a crer que os gestores e guardiães dos bens e serviços tutelados pelo (Executivo, Legislativo, Judiciário) estariam automaticamente comprometidos com a causa pública. E assim entendendo, passamos a incorporar e reproduzir a idéia de que, elegendo pessoas dedicadas à Política, teríamos garantida a lisura da gestão do patrimônio “público”. Ledo engano! Passadas décadas de experiência de sucessivas legislaturas e de eleições e nomeações a cargos executivos, legislativos e do campo judiciário, qual o verdadeiro balanço que podemos fazer?

Ao mesmo tempo em que fomos – e continuamos indo – com “muita sede ao pote” eleitoral, sempre apostando em indivíduos salvadores da Pátria, que nos governariam, com competência e lisura, eis que, nesta mesma proporção, nos afastamos das pessoas e grupos que bem sabemos dedicarem sua vida a servir os desvalidos, de mil e uma formas, com amor, alegria, discrição, leveza, e COM GRATUIDADE! Isto é ou não SERVIR O PÚBLICO, como expressão maior de Cidadania, de uma ação POLÍTICA DO BEM COMUM? Isto é ou não uma iniciativa REVOLUCIONÁRIA, ainda que molecular? Seguindo comprometidos, de modo articulado, no plano das iniciativas macropolíticas (relação Sociedade-Estado), podemos perceber o efeito potencializador das ações moleculares. Estas passam a constituir uma condição de contínua fecundação das macro-iniciativas. Estas só têm a ganhar com aquelas. Mais: sem as ações moleculares, grande é o risco de se perder o horizonte transformador até das macro-iniciativas.

Casos ilustrativos do potencial revolucionário das ações moleculares

Um amigo, que aprecia o anonimato, confidenciou ter feito uma peregrinação, a pé, de Fortaleza a São Paulo, durante seis meses. A confidência me vem ao espírito, a propósito de termos sempre presente que uma longa marcha sempre começa por um primeiro passo. Sem os passos, a marcha não leva ao destino. As ações moleculares potencializam as grandes iniciativas.
Cada uma, cada um de nós, ao ousar caminhar em direção a outas pessoas – a cabeça pensa, desde o chão que pisamos… -, acaba surpreso com tantos achados, em contato orgânico com as “correntezas subterrâneas”. Há, sim, muitas iniciativas fecundas sendo vivenciadas, às vezes até em nosso entorno. À medida que delas nos aproximamos, acabamos impactados positivamente com tais processos de construção molecular de relações alternativas ao atual modelo societal hegemônico. Trata-se de experiências e de iniciativas que impactam positivamente, não apenas pelo conteúdo de suas propostas, mas igualmente com o modo como são realizadas. Em forma de questionamentos, rememoremos algumas delas.
– Já há algumas décadas, também no Semiárido, vêm sendo feitas pesquisas e experiências frutuosas, no plano das tecnologias populares alternativas de convivência com o Semiárido. Será que já nos demos ao trabalho de conferir o alcance socioambiental de tais iniciativas?

– Com base em tais tecnologias, e para além delas, iniciativas protagonizadas por organizações de base de nossa sociedade (inclusive por movimentos do campo) se vêm mostrando extraordinariamente eficazes, no conteúdo e na metodologia (construção de cisternas, de manejo do solo, de captação e armazenamento de águas, de gestão hídrica, de práticas agroecológicas, etc.) Temos tido a oportunidade de conhecer e apoiar tais iniciativas?

– Será que já nos demos conta de tais iniciativas, por exemplo, na forma de lidarmos com os períodos de estiagem prolongada?

– O que seria da implementação de macropolíticas socioambientais, sem a efetiva participação dos povos tradicionais e dos segmentos diretamente envolvidos, no sentido de assegurar sua implementação? De que adiantaria apenas assegurar captação e armazenamento de água, sem o ininterrupto cuidado e zelo desses protagonistas? Já se pensou onde tudo isto iria parar, sem uma educação socioambiental de zelo, de proteção, de estilo de consumo, enfim, de cuidado?

– O que seria de políticas de revitalização dos rios, sem o protagonismo dos comitês de bacia, por exemplo?

E questões como estas poderíamos acrescentar. Bastem-nos, porém, as acima formuladas. Importa sempre não estabelecer uma dicotomia entre as macro e as micro-relações. Estas, não raramente, são negligenciadas, e os equívocos daí resultantes fazem muitos estragos. Portanto, temos necessidade de reconhecer também a força revolucionária das “pequenas” experiências e iniciativas, inclusive as de caráter individual: desde o hábito de moderação pessoal no uso da água, nas várias circunstâncias do nosso dia-a-dia até à nossa educação e reeducação quanto a um estilo de vida não consumista, aprendendo a nos contentar com o necessário, e com alegria, a exemplo dos povos originários e sua filosofia do “Buen Vivir.”

O que buscamos enfatizar, nessas linhas, foi o potencial transformador das ações ( pessoais e coletivas) moleculares, desde que adequadamente articuladas às ações macropolíticas. Neste sentido, cuidamos de acentuar a dimensão também pessoal em busca da construção, processual, de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal.

Olinda, 21 de setembro de 2017

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