‘Nunca um presidente, nem mesmo da ditadura, ousou atacar uma família de maneira tão vil’

Para a procuradora Eugênia Gonzaga, presidenta da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, o dia de ontem “foi um claro divisor de águas na história da luta dos familiares” daqueles que desaparecem durante a ditadura civil-militar. “Esperamos que, de algum modo, isto se reflita em uma mudança definitiva no triste cenário brasileiro de descumprimento dos seus direitos”, afirmou, em texto publicado em rede social.

Ela observa que, apesar de se tratar de um dever do Estado, os poucos avanços vieram com muita dificuldade. “Porém, mesmo nesse cenário em que a decisão política sempre foi no sentido de ignorar esse tema por ser muito ‘polêmico’, nunca um presidente da República, nem mesmo da própria ditadura, ousou atacar uma família de maneira tão vil”, acrescentou Eugênia, referindo-se a declarações de Jair Bolsonaro sobre o pai do atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz, que desapareceu em 1974, após ser preso pelo DOI-Codi. A Comissão Especial já forneceu um atestado de óbito no qual se informa que ele morreu de forma violenta, “causada pelo Estado”.

“É certo que Jair Bolsonaro sempre fez apologias a torturadores e assassinos de militantes políticos, cometeu injúria real ao cuspir no busto de Rubens Paiva, entre outros ilícitos que teriam justificado até mesmo a perda do seu mandato de deputado ou a sua inabilitação para ser candidato à presidência da República. Mas o que ele fez neste 29 de julho supera as piores expectativas sobre sua insensibilidade e falta de respeito ao direito humanitário ao luto e ao sepultamento digno. Não é possível que as autoridades com poder para agir em relação a tais atitudes sigam se omitindo e minimizando fatos tão graves”, critica a procuradora.

Além disso, o presidente mostrou crueldade ao se deixar filmar contando, enquanto cortava o cabelo, sua “versão” da morte de Fernando Santa Cruz, demonstrando com isso todo o desprezo com que trata o tema”. Uma cena que seria apenas grotesca, observa, se não fosse inaceitável para alguém que ocupa a Presidência da República. “Ele falou sobre essa inusitada versão da morte de um militante político, um pai de família que ousou resistir ao regime ditatorial, para ofender seu filho em razão da atuação pública desse filho, utilizando-se de uma contrainformação que tem por característica apenas confundir, chocar e promover repulsa.”

Para ela, o atual presidente “valeu-se do mesmo método que agentes dos porões, como Curió, Fleury e Ustra, utilizavam para assassinar também a reputação de suas vítimas e desviar o foco de suas responsabilidades”.

“As versões desse tipo já foram mais de uma vez desmentidas por provas e documentos oficiais, os quais um presidente da República deveria não apenas ampliar a publicidade sobre eles, mas ter a hombridade de respeitar”, afirma Eugênia.

Fonte: Rede Brasil Atual

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