Novas eleições, novas boçalidades

Como se não bastassem os discursos vazios – desconectados de qualquer esboço de programa político concreto e carentes de propostas claras e viáveis – que invadem a mídia e as ruas das cidades brasileiras em época de eleição, o eleitor, como sempre, se vê imerso em um mar de declarações boçais, essencialmente eleitoreiras e demagógicas.

Para uns, claro, elas funcionam. Para outros, tais frases não surtem efeito ou, quando muito, geram reações negativas, prejudicando a imagem do próprio autor da pérola.  No geral, contudo, o resultado é um sério prejuízo para o debate eleitoral e, por consequência, para o processo democrático em si.

A última grande iniciativa nesse sentido foi empreendida pelo ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. Em participação no programa eleitoral de TV de Rodrigo Maia, que concorre à prefeitura da capital fluminense, Garotinho resolveu apelar para o tema “religiosidade e homofobia”, criticando a postura de um dos candidatos concorrentes, Eduardo Paes.

No programa, Garotinho afirma que Paes concede apoio aos homossexuais e, depois, “vai para igrejas evangélicas e diz: ‘Glória a Deus! Aleluia’. Isso é fingimento, hipocrisia”, conclui (genialmente) na vinheta.

A questão é: qual o interesse público e social em torno da discussão iniciada pelo ex-governador? Cabe ao Estado regular a sexualidade, a religião ou as relações entre essas duas esferas, que são, fundamentalmente, ligadas a direitos individuais? E o que há de errado, em se tratando de um político, em pedir o apoio de homossexuais e evangélicos? Por acaso eles estão em guerra?

É evidente que o único objetivo de Garotinho ao dar essas declarações – as quais, por sinal, mostram que o político está conseguindo se superar em termos de exposição ao ridículo –, é o de denegrir a imagem de Paes perante alas mais conservadoras da sociedade.

Em paralelo, no entanto, se não chega a incitar a homofobia e a intolerância religiosa, Garotinho, no mínimo, presta um enorme desserviço ao país ao proferir palavras que vão de encontro a todas as campanhas sociais e educativas já realizadas para suprimir tais práticas nos últimos anos.

Portanto, além de empobrecer o debate, o xerife de Campos dos Goytacazes – o grande curral eleitoral de Garotinho – assume um papel que, pelo menos na teoria, jamais poderia ser desempenhado por um político, o qual, em sua essência, deve representar todos os cidadãos de sua cidade, estado ou país, sem nenhum tipo de discriminação.

É verdade que o ex-governador não ofendeu ou discriminou os homossexuais diretamente. Afinal, ele não é ingênuo e não arriscaria parar na cadeia (se é que isso é possível para alguém tão poderoso e influente) por isso. Mas claro está que suas declarações reforçam a percepção de que os homossexuais merecem um tratamento à parte nos âmbitos social e religioso, como se fossem seres diferentes dos humanos “normais”.

E, dando prosseguimento a sua escalada rumo ao cúmulo do grotesco, Garotinho ainda se defendeu em seu blog, após a negativa repercussão em torno de sua participação no programa de Rodrigo Maia, cujo núcleo político-administrativo chegou a entrar em crise em função do ocorrido.

“Olha, eu sei que existem pessoas que por conta da lavagem cerebral da mídia acham que eu tenho alguma coisa contra os homossexuais, isso porque quem não vai às paradas gays ou bate palmas é considerado homofóbico. Sim, porque fui eu o primeiro governador do Brasil a criar um Disque-Denúncia Homossexual (DDH) justamente para defendê-los da discriminação e da violência”, alardeou.

O que talvez o ex-governador não realize é que o que ele chama de lavagem cerebral corresponde, em realidade, ao retrato de novos tempos – diferentes daqueles da Idade Média aos quais alguns fanáticos parecem tentar retornar, impondo seus dogmas estúpidos aos outros. São tempos em que ver dois homossexuais se beijando na TV já é possível, não porque isso seja bonito ou deva ser um modelo a ser seguido, mas porque simplesmente o nível de aceitação de algo que SEMPRE existiu aumentou, o que é resultado direto da redução nos níveis de ignorância e, consequentemente, intolerância – os quais andam sempre lado a lado.

No mais, nenhuma ONG ou representante ligado à luta pelos direitos dos homossexuais jamais exigiria que as pessoas compareçam aos eventos promovidos para chamar atenção à causa; e tampouco alegaria que, quem não o fizer, estaria assumindo sua homofobia. Essa ideia é absurda, e o Garotinho sabe disso. Populista que só, ele visou tão somente a incitar a raiva que ainda persiste no interior de muitas pessoas devido à maior liberdade e exposição dos homossexuais no país.

Como todo “bom” político,o que Garotinho está fazendo é tentar ganhar votos explorando a intolerância e a ignorância de parte da população; aproveitando-se do incômodo e do medo que muitos têm em relação aos homossexuais. Sim, medo, porque é esse o sentimento que aquilo que foge ao convencional provoca no ser humano – seja porque ele percebe a alteridade como uma ameaça à sua integridade física ou, em alguns casos, por que o diferente lhe desperta desejos que sua consciência (ou seu pai, mãe, vizinhos e colegas de trabalho) não aprovaria.

No fim das contas, o fato é que a homossexualidade flerta com a Tradição (com “T” maiúsculo mesmo). E isso é apavorante e torturante para muitos, que veem as paredes e colunas de seus universos, tão cuidadosamente esculpidas ao longo de suas vidas, despencando aos poucos.  A reação, como se vê, nem sempre é das mais amigáveis.

 

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