NOTAS SOBRE UM ALBUM MARCANTE: ALEGRIA, ELBA RAMALHO EM 82

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Nos dois últimos anos tenho trabalhado na UFS com a disciplina Filosofia da cultura. O programa do curso tem notoriamente um tom nostálgico, pois destaco a chamada “cultura de resistência” ao golpe militar-empresarial de 1964. Sigo o roteiro indicado no ensaio clássico de Roberto Schwarz: “Cultura e Política: 1964-1969″ publicado na França em 1970 e re-editado no Brasil na segunda metade da década de 70. No ensaio o crítico demarca bem a situação da cultura política dos anos 60 e parte de 70: a direita vencia economicamente e milirtamente, mas no campo da cultura a esquerda (estranhamente) dava as cartas e produzia o que tinha de melhor no País: cinema novo, Tropicalismo, Teatro Oficina, Teatro de Arena, Literatura engajada, poesia marginal e uma MPB vigorosa e inteligante…

Obviamente, este momento vivo e radical da cultura p olitica brasil eira foi enterrado pela ditadura com sua ostensiva censura e com sua “Indústria cultural” massiva e alienante e Formou toda uma geração de cabeça de vento até hoje. Este é o conteúdo da disciplina. Qualquer brasileiro ou brasileira adultos e bem informados de hoje, sabem o sofrimento agonico que viveu e o “buraco sem fundo” em que entrou a nossa música popular desde o final da década de 70. Músicas tolas, romantismo boboca, falta de criatividade, pouquissima experimentação e toda a indústria fonográfica a serviço do que tinha (e tem) de pior em termos musicias. Mas é bom ressalvar: sempre tivemos raridades, verdadeiras pérolas em termos de Album (o velho e saudoso vinil). No pântano em que entrou a MPB, o trabalho extra-ordinário “Alegria” (1982) da paraibana Elba Ramalho é um balsamo aos ouvidos e a imaginação (elemento tão caro a arte como um todo). A cantora da Paraiba já havia gravado três outras obras de a l tissima relevância para os amantes da música popular: Ave de prata (1979), Capim do vale (1980) e Elba (1981). Em todos os discos temos uma produção regional-cosmopolita. Paradoxal os termos? pois sim, mas explicavel. O regional em Elba Ramalho jamais tem o tom provinciano e fechado, mas sempre esta aberto a informação do novo e cosmopolita… É o são João nordestino para o mundo e o mundo para o Nordeste.

O album Alegria, que no corrente ano faz seus 30 anos merece destaque. O album tem a produção de Aramis Barros, direção artística de Mazzola e os arranjos do maestro Zé Américo Bastos e no repertório temos uma turma de primeira linha da MPB naquele momento e todos vindos dos ventos criativos dos anos 70: Alceu Valença, Vital Farias, Lula Queiroga, Gonzaguinha, Céceu, Geraldo Azevedo e o “imortal” Jackson do pandeiro. Para se ter uma ideia da importancia do Album, o show dirigido por Benjamim Santos no Teatro Casa Gra nd e no Rio foi considerado à época, o melhor do ano e foi aclamadissimo pela crítica musical. Nele, lá estavam os figurinos exuberantes, combinações de luzes e cores e aquele clima festivo das rua nordestinas durante o São João eo São Pedro… Era a alegria nas ruas num País ainda fechado por uma ditadura agonizante, mas ainda ditadura e como toda ditadura, triste e cinzenta. No repertório destaco algumas faixas que podem estar nas melhores interpretações de toda a música brasileira. Primeiro, “Essa alegria” de Lula Queiroga: “Essa alegria e a guia/ Estrala guia do carnaval”, em ritimo de caboclinho e misturada com uma pitada de frevo abre o album. Em chave lirica, “A casca do ovo” de Gonzaguinha tornou-se rara (Elba nunca mais regravou esta jóia). Nela Gonzaguinha colocou toda a força poética que sempre marcou sua carreira e sua criação vigorosa e estudada.

Fala assim do velho e novo amor de sempre: “O eterno novo/ como a casca do ov o/ que ninguém nunca fará” ou “Eu por mim quero mais, sempre mais/ pois de amor não se enjoa/ quero mais dessa festa/ que põe fogo no meu coração”… Mas falar de lirismo só na genial “A casaca do ovo” é muito pouco, perto de uma música sublime (talvez a melhor e mais bem elaborada canção já feita por Vital Farias” ), trata-se de “Sete cantigas para voar”. Soberba! “Cantiga de campo de concentração/ agente bem sente com precisão” ou ainda: “Cantiga de índio/ que perdeu sua taba/ no peito esse incêndio/ seu não se apaga”. Diante dessa obra de Vital/Elba, sentimos o tempo não passar ou ao passar nos deixar algo para sempre.

A melodia faz um música de ninar para adultos e nos coloca diante da nostalgia irrecuperável do amor ainda fresco que passou. Nos faz lembrar o “pastor amoroso” de Fernando Pessoa. 30 anos de um jovem album e num momento que tanto cartece a nossa MPB de criatividade e lirismo, para além de um “romantismo torpe” e caricatu al e ainda com “trajeitos abjetos”. Que a nossa mocidade descubra essa pérola de “Alegria”, de lirismo e de inteligência em forma de música.

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