Notas para uma sociologia da agenda: serrando as jaulas, ensaiando passos libertários…

O cotidiano expressa uma intrincada rede de relações, da qual cada um de nós, em grupo ou a título pessoal, atua como tecelã(o), a costurar – sozinho ou em mutirão – uma enorme diversidade de fios existenciais, dia após dia. Dependendo da qualidade do fio relacional e do perfil de quem tece, o produto da tecedura caminhará na direção da excelência ou da mediocridade. Ninguém escapa de tecer, de algum modo ou em algum momento, um produto misturado, de qualidade alternada. Aí não reside o problema. Desafio é o empenho de quem tece, no sentido de fazer prevalecer uma tecedura de boa qualidade – materialmente consistente e esteticamente gratificante a quem tece e a quem dele fará uso. Num relance autoavaliativo, como apreciamos a qualidade de nossa tecelagem cotidiana, que tem lugar numa imensa diversidade de espaços sociais e de situações existenciais – do espaço subjetivo ao ambiente familiar; da convivência laboral aos espaços lúdicos; de nossas relações cósmicas às experiências místicas, etc., etc.?

Questionamentos como este nos induzem a pensar numa Sociologia da agenda, entre outras possibilidades de abordagem crítica do alvo de nossas inquietações: como anda nossa agenda? Uma das razões da escolha de uma abordagem sociológica deve-se à complexidade e extensão do seu campo de atuação, uma vez tratar-se de um saber que navega pelo “social”, que, como se sabe, comporta dimensões econômicas, políticas e culturais, trabalhados em suas necessárias interconexões, a possibilitar uma interpretação inter/transdisciplinar, apelando a uma multiplicidade de saberes. Ocupando-se a Sociologia, por excelência, das relações sociais, tanto nas macro quanto nas micro-esferas da realiade, e seus entrelaçamentos, as relações do dia-a-dia bem se prestam a uma leitura, sob esta ótica. É o que buscamos fazer, nas linhas que seguem. Começamos por explicitar algumas balizas teórico-conceituais, com o propósito de nos ajudarem, quanto a uma interpretação crítica de nossa agenda como expressão das relações do nosso dia-a-dia. Em seguida, ensaiamos passos de uma crítica de nossa agenda, em diferentes campos de nossa atuação.

1. Balizas teórico-conceituais

Em sua complexidade e em sua extensão, a Sociologia, desde seus clássicos, inclusive Ibn Kaldhun, procura acercar-se da realidade social, como seu campo por excelência. Observar, interpretar e analisar criticamente a tecedura dos fios relacionais do cotidiano interpessoal, comunitário, societal constituem um desafio de monta, para quem ousa buscar conhecer, interpretar e extrair ensinamentos úteis ao processo de humanização.

Um primeira cautela a ter-se em conta, nesta direção, é a consciência da complexidade e extensão da realidade social. Dela podemos apenas acercarmos, nunca dela possuir um conhecimento acabado. A realidade social, sendo histórica, está sempre em movimento, de modo a revelar-se-nos apenas em algumas de suas facetas, fazendo-nos escaparem tantas outras, por outro lado, não se trata de algo completamente fora do nosso alcance de sujeitos cognocentes desde que, sabendo-a em constante movimento, nos disponhamos a acompanha-la, também em movimentos, não nos quedamos estacionado, à espera de os fatos social venham espontaneisticamente ao nosso encontro; ao contrário, temos que nos mexer, por meio de passos metódicos, em busca de apreendê-la, ao menos parcialmente, já que, no todo escapa a nossa observação. Dentre os passos que nos permitem a cercar-nos dela, sublinhamos: – a observação contínua – trata-se de buscar, acompanhar, o movimento da Realidade, atentando aos múltiplos e sucessivos sinais por ela emitidos nas relações do dia a dia.

Neste sentido, avaliamos como profundamente fecundo o paradigma indiciário, isto é, aquele atinente aos sinais, que a vida social, a convivência com a natureza e seus distintos viventes, com os semelhantes, com os diferentes, e até antagônicos, estão sempre a nos oferecer. Não basta, porém, limitar-nos a uma observação qualquer. É preciso exercitar, sistemática e metodicamente, atentando para os significados dos sinais e das circunstancias típicas e atípicas. Mais 2 pontos, importa igualmente registrar-los, uma vez que nossa memória não é capaz, de reter toda a diversidade de manifestações da realidade social. Sendo assim, após observa-la, cuidadosamente, a partir dos registros sistemáticos elaborados, buscar interpretar os seus significados, como condição essencial de uma compreensão adequada da mesma realidade. Passo que também não nos garante uma intervenção exitosa na mesma realidade, mas disto nos aproxima, sendo um passo necessário, mas não suficiente, uma vez que intervir exitosamente na realidade social, em especial em suas raízes mais fundas, demanda-nos recorrer a passos complementares, que envolvem outros saberes e outras práticas sociais.

2. Por uma sociologia de nossas agendas

Nossas agendas implicam uma enorme diversidade de atividades, que tem lugar em uma múltipla gama de espaços socioambientais – cósmicos, biológicos, ecológicos, societais, comunitários, éticos, estéticos, econômicos, políticos, culturais… uma densa, complexa e extensa rede de relações interconectadas, tal como vem bem assinalado no belo poema/canção “Tudo está interligado” ( https://www.youtube.com/watch?v=1do_VBZG9Ps ) .

É justamente aí que se dão nossas relações do dia-a-dia, em função (ou disfunção) das quais organizamos nossas agendas. Se, por um lado, ainda quando nossas agendas se materializam mais diretamente em apenas algumas dessas esferas, é certo, por outro lado, que, direta ou indiretamente, se acham conectadas com todas as demais, estejamos ou não conscientes disto. Neste caso, a busca de nos conscientizarmos progressivamente desta dinâmica interação nos ajuda sobremaneira a lidar melhor, inclusive, no âmbito da(s) com que lidamos mais diretamente. E a recíproca também vem ao caso: nossa não ou insuficiente consciência desta interação empobrece ou esvazia nossa ação libertária, no chão do dia-a-dia.

O que acima vem assinalado não é uma quimera ou jogo de palavras. Para verificarmos o impacto de sua inscidência no nosso dia a dia, é suficiente que nos façamos perguntas do tipo:

– De uma simples lista de nossos sonhos e projetos, quais e quantos conseguismos realizar? E de tantos não realizados, quais e quantos nos mantemos empenhados, em materializar?

– Que fatores nos impedem de alcança-los, trata-se de fatores apenas externos ou, em larga medida, essa não realização, tem mais a ver com a pouca disposição e vontade, de nossa parte de buscar realiza-los?

– Em nosso calendário de atividades a curto, medio e longo prazos, para onde tem apontado: para uma perspectiva de mero cumprimento de rotina (profissional e de outras áreas) ou para um horizonte libertário, horizonte idenfificavel, pela qualidade dos fruto produzidos?

Por outro lado, desponta igualmente útil ao nosso processo de humanização perguntarmo-nos o lugar que em nossas agendas ocupam eventualmente diversas atividades voltadas para além do campo profissional ou estritamente familiar. Sabemos que o processo de humanização incide numa ampla diversidade de fios existenciais ou de quefazeres, que também devem refletir-se, de algum modo, em nosso cotidiano. Fios existenciais que vão da experiência intra-intersubjetiva à dimensão cósmica; do cuidado com a Mãe-Natureza aos cuidados hidro-agroecológicos; de uma saudável erótica ao exercício da mística; das relações sociais de gênero às de etnia; do movimento do corpo às atividades lúdicas; das relações políticas, econômicas e culturais, inclusive ao exercício das artes, em sua bela diversidade… Daí resulta irrenunciável a pergunta: que lugar tais dimensões constitutivas do nosso processo de humanização têm em nossas agendas?

Seria longa a lista de perguntas. Contentemo-nos por enquanto, com estas, com o proposito de que nos ajudem a compreender melhor nossas limitações pessoais e grupais. Com efeito, não se trata de uma auto-avaliação estritamente pessoal, mas também coletiva. Como educadores (individuais e coletivos) somos chamados constantemente a nos reeducar, sempre a partir do que fazemos em nosso dia a dia, e tomando tempo para revisarmos a qualidade de nossas ações, de nossa rotina, como se nos dissessem: “Dize-me da qualidade do teu dia-a-dia, e dir-te-ei do horizonte que persegues – libertário ou de estério rotina.” Seres vocacionados a buscarmos uma vida em plenitude, porque vocacionados à Liberdade, cuidamos de potencializar nossos dons e talentos, nesta direção, tal como atletas empenhados em superar seus próprios limites, como arqueiros que buscam alcançar seu alvo, por meio do cotidiano exercício do arco e da flecha. Aqui, tem especial lugar o trabalhar a dimensão volitiva (o querer, a vontade), de forma processual, mas efetiva, tentando, sem cessar, ensaiar passos libertários, ao tempo em que buscando serrar as prórias jaulas, manifestas sob múltiplas formas de aprisionamento.

João Pessoa, 29 de agosto de 2017.

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