NOTAS MIÚDAS SOBRE UM TEMA EM FILOSOFIA DA RELIGIÃO

Na história do pensamento Ocidental temos um fenômeno curioso, detectado por Kant na sua Crítica da razão pura, a metafísica como forma de pensamento e tema central na filosofia não se percebe propriamente um “progresso”, ou seja, um problema metafísico pode ser “provado” ele e seu contrário e não avança em nada além destas aparentes aporias.

Por exemplo, tanto se “prova” a existência de Deus como a sua inexistência. Segundo o mesmo Kant, isto não acontece nas ciências como a física ou matemática. Isto pode ser observado nos dois livros publicados no Brasil em 2006 e 2010. O primeiro intitula-se Dez provas da existência de Deus e o segundo, Dez provas da inexistência de Deus, ambos organizados pelo professor de filosofia Plínio Junqueira Smith e publicados pela Editora Alameda.

O organizador selecionou dez teorias de filósofos sobre a existência de Deus e dez outros filósofos que teorizam sobre a inexistência de Deus. Tem casos mais curiosos ainda: pelo menos três pensadores citados nas coletâneas tentam provar, tanto que Deus pode existir, como não existir, dependendo da abordagem que se toma como ponto de partida. Trata-se de Sexto Empírico, Cícero e David Hume.

A prova mais antiga na coletânea da existência de Deus, do século IV a.C., não tem conteúdo propriamente religioso, mas os argumentos se pretendem racional. É de autoria de Aristóteles, que constata estar tudo em permanente movimento no mundo, devendo existir, portanto, um “primeiro motor” que dá origem a todo esse movimento.

Afirma assim o Estagirita: “Mas o motor que não está em si mesmo em movimento, como foi dito, uma vez que permanece simples, sem variação e no mesmo estado, causará um movimento que é um e simples” (Física VIII, cap. 6). Primeiro clássico argumento sobre a necessária existência de um Deus gerador do primeiro movimento. A esse primeiro motor Aristóteles intitula Deus.

Já Anselmo de Cantuária na Idade Média defende a tese de que, no universo, deve existir algo maior do que tudo, não sendo possível conceber alguma coisa maior e esse maior que tudo é Deus. Aqui está a “primeira prova ontológica da existência de Deus”, bem destacada no primeiro volume. Nesse primeiro volume temos ainda. Além de Aristóteles e Anselmo, Tomás de Aquino, Descartes, Malebranche, Berkeley, Hume, Cícero.

Já no segundo volume onde se encontra os argumentos pela inexistência de Deus a partir de textos de Bayle, Diderot, Meslier (está um padre estranhamente ateu), Kant, Feuerbach, Nietzsche e Faure, percebe-se algo curioso, a saber, as supostas provas da inexistência de Deus são todas “filosóficas” (teóricas, argumentativas sem referência empírica), não havendo nenhum argumento que indique alguma observação do mundo material, como o fez Aristóteles para tentar provar exatamente o contrário.

Típico da filosofia. As “provas” mais importantes da inexistência de Deus são, significativamente, oriundas do século XVIII. Diderot postula que um Deus perfeito não poderia ter criado um mundo imperfeito, já Kant (mais um dado curioso, pois Kant era um religioso do movimento pi eguista alemão e esta no rol dos pensadores da inexistência de Deus!) defende que Deus é apenas um “postulado da razão pura”, uma simples idéia, não podendo de modo algum ser afirmada a sua existência fora do pensamento puro.

Coerente com a lógica da sua “Razão pura”, onde existir é caráter fenomênico, exteriorização. Deus não se exterioriza, logo, não pode ter caráter de existência. O termo para afirmar Deus deveria ser outro e não a existência.

Fazendo um balanço bem pessoal dos dois tipos filosóficos de resposta sobre o “problema de Deus”, o que se pode dizer é que, para quem tem fé, Deus “existe” (ou seja, Deus é e pronto). Para quem não tem nenhuma fé religiosa, Deus não existe. Não se pode provar que Deus existe. Por outro lado, também não se pode provar que Deus não existe, por não termos “provas suficientes” da sua inexistência e só termos indícios argumentativos. No fundo, ambos os problemas (existência e inexistência) são problemas de ordem metafísicos, sem provas objetivas.

Por fim, destaco um problema que percebo no volume sobre os argumentos que defendem a inexistência de Deus. O organizador cita textos de Nietzsche e o coloca numa posição de ateu. Acredito ser um equivoco (apesar de Nietzsche não acreditar num Deus metafísico). Em Nietzsche o ateísmo ainda é um problema metafísico e assim sendo, ele que ultrapassaria a metafísica não poderia ser ateu e, pior, sendo supostamente ateu (a palavra ateu tem como significado literal, negação de Deus), acreditou em algum momento que Deus existiu, o que seria uma contradição.

Nietzsche deveria figurar entre aquelas que o problema da existência e da inexistência de Deus não deveria ser um problema filosófico contemporâneo, mas teológico. Neste campo entraria Marx. De qualquer forma, os dois volu mes organizados por Plínio Smith são de grande importância para os estudiosos e curiosos em filosofia da religião. É como se tentasse organiza um campo desorganizado e confuso que é o “campo de problemas de uma filosofia da religião”. Num curso de filosofia da religião, os dois volumes deveriam ser obras obrigatórias e que cada depois tome o caminho que melhor lhe convier diante da possibilidade de existência ou inexistência de Deus.

O autor é professor na Universidade Federal de Sergipe.