No Pará, acampamento Frei Henri simboliza a luta histórica contra os latifundiários

Por Lilian Campelo

Cerca, pasto e boi são as imagens mais frequentes que compõem o cenário dos viajantes que percorrem as rodovias estaduais no sudeste do Pará em direção a Curionópolis.

No entanto, rodeada pelos grandes latifúndios e à margem da rodovia PA-275, uma enorme placa se atreve a informar que ali a terra cumpre sua função social no acampamento organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Em letras garrafais a placa estampa o nome do Frei Henri des Roziers, advogado de formação e dominicano por vocação que fazia parte da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O religioso, morto no final de 2017, era defensor de trabalhadores rurais na região de fronteira na Amazônia; foi a partir das denúncias do frei que os assassinos de dois líderes camponeses foram presos e condenados.

Tiros

Após vários anos de resistência, conflitos, tensões e batalhas judiciais, o MST venceu e conseguiu a desapropriação das terras da Fazendinha, entre os municípios de Curionópolis e Parauapebas, que estavam ilegalmente registradas em nome de um latifundiário poderoso,

Foi em 2010 que trabalhadores rurais sem terram percorreram a rodovia estadual em direção à fazenda Fazendinha para realizar a ocupação da área.

A lembrança dos dias luta entre os sem-terra e os fazendeiros da região ainda é viva para Ayala Ferreira, da direção nacional do MST em Marabá. Ela recorda que foram diversas tentativas entre avanços e recuos dos trabalhadores para ocupar o espaço enquanto do outro lado tiros eram disparados e caminhonetes bloqueavam a rodovia em ação realizada pelos pecuaristas.

Ao final de dias seguidos, depois da intervenção da polícia para desbloquear a rodovia, os sem terra conseguiram seguir em marcha até a fazenda e instalar o acampamento. Para Ferreira essa foi a primeira conquista que marcou uma geração inteira de agricultores.

“Sete anos de luta e esse território marca uma geração de militantes do MST, por tudo, pelas possibilidades, mas também pelos limites; e toda vez a gente é testado, em nossa convicção, na crença que nós temos nesse projeto da reforma agrária, da emancipação dos camponeses e da classe trabalhadora como um todo”.

A dirigente do MST conta que a ocupação na Fazendinha também foi uma resposta de que o movimento não iria esmorecer e se refere aos assassinatos no dia 6 de março de 1998, Onalício Araújo Barros e Valentim Silva Serra, Fusquinha e Doutor, como eram conhecidos as duas lideranças do MST, a mando do pecuarista proprietário da fazenda Goiás 2, em Parauapebas, de onde as famílias haviam sido despejadas após ocupação. Dois anos antes, em 1996, na Curva do S, em Eldorado dos Carajás, a 75km de distância entre a sede dos dois municípios, ocorreu a chacina que vitimou 21 trabalhadores rurais sem-terra.

Campesinato

A luta pela reforma agrária na Amazônia também se eleva a um grau de embates e desafios equiparado as suas vastas extensões territoriais. Por exemplo, Charles Trocate, membro da coordenação do Movimento Nacional pela Soberania Popular Frente a Mineração (MAM), aponta duas problemáticas: a visão que o brasileiro médio tem sobre a Amazônia, a disputa pelos seus recursos naturais e os conflitos gerados; e a outra relacionada ao foto que “os próprios amazônidas” não conseguem uma correlação de força devido as diversas pressões instaladas.

Contudo, diante disso, Trocate considera que a luta “dos campesinos organizados sejam o evento mais moderno dos últimos 50 anos da Amazônia, e no caso, especificamente, no que diz respeito da construção do MST no estado do Pará”, pontua.

Construção histórica essa que pode ser contada através da vida de Raimundo Ferreira, 60 anos, mais conhecido como Neguinho, da direção estadual do movimento. Piauiense de Floriano, chegou no Pará aos 18 anos, 1976, e foi morar com a tia em Marabá.

Roupas brancas

Na década de 1980, com a explosão do ouro, em Serra Pelada, Neguinho virou garimpeiro. “Não bamburrei”, conta ele, usando a expressão que indica o enriquecimento por meio do garimpo – sonho de todos os milhares de trabalhadores que tentaram a sorte em Serra Pelada.

O homem de corpo franzino e de ancestralidade da diáspora negra viu nascer Curionópolis. O município era governado pelo então major Sebastião Curió, oficial enviado pelo governo militar para manter o controle do garimpo de ouro. Na prática, ele atuou como uma espécie de interventor do estado.

Figura autoritária na área do garimpo, Sebastião Rodrigues de Moura usava diversos nomes falsos e apelidos para se infiltrar na região durante ações militares secretas. Curió foi o nome que ele usou durante a operação de extermínio a guerrilha do Araguaia, no início dos anos 1970.

Nessa época, Neguinho lembra que havia muita repressão na região. O marido da tia que morava em Marabá era gerente da fazenda Fortaleza e relembra que para os funcionários não serem confundidos com os guerrilheiros todos vestiam roupas brancas.

O ouro em Serra Pelada atraiu um grande fluxo migratório para a região, somados a política de incentivo à ocupação e integração da Amazônia da ditadura militar, “Terra sem homens para homens sem terras”, formou com diversos sotaques o sul e sudeste do Pará.

“Nunca trabalhei para fazendeiro”, diz orgulhoso Neguinho, mas assim como ele muitos nordestinos, grande parte camponeses, foram excluídos das políticas governamentais. No garimpo ele já mobilizava os garimpeiros fazendo trabalho de base, década de 1990, época que o ouro já estava em escassez. Em 2007 entrou para o MST.

Trocate conta que o MST no Sul do Pará nasce nessa conjuntura de “polo de luta radicalizado, desde os posseiros das fronteiras e do estabelecimento do ideário da guerrilha do Araguaia” e da presença indivíduos que precisavam se organizar criando uma “identidade de luta política” para fazer o enfrentamento, seja contra os fazendeiros ou contra os grandes projetos instalados na região, a exemplo do Projeto Grande Carajás, o maior polo mineral do mundo descoberto na segunda metade de 1960.

Assim como outros acampamentos, o Frei Henri carrega esse arcabouço histórico e a desapropriação da área ocupada ilegalmente pelo fazendeiro representa um marco na luta, como argumenta Trocante, que por alguns anos teve que se manter escondido, sofreu ameaças de morte.

“Esse acampamento [Frei Henri] ele é um território pequeno, mas parece que conquistamos muito milhares de hectares pela importância geográfica e pela importância de ser contra um grupo que sempre rivalizou conosco de maneira armada, sempre conspirou nos grandes gabinetes da política e da polícia dessa região para eliminar nossos dirigentes”.

Edição: Juca Guimarães

Fonte: Brasil de Fato

https://www.brasildefato.com.br/2018/05/15/no-para-acampamento-frei-henri-simboliza-a-luta-historica-contra-os-latifundiarios/

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