No ônibus, ‘palavrões, terror psicológico’

Por Professor Pascal, via Facebook, publicado originalmente no Viomundo.com.br

Esse sujeito no vídeo que é arrastado pra fora do cerco que a PM fez, sou eu. Sou professor de Geografia, estava na manifestação do dia 22 de fevereiro, junto de um ex-aluno que encontrei por lá e de dois monges franciscanos que também apoiavam os protestos.

Tudo corria bem, sem nenhuma ação direta que justificasse o discurso de repressão, conversava com meu ex-aluno e com os monges.

Sem nenhum motivo, ressalto novamente, NENHUM MOTIVO, a polícia partiu pra cima de TODOS os manifestantes, fizeram uma estratégia de cercar todo mundo, enclausurando dentro de um círculo de policiais onde espancavam com cacetetes qualquer pessoa que estava nesse cerco, havia idosos, mulheres, menores de idade, jornalistas, fotógrafos, enfim, todos que estavam por ali.

Dentro do cerco que criaram começaram a mandar todos sentar, de cima pra baixo desferiram golpes de cacetete nas pessoas e jogaram spray de pimenta.

Comecei a filmar com o celular nessa hora, os policiais começaram a gritar para eu desligar o celular me ameaçando de agressão, um soldado (que é esse que aparece no vídeo sem capacete me puxando pra fora) desferiu um golpe na minha mão mas a intenção era acertar o rosto, mandou eu apagar o vídeo (coisa que não fiz) e me retirou do cerco, me algemou e me deixou encostado na parede.

Ficamos lá por volta de duas horas sentados, enquanto os policiais hostilizavam com agressões verbais e físicas todo mundo, xingavam meninas (que variavam de 16 a vinte e poucos anos) de putas, e vasculhavam as mochilas de todos a procura de algo que incriminasse.

Diziam que as máscaras, capacetes e proteções eram prova que os “vândalos” tinham indo predispostos a violência.

Impediram que advogados e jornalistas se aproximassem.

Depois começaram a trazer os ônibus da polícia e não cabiam todos que estavam presos, aí começaram a “separar” quem iria ser detido e encaminhado para a delegacia.

Jovens com boa aparência, alguns de camisetas de partidos políticos (nem todos) e alguns menores foram liberados.

Negros (todos que estavam lá ficaram), jovens que vestiam preto (qualquer peça de roupa, isso já era indício pra eles), muitas mulheres (todas as meninas de cerca de 20 anos e uma grávida que ficou no mesmo ônibus que eu) e qualquer um que eles desejavam.

Faziam piadas olhando pra cara das pessoas e um capitão da PM perguntava pra tropa se essa ou aquela pessoa ia ser presa, a tropa ria e se divertia com a piada do oficial enquanto escolhia quem seria preso.

O capitão perguntava se essa vadia ia ser presa, se esse com cara de nerd, se aquele terrorista, e por aí vai.

Colocaram todos nos ônibus, ficaram mais de uma hora só pra sair de onde estávamos.

Rodaram pelo centro e tentaram parar em uma DP, numa travessa da rua Augusta.

Não conseguiram e foram para a 5a DP da Aclimação.

As hostilidades continuavam no ônibus, ameaças, palavrões e terror psicológico. Um policial conversava com outro, atrás de mim, dizendo que tinha professor preso e que “se descobrisse que um vagabundo desse fosse professor do seu filho iria sentar a porrada, no professor e na diretora que contratou”.

Ao chegar na delegacia, ficamos mais duas horas dentro do ônibus onde estava insuportavelmente quente, sem beber água e sem direito de usar o banheiro.

Lá havia pessoas feridas, uma menina grávida e um homem que se queixava que tinha problema nos rins e tinha que usar o banheiro.

Foram mais hostilidades e palavrões, negaram o direito de usar o banheiro, telefonar para advogados e beber água, já estávamos há mais de 5 horas detidos após sermos espancados, intoxicados com lacrimogênio e spray de pimenta.

Os policiais bebiam água na nossa frente e diziam que a delegada havia negado o direito de beber água e usar o banheiro.

Ouvi, de dentro do ônibus, já eu estava na janela, uma conversa entre oficiais que estavam do lado de fora, dizendo que aprenderam algumas coisas no centro mas não as pessoas, só suspeitos, um oficial oriental que estava lá disse “qualquer coisa eu vi que foi ele”, quem estava no fundo do ônibus se entreolhou e ficamos quietos pois essa era a ordem.

Após a chegada de alguns advogados pessoais e de partidos, algumas pessoas foram sendo liberadas, o restante foi sendo liberado em grupo de 5 pessoas, demorava cerca de 45 minutos por grupo. Existiam mais de 45 pessoas nesse ônibus. Os que reclamaram pela falta de água ficaram por último por ordem dos soldados que estavam lá dentro do ônibus.

Chegou a minha vez, solicitaram meu RG e dei meu nome e perguntaram se já tinha alguma passagem, disse que nunca.

Fui liberado e já era por volta da 1h da manhã, quando saí existiam ainda cerca de 20 para serem liberados.

Menores ficaram apreendidos à espera dos familiares ou iriam para a Fundação Casa. Não havia provas contra ninguém, a “averiguação” foi para aqueles que eles julgaram na hora.

No dia seguinte, domingo, fui fazer um boletim de ocorrência por agressão dos policiais, na delegacia descobri que não foi uma averiguação, eu estava sendo acusado de desacato, resistência e lesão corporal.

Bom, se a partir de agora considerarem que gemer após ser espancado é desacato, que se proteger para não ser agredido no rosto é resistência e que causar calos nas mãos dos policiais por esforço repetitivo diante das pancadas de cacetete é lesão corporal, sim, sou culpado.

Estarei na próxima manifestação da mesma forma que estive em todas as demais que participei e não será por lei anti-terror federal que buscam aprovar, prisões arbitrárias do governo do Estado de São Paulo ou apoio da mídia à repressão (a mesma mídia que busca ordem e deseja liberdade de expressão para seus funcionários e não para os manifestantes, e compreendendo seus vínculos e interesses não esperaria outra coisa), que ficarei em casa.

Já fiz uma denúncia online para a corregedoria e farei o boletim de ocorrência por agressão que não me permitiram fazer e sugiro que todos que foram detidos façam o mesmo.

De resto, espero encontrar os filhos dessas pessoas que orquestram a repressão em minhas aulas e, tenham certeza, serão educados para a liberdade e para evitar reproduzir os piores valores que aprendem em casa; pra fazer isso não preciso de cacetete, nem gritos, nem disciplina e muito menos usar as notas, será feito com diálogo, compreensão e bons argumentos.

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