No deserto com as feras de hoje

A cada ano, ouvimos esse evangelho da tentação de Jesus no deserto. Marcos (Mc 1, 12- 15) é um relato extremamente sóbrio e resumido. Depois de mostrar que Jesus inaugura o mundo novo pelo mergulho no Jordão (batismo), ele vai para o deserto. É no retomar o caminho do Êxodo que Jesus se prepara a missão.

No enfrentamento consigo mesmo – com suas feras interiores e em uma luta na qual os mensageiros de Deus o servem e ajudam. Ao fazer isso, Jesus retoma o caminho do antigo povo de Deus no Êxodo e também nos indica qual deve ser nosso itinerário hoje. Enquanto certos grupos de tipo carismáticos pensam que ao se encher do Espírito, esse os conduz a um ambiente religioso e fora do mundo (sinto que essa é a tentação de monges e monjas também), Marcos diz que Jesus é empurrado pelo Espírito para o deserto e é para a luta. A luta contra tudo o que impede a sua missão. Satanás representa “o outro lado”  que sempre nos ocorre – significa as diversas tentações – provas que Jesus vai ter de enfrentar – oposições dos religiosos – oposição dos aliados do império – que ele veio derrubar – oposição dos próprios discípulos – tentações que vão ocorrer durante toda a vida de Jesus e durante todo o tempo para nós também.

Hoje, rezo quais as tentações que devo enfrentar hoje, em que deserto, o Espírito me leva agora e como vivê-lo. Sei que na linguagem apocalíptica do evangelho de Marcos, as feras com as quais Jesus meditava não era leões e panteras. Eram os medos, os fantasmas interiores, assim como nos livros apocalípticos as feras são também os impérios e poderes do mundo. Mas, ainda bem que os mensageiros de Deus vêm servi-lo.

Ontem à tarde, no encontro da Partilha, fizemos um gesto que era comum em algumas Igrejas orientais. Cada pessoa repartiu uma folha de papel em três partes e, depois de orar e invocar o Espírito, escreveu, em cada parte, aquilo que acredita que Deus está lhe pedindo agora para intensificar nessa Quaresma. Na primeira parte da folha, algo que diz respeito à relação consigo mesmo, na segunda parte da folha, algo referente ao cuidado e responsabilidade com os outros, na terceira parte, algo a ser intensificado na relação com Deus. Depois de escrever, cada um dobra as três partes da página em várias partes e mostra os três papeis ao irmão ou irmã que está a seu lado. Ele ou ela escolhe uma das três que eu escrevi e me devolve (sem ler). Só escolhe para mim, mas me devolve. E aquela é das três, a que Deus me pede que priorize nesse momento da minha luta…

Entre as três que eu tinha escrito, a que Cristina que estava ao meu lado escolheu e me deu foi a que dizia respeito ao cuidado comigo mesmo – atenção maior para viver aquilo que eu proponho aos outros. É interessante porque assim que acabamos de fazer essa dinâmica que é comum em alguns grupos das Igrejas orientais, um dos irmãos, Geraldo, falou que dos três compromissos – comigo mesmo – com o outro e com Deus – o primeiro que pode garantir a sanidade dos outros dois, é comigo mesmo…

Vamos então para o deserto dessa Quaresma e nos preparar para a alegria e a renovação feliz da Santa Páscoa.

(18-02-2018)

 
 

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